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Hayz : o modernismo que uniu idéias!

Em tempos de internet, a amizade entre as integrantes da Hayz se deu ali na década de 90 pelas cartas sociais, uma maneira de comunicação ágil da época, e agora anos depois se juntam pelo propósito de uma banda, e falamos com elas sobre isso!

Nos contem um pouco sobre como surgiu essa amizade nos anos 90 e só culminou anos mais tarde, como banda?

Lá nos anos 90, nesses tempos pré-internet, as cartas sociais eram o meio de comunicação mais eficaz pra conhecer bandas, tomar contato com política (feminismo, anarquismo, vegetarianismo, …) e fazer amigxs. Foi assim que a Josie e Roberta se conheceram. Josie morava (ainda mora) em Itapevi e tocava na banda Grito dos Aflitos e depois na Cosmogonia, e Roberta morava em Brasília e tocava na banda Pulso. Depois Roberta se mudou pra São Paulo e as duas mantiveram contato, se admirando musicalmente à distância, mas sem nunca terem tocado juntas.

Eu (Bruna) sou de Juiz de Fora e organizava um festival de cultura feminista chamado Mulheres no Volante. Conheci a Josie em 2009, quando ela tocou no festival. Em 2010 me mudei pra São Paulo, mas a gente só foi retomar contato em 2017, quando a Josie escreveu uma matéria pro portal Mulher na Música sobre a edição de 10 anos do Mulheres no Volante.

Aqui em São Paulo, cheguei a tocar na Santa Claus até 2013, e elas participaram de outras bandas também, mas todas nós estávamos afastadas da música há pelo menos cinco anos, devido aos corres e momentos da vida. Então, por dentro, todas nós três estávamos loucas pra voltar a tocar de novo.
Em 2018 a Josie resolveu voltar a fazer som e me chamou pra tocarmos juntas. Eu conheci a Roberta quando entrei no estúdio. E aí deu match. (Risos)

Foto por Gabi Delgado

Vcs são uma de cada canto do país, como foi se reunir pra esse propósito?

O mais legal de sermos de cantos diferentes é que temos vivências muito distintas, mas a base comum a todas é o punk feminista. A Roberta tocou com integrantes do Bulimia em Brasília, a Josie cresceu na cena hardcore/punk em São Paulo e tem um profundo conhecimento desse rolê. Eu organizei o Festival Mulheres no Volante por 10 anos, conheci muitas manas incríveis, e toquei em bandas de lo-fi/noise também. Então cada uma traz uma contribuição diferente pras músicas com base no que viveu.

Como adotaram o nome pra banda?

Queríamos um nome que soasse neutro, que não fosse identificado a nenhum gênero específico, pois somos uma banda de queercore, e somos meio místicas – exceto a Roberta, que odeia astrologia… Então a Josie acabou descobrindo esse termo HAYZ, que significa, explicando bem toscamente, um fenômeno que acontece quando um planeta está na posição mais favorável para que as características de seu signo estejam em evidência.

Achamos que tinha tudo a ver com o momento da vida em que estávamos passando e com a banda ter surgido desse encontro. Nós três estávamos passando por desafios intensos na vida pessoal, além de todo o momento sombrio pelo qual o Brasil passa hoje, obviamente. Por outro lado, como já disse, estávamos loucas pra voltar a tocar, mesmo que inconscientemente, então jogamos nossa energia na banda e foi um encontro perfeito.

Do que vcs gostam de transmitir nas canções?

A Josie costuma dizer às vezes no começo dos shows: “Nós somos a banda HAYZ e não temos boas notícias”. As músicas são meio que isso. Falamos sobre experiências pessoais, algumas boas, outras nem tanto. A faixa “Apodrecendo” talvez seja a mais sensorial, outras como “Não-Lugar” falam mais abertamente sobre deslocamentos e incômodos. “Plena” aborda desafios que vivemos em nosso cotidiano, mas não com um tom de melancolia, e sim com um tom de resistência.
Claro que também não poderíamos deixar de lado o feminismo, como nas músicas “PAX”, que fala sobre violência sexista, e “Kings”. Essa última é a faixa bônus do EP e tem gerado uma resposta bem legal do público nos espaços em que temos tocado. Ela retoma um episódio de abuso que aconteceu na cena hardcore em São Paulo há poucos anos pra dizer que não esquecemos e que estamos aqui pra cobrar uma postura diferente, pois infelizmente essa é uma realidade ainda muito presente, não só em São Paulo, não só dentro do HC, mas em qualquer outro canto dessa sociedade patriarcal.

Esse trabalho foi gravado num tempo bem baixo, como foi encarar dessa forma o estúdio?

Gravar tudo separado nunca foi uma opção pra nós porque não tínhamos grana pra isso. E queríamos que o EP soasse exatamente como nosso show, e com peso, então a gravação ao vivo foi de fato a melhor opção. Escolhemos o estúdio Papiris, na Vila Leopoldina, devido à qualidade do som lá e ao trabalho atencioso do Caio Monfort. Então gravamos batera, baixo, bateria e voz das seis faixas em apenas sete horas. Refizemos apenas alguns trechos específicos de vozes depois.
Ficamos bem felizes com o resultado. Na realidade foi meio doideira gravar um EP com apenas seis meses de banda, mas achamos importante fazer esse primeiro registro, porque hoje em dia o modo como as pessoas consomem música e conhecem bandas mudou. Até pra você marcar um show as pessoas pedem pra você mandar o link do som, então com o EP gravado facilitou muito esse processo.
Além disso tudo, 2018 foi um ano de muitas incertezas pra todo mundo, e todo mundo sabe como é difícil ter banda hoje em dia. Eu pessoalmente tinha uma vontade muito grande de registrar o que estávamos passando, pois ninguém sabia o que viria depois. Então foi assim, no susto. (Risos.)

Foto por Gabi Delgado

Quando surgiu a parceria com a Efusiva e Howlin’ Records?

Queríamos, em primeiro lugar, que o lançamento fosse por um selo punk feminista. Eu sou parceira de longa data das manas da Efusiva e considero esse um dos selos mais importantes do Brasil hoje. Conhecemos a Howlin’ Records por meio da parceria que esses dois selos fizeram pro lançamento do EP da banda In Venus e adoramos a idéia. A Howlin’ está passando por uma reformulação agora, mas foi um selo que surgiu com a proposta de funcionar de forma colaborativa como um coletivo de artistas e produtores/as, então curtimos muito essa proposta também.

Nos falem sobre o conceito do título e capa do álbum?

O título “Não Estamos Mais em Casa” foi extraído de um trecho da música “Dorothy” e transmite bem o conceito do EP. As músicas abordam essas sensações de deslocamento, não pertencimento e caos interior. A arte do álbum foi
desenvolvida pelo artista Jorge Kuriki com base em uma ideia nossa. O Jorge captou essa ideia e conseguiu expressá-la visualmente de uma forma bem forte e linda.

Foto por Gabi Delgado

O que planejam pra breve?

Estamos fazendo um monte de shows pra divulgar o EP, mas em breve vamos diminuir o ritmo porque estamos trabalhando em novas músicas. Planejamos gravar um single ainda este ano e lançar um disco cheio em 2020.

Considerações finais

Super obrigada pelo espaço! Adoramos a entrevista com as Sisters Mindtrap.
Estamos vivendo um momento bem interessante de explosão de bandas de mulheres pelo Brasil e espero que possamos ver cada vez mais minas no Raro Zine.

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