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Leptospirose: uma jóia rara do nosso interior!

Escrever sobre uma banda que em breve irá comemorar duas décadas de atividade, têm vários discos lançados, turnês pela Europa e América do Sul, sem citar passagens por quase todos os estados brasileiros, não é uma das tarefas mais fáceis, mas é algo desafiador e prazeroso ao mesmo tempo, pois é possível viajar no tempo. Então, apertemos o cinto e sigamos rumo ao passado.

Conheci Quique Brown, vocalista e guitarrista da Leptospirose, em algum dia de qualquer mês entre 2004 e 2005, quando era proprietário da Wayne Stock Discos. Lembro-me de chegar para abrir a loja e me deparei com um cara que olhava por entre os vidros o que havia na parte interna. Nos cumprimentamos, ele se apresentou e perguntou se podia deixar cartazes de divulgação para um show do Cólera, que rolaria em Bragança Paulista.

Não me lembro mais do que conversáramos, mas ele havia dito que tinha uma banda e estava para lançar, ou havia recém lançado, o primeiro CD. Algum tempo depois desse papo, Quique Brown retorna para Itatiba, desta vez com mais cartazes e, além disso, CDs da banda, o “Invernada”. Ele ainda me presenteou com uma camiseta do “Leptos”, que era feita com camiseta comprada em brechós e depois estampada, segundo a lenda.

Assim que o Brown deixou o recinto, botamos o Invernada para ouvir e, junto com outros colegas e clientes que frequentavam a loja, foi “amor a primeira ouvida”. O primeiro impacto foi a quantidade de canções, 15, executadas em menos de 15 minutos. A capa muito chamativa, o instrumental era algo absurdo: um baixo como era raro de se ouvir, com muita técnica e a bateria parecia algo que anunciava o fim do mundo. O vocal rasgado de Quique vomitava letras que iam do mais completo nonsense até as críticas sociais que estávamos e ainda estamos, infelizmente, a acompanhar em cidades de todos os portes no Estado de São Paulo. Letras em português, com exceção de “Perro Locon”.

Entre as 15 pedradas desse álbum de estreia, destaco “Invernada”, a citada “Perro Locon”, “GEDN”, “Punk Rock”, “Lascada na Areia”, “Ovo de Páscoa” e a minha canção favorita da banda, “Met. O’Outlaw”, que relata uma passagem (fictícia) da vida com Roberto Carlos, o “rei”, e Raul Seixas.

Óbvio que após ouvir o disco “um milhão de vezes” fui ver como seria ao vivo. E o espanto foi ainda maior, os caras faziam tudo aquilo que estava na “bolachinha”, mas ainda mais rápido. O tempo urge para o Leptospirose. E nos palcos e festivais da vida foi possível notar toda técnica e classe do baixista Velhote e todo o peso, fúria e, também, técnica do baterista Serginho, o Keith Moon brasileiro.

Em analogia tosca com o futebol, o power trio mostra o quanto é importante, e bom, ter pessoas com capacidade técnica apurada no time, mas também é tão importante ter um zagueiro, ou volante, que mesmo sem a mesma capacidade técnica, é capaz de dar todo suporte para que os craques apareçam. Talvez esteja aí o segredo do sucesso do Leptospirose.

LAPISEIRAS NO CÉU

Com primeiro álbum de destaque, em 2007 a Leptospirose embarca para turnê na Europa, junto com os capixabas do Merda. Além da turnê em parceria, elas lançaram um split com cinco canções cada. Dentre estas músicas, as bandas gravaram músicas uma em homenagem à outra, sendo que os nomes das bandas estão no título.

Neste caso, dentre as cinco músicas que a Leptospirose gravou para o split Lecker, uma levava o nome “Merda” e eles fizeram uma versão para “Mamãe costura meus patches”. O Merda retribuiu e gravou uma com o nome “Leptospirose” e fez versão para GEDN, do Invernada.

Nas faixas do Leptospirose, Quique Brown seguiu a receita do primeiro disco da banda, canções curtas, rápidas, com letras nonsense, mas com aquela pitada crítica. O som desta vez soou mais cru do que no primeiro disco solo deles, mas ficou sensacional! E com esse split, a banda, com os camaradas do Espírito Santo, seguiu para uma grande aventura em terras europeias, que foram descritas no livro “Guitarra e Ossos Quebrados”, escrito por Quique Brown.

A turnê que teve ótimos shows dos brasileiros em solo europeu, que infelizmente terminou antes do previsto devido a um acidente em rodovia, que deixou vários feridos, por isso o título do livro escrito pelo Brown, ainda rendeu um ótimo documentário feito por Binho Miranda.

MULA PÔNEY

Quase um ano após a turnê europeia, a Leptospirose embarcava para o Rio de Janeiro, local onde gravariam o segundo álbum, que seria produzido por Rafael Ramos, um dos principais produtores brasileiros à época.
Com 18 faixas, com uma regravação do split e com duas com letras em inglês e uma em espanhol, o trio bragantino gravou, para mim, o melhor álbum deles. Neste disco, em outra comparação tosca com o futebol, os caras tocaram como jogou a seleção de 70, impecável.

Com faixas mais rápidas e agressivas em comparação com o primeiro disco, Serginho e Velhote se destacaram assim como Pelé e Jairzinho na mágica seleção do tri. Logo na abertura do disco, Velhote mostra ao que veio, assim como seu colega de cozinha. Brown apareceu com um vocal ainda mais rasgado e violento.

Guitarra, baixo e bateria dialogam nesta obra com o máximo de urgência possível, como se não houvesse amanhã. As letras seguiram o mesmo estilo de Invernada mas a musicalidade extrapolou limites e rótulos. Como definir o som dos bragantinos? Punk, hardcore, grind, metal, crossover? Põe tudo isso na panela, mistura e adicione pitadas de jazz, sim, em várias canções há quebras de ritmo e levadas que nos remetem ao estilo criado por afro americanos.

Têm dúvidas? Põe o CD e ouça “Política”, “Foot on the monitor”, “Pantanal”, “My name is Luis Henrique Camargo Duarte. And yours?” e a minha favorita “Prometo não parir pôneis”.

Mula Poney não era somente um disco, era o “Disco”. E foi neste trabalho que o mestre das caveiras, Daniel ETE, fez sua primeira capa para a banda, além dos desenhos do encarte. Se faltava algo para o disco ser um clássico, a parte gráfica tratou de suprimi-la.

SANDUÍCHE DE PIMENTA

Após muitos shows, turnês e tudo o mais, entre o final de agosto e início de setembro de 2010, a Leptospirose gravava na capital paulista, com produção de Juninho (Ratos de Porão), seu terceiro álbum, denominado Aqua Mad Max.
Assim como vinho, a cada novo disco os músicos apresentaram evolução positiva. A bateria de Serginho e o baixo de Velhote destacam-se tranquilamente em canções urgentes e riffs infernais de Quique Brown.

E este álbum, que também foi lançado em vinil, mostra claramente a diferença do lado A para o B. O lado A é mais emergente, algo que realmente precisava ser dito de maneira simples e direta, ouça “Em maio todo mundo janta pipoca na minha cidade”, “Chá é o que há”, “Aeromodelismo também é ismo”, “Onde estão os arqueiros”. No lado B, a pegada muda um pouco em algumas faixas… e este é o disco com mais letras em inglês da banda.

Se o Mula Poney era o Brasil de 70, o Aqua Mad Max é o carrossel holandês de 1974. E a arte foi novamente elaborada por Daniel ETE que criou um encarte monstro e que tranquilamente vira um belo poster para se colocar na porta ou parede do estúdio, ou mesmo do seu quarto

 

TATUAGEM DE COQUEIRO

Lançado entre o final de 2013 e início de 2014, último registro do Leptospirose em estúdio, podemos dizer que foi o disco que foi a trilha do último período “feliz” do Brasil. Todos sabemos que após as eleições de 2014 o país mergulhou em um caos profundo do qual está difícil sair e a situação deteriora a cada dia.

Gravado na capital paulista e com produção de Fernando Sanches, o álbum traz aquilo que estamos acostumados no som do power trio bragantino, mas desta vez com pouco mais de melodia. O peso está lá, assim como a urgência, mas as músicas em todo conjunto com uma pegada um pouco diferente do que nos dois álbuns anteriores.

Assim como em Mula Poney e Aqua Mad Max, a arte ficou a cargo de Daniel ETE que criou uma de suas obras mais clássicas. O encarte também dá um belo poster, e em um dos lados, além de obra do ETE, há desenhos que remetem à tatuagem de coqueiro feita por outros artistas.

De volta à comparação tosca com o futebol, podemos dizer que esse álbum seria a seleção brasileira de 1982. Uma banda experiente, coesa, que aprimora suas qualidades e aceita os desafios.

Passados mais de cinco anos de Tatuagem de Coqueiro, o último registro dos bragantinos em estúdio, aguardamos ansiosamente um novo trabalho. A banda segue seu caminho conforme os músicos conseguem conciliar suas agendas. Os shows seguem enérgicos e pegados. Mas não vemos a hora de ouvir novas canções. Como o power trio pretende nos surpreender?

Foto principal Binho Miranda 

Ivan Gomes, 41 anos, é jornalista, professor, jogador de futebol de botão e apresenta o
programa A HORA DO CANIBAL, toda segunda para terça-feira, à meia-noite, pela Mutante
Rádio.

Todas as fotos acervo Canibal Vegetariano

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