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O lado primitivo : The Dirty Coal Train

Conversamos com o duo mais garageiro de Portugal, também já conhecidos em terras tupiniquins, The Dirty Coal Train, fala do seu mais recente álbum “Primitive”, splits com bandas amigas e nova turnê no Brasil.
 
Como se originou o Tdct ?como adotaram o nome ?
 
Os The Dirty Coal Train começaram como um projeto do Ricardo quando acabou a banda indie rock onde ele tocava e gravava antes (Puny). Nasceram de uma vontade de fazer um som bem mais simples, cru e punk. Que espelhasse o gosto pelo garage dos 60s e do Garage punk de editoras como a Crypt Records, In the red, Gonner Records,… O nome vem associado ao imaginário blues e os seus mil e um temas sobre saltar num comboio para fugir da cidade. Isso e brincadeira com Coltrane. A banda por vezes assina Dirty Coltrane em vez de The Dirty Coal Train. 
 
Quando o garage rock entrou na vida de vocês?
 
O original entrou sem darmos por isso com Beatles, Stones, Yardbirds, Troggs,… mais tarde descobrimos bandas dessa altura bem mais fortes para o nosso gosto como os Stooges, We the People e os The Seeds. Mas o que nos identifica mesmo é o garage punk que inclui uma onda revivalista certo como os Gravedigger V e os Fuzztones mas coisas mais “fora da caixa” como Cramps, Oblivians, Dead Moon, The Gories, Chrome Cranks, Blues Explosion e as bandas todas de Billy Childish. Aí sim, “o bicho pegou” pois misturava o som dos anos 60 com a energia punk e as bandas são bem diferentes entre elas! 
 
Foto por Sérgio Lemos 
 
Pessoalmente sei que vcs gostam  de muitos estilos ,o que vcs tem ouvido ultimamente?
 
Sim, adoramos garage e punk mas não somos duros de ouvido! Haha! Neste preciso momento estamos a ouvir um gajo inglês o Cleaners From Venus que gravava em casa com gravador de pistas e aí somos tendenciosos pois fazer DIY é meio caminho para nós gostarmos. O som é um pop de guitarras feito nos anos 80. Não costumamos ouvir muito mas está a ser bem agradável! Alguns dos últimos discos que rodaram aqui e o respectivo género (para não assustar nenhum roqueiro com escolhas inesperadas! haha) foram : Wolfmanhattan Project – “blue gene stew” (para nós um dos álbuns rock garageiro do ano! bem simples nas fórmulas os 3 músicos parecem estar genuinamente a divertir-se! e rock deve ser mesmo isso porra! Os músicos também não são inocentes: Kid Congo dos Cramps, dos Gun Club e dos Bad Seeds de Nick Cave, Mick Collins dos The Gories e Dirtbombs, Bob Bert que foi baterista em Sonic Youth, Pussy Galore, Chrome Cranks e com a Lydia Lunch!! Puta elenco de luxo!), Agathocles – “abrir las puertas” (banda essencial belga de Grindcore / Mincecore. Som bem pesado, atitude bem punk!), Fela Kuti – “teacher don’t teach me nonsense” (som afrobeat, bem livre e africano e mensagem quase anarco-punk como grande parte das mensagens de contestação de Fela Kuti), Half Japanese – “Invincible” (album mais recente para uma da maiores bandas do rock independente americano com o grande Jad Fair. Esta banda já teve na sua formação gente como: Moe Tucker dos Velvet Underground, Fred Frith dos Skeleton Crew e Henry Cow e de muitas outras bandas, John Zorn, Rob K e os Workdogs, Don Fleming dos Gumball e dos Dim Stars, Kramer dos Bongwater, … ), Tiago Sousa – “Walden Pond’s Monk” (Compositor e pianista português, um som bem calmo e introspectivo), Guitar Wolf – “Love & jett” (regresso de uma das bandas mais fodidas do garage punk com um álbum do caralho!!), Iannis Xenakis – “Orchestral Works” (composição moderna pelo compositor grego que usava fórmulas matemáticas e ruído nas suas composições, é um disco algures entre o calmo introspectivo e o ruido fodido), Hiatus – “Old Fashioned Shit For Consumers” (compilação de uma das nossas bandas Crust Punk preferidas).
 
Como foi trabalhar com o Luis Tissot?e como conheceram o trabalho dele?
 
Já conhecíamos o nome do Luís em Portugal como “aquele gajo das Human Trash” e Fabulous Go-Go Boy from Alabama. Conhecer a pessoa foi logo um click por acharmos muito boa onda e termos tanto gosto comum sobretudo aquela escola de som bem cru dos blues da Fat Possum! Aí foi beleza trabalhar com ele! Tem gente que complica o som garage e a produção e por vezes quase que dá trabalho ter a coisa suja! O Luís percebeu logo o que queríamos em termos de som!
 
Foto por Sérgio Lemos 
 
Como nasceram os splits com Trash Colapso e Mary O and Pink Flamingos?
 
Nasceram de amizades feitas em tour! Conhecemos a Mary em São Paulo na segunda tour no Brasil e nessa mesma tour ela deu um jeito de tocarmos juntos com Pink Flamingos em Porto Alegre. Adorámos a banda. Somzeira e só gente louca como nós gostamos!! O Trash Colapso conhecemos em Buenos Aires, Argentina quando tocámos com Sarcofagos Blues Duo. Gostámos muito do som e ele tem a editora de cassetes Scrap Metal Dealer Records. Nós meio que tínhamos namorado a ideia de editar uma cassete e então essa ideia de uma split tape foi natural. 
 

Vcs estiveram no Brasil há cerca de 3 anos ,como foi?
 
Acho que a última tour aí fez dois anos. É sempre muito bom! Logo para começar baterista e promotor é o Marky Wildstone dos Dead Rocks que é gente boa p’a caralho! Não tem como dar errado! hehe Depois a coisa boa das tours ou a nossa sorte é fazer sempre amigos em muitos locais e aí na tour nova sempre revemos amigos! Depois claro que tem concertos com tudo certo e outros que o som tá uma bosta e num dá para fazer bem… Banda de pobres como nós tem de se sujeitar a isso! hahaha
 
Quais shows no Brasil , que merecem lembrança?
 
Primeiro que vem à memória é o da Frankenhouse em Porto Alegre. A foto até foi parar na contracapa do “Primitive” com o Ricardo agarrado na trave do tecto! Ambiente do bar estava bom para caralho e depois do concerto houve karaoke de temas rock o que foi perfeito para quem já tinha bebido bastante cachaça! E o Goiânia Noise de 2016 também foi muito bom! Sempre em São Paulo foi ambiente bem bom também, teve um show bem louco que acabou com o Luís Tissot a tocar connosco. Bem.. tanta coisa boa e tanta boa gente e tão pouco tempo para lembrar todos!
 
Foto por Luis Flores 
 
Como foi o processo do Portuguese Freakshow?
 
Já tínhamos uma ideia de gravar disco com amigos do rock português underground. Ser banda independente sem muitas limitações de editora quanto ao que fazemos deu-nos essa liberdade. Colocámos a ideia aos editores da Groovie e da Garagem só para avisar que seria um disco que para além do nosso típico garage punk ia também ter temas meio fora. Depois foi só arranjar dinheiro para os 2 estúdios, convencer toda a gente e acertar agendas de todos! Muitos deles vieram trabalhar temas de demos nossas, outros quisemos que eles começassem o tema e nós completávamos. Também houve tema improvisado na hora e muito interlúdio porque nós gostamos de inventar introduções para temas.
 

Quem criou o clipe de Juvenile Delinquent?
 
Esse foi filmado por nós os dois aqui no Sabugal onde estamos agora a viver. A ideia era bem simples: brincar com clichés rockabilly. Um casal rebelde que rouba drogas em farmácias. 
 
 
Falem sobre os vídeoclipes já feitos
 
Maioria foi filmada de modo bem DIY com qualidade má! Pior até que esses telemóveis que hoje toda a gente tem! Nosso método era: “não há dinheiro mas vamos nessa fazer vídeo!!” 
Primeiro vídeo foi ainda para a versão demo gravada pelo Ricardo sozinho para o tema “I Am Monster”, depois disso a Helena Fagundes fez vídeo para o “VS” com compilação de registos ao vivo da banda. Bea organizou “Malasuerte” já com ideia de fazer um vídeo rock&roll com duas bruxas e um padre, nossas “personagens” na banda. Depois coordenámos juntos os vídeos do “4 psalms” com um extraterreste e “Violet Black” em que tentámos criar o ambiente de casal louco do rock tipo o filme do David Lynch “Wild at heart”. 
“Ramblin Heart” é uma balada venenosa que resolvemos ilustrar no vídeo com marionetas. “Stay Hungry” quisemos manter bem simples como o tema, filmado no jardim.
“Man in the Black leather” marca o nosso 1º vídeo com câmara profissional de Francisca Marvão, filmado num concerto no Sabotage Club em Lisboa. “Banzai Karaoke attack” foi feito através de montagens vídeo dos amigos brasileiros do Riviera Video. “Black X/ J’Accuse” foi feito por dois amigos: Luís Marques e João Mingacho numa tentativa de levar os personagens do padre e da bruxa cigana para um filme western spagetti de Sérgio Leone.
Os próximos 3 vídeos foram filmados pela Francisca Marvão: “Feast of the Mau Mau” com imagens captadas numa festa Groovie Records com os japoneses The Swamps, “summer asphalt” filmado no Club Noir de Lisboa onde tentámos reproduzir um ambiente mais sensual como o tema e “Jesus Loves…” um tema bem político e anarco punk na sua letra anti-militar e anti ditadura religiosa.
“Cactus” foi filmado pela Big Bad Bigos num registo de rock psicadélico dos anos 70. 
“Jungle Zombie Stomp” foi filmado novamente pela Francisca Marvão que, com ajuda de uma pequena equipa criou um vídeo/animação dos desenhos do Ricardo e da Beatriz e filmou nas ruínas do Odeon de Lisboa, um sítio mítico que não existe mais.  
 
Nos falem do excelente Primitive ,como foi trabalhar nesse álbum?
 
Bem rápido em velocidade “de cruzeiro”. Tínhamos demos que adaptámos com o Marky na bateria na hora. Letras foram também adaptadas na hora. Só o tema “dead end street” ficou para gravar em casa e dar aquele sabor de coisa mais esquezita. Os temas foram captados ao vivo no estúdio e as vozes colocadas depois. Para isso foi essencial o bom trabalho do Luís Tissot. Estávamos conscientes do risco: é um álbum com um som mais homogéneo por esse modo de captação e composição mas foi isso que quisemos fazer depois de “Portuguese Freakshow”! O Portuguese Freakshow foi um álbum mais cerebral, pensado, som muito variado. Aí com o “Primitive” quisemos dizer que essa ideia de a banda estar a atingir maturidade é treta! Que a banda grava rock cru quando quiser e faz tema mais complexo quando quiser! É essa porra ser independente! Se for para agradar rádio e critico vou fazer som que me dê dinheiro e não essa porra de rock bom para continuar pobre mas que nos dá um gosto do caralho tocar! Estamos nisto pelo coração e é a ele que temos de seguir mesmo nestas decisões de como gravar e que temas e de que modo captar!
 

Quem criou a arte do álbum?
 
Olaf Jens. Ele já tinha criado a arte do “Portuguese Freakshow” e nós já éramos fans do trabalho dele nas compilações “Back from the grave” que compilam o melhor e mais punk som feito nos anos 60 e 70! Essas compilações editam muita banda que só gravou um single mas tem temas bons demais! Pelo menos ouçam os 3 primeiros volumes! Rock Selvagem quase punk feito por gente com idade para ser seu avô! 
 
Podemos dizer que é o álbum que mais representa a sonoridade da banda?
 
Tendo em conta que o som é o mais perto da banda ao vivo? Nesse sentido sim. 
 
A grande parte do material de vcs tem edição em vinil,como surgem?
 
Nós sempre gostámos de vinil. Surgiu meio por acaso com amizade com Edgar da Groovie records/Monotone discos. Nós íamos falando disso e ele fez a sugestão de edição para o primeiro single que esgotou muito rapidamente. Entretanto vinil tornou-se novamente o formato físico principal de edições musicais. Mas surge pelo gosto do objecto. Vinil e cassete é coisa bonita mesmo! 
 
Quais as influências para criação deste álbum.
 
Do “Primitive”? Nunca pensamos nisso para gravar um disco. A onda é mesmo “vamos reunir um punhado de ideias boas/temas bons que funcionem em conjunto”. Se pensarmos depois de ele estar gravado podemos apontar nomes que também fazem disco rock cru e sujo e aí Dead Moon teria de vir primeiro, até porque gravámos uma versão deles nesse disco!  
 
 
É verdade que vcs vem a América do Sul em breve? Brasil está na rota?
 
Verdadinha! Brasil e Argentira! Podem conferir as datas com a Wildstone: https://www.facebook.com/wildstone.com.br/
 
Quais os próximos passos?
 
Depois dessa tour já temos mais datas na europa e um split com Strobe Talbot na calha (banda com o enorme Jad Fair dos Half Japanese)
 
Considerações finais, Deixem sua mensagem , O espaço é livre
 
Apoiem sempre que possível músicos locais e a cena independente local e internacional: eles são quem realmente precisa do seu dinheiro e não aquela música de bosta produzida para soar toda igual ou aquele moço ou moça bonitinhos que ganharam aquele programa de televisão e cantam muito bem, vai ver que GG Allin é bem mais divertido que eles! Ou ignore tudo isso que acabámos de dizer mas seja curioso! Não deixem que alguém decida por vocês o que tem qualidade e o que é ruim! Seja rock, pop, metal, musica clássica, .. sei lá… Ouça e faça o seu próprio critério! 
 
Foto principal por Sérgio Lemos 

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