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Estudantes, estudantes, aqui nesse país, um sonho tão distante!

O título acima nos remete a canção da banda fluminense Os Estudantes, lançada em 2001, em um split junto com os paranaenses do Evil Idols. Em quase 20 anos desse refrão, ele nunca foi tão atual como neste 2019, ano que temos acompanhado o desmonte de vários serviços públicos, entre eles a educação. Mas, deixemos o pessimismo de lado e vamos falar sobre música. Os Estudantes são uma das bandas mais importantes do cenário punk/hardcore brasileiro, está com várias canções prontas e os caras querem voltar ao estúdio em breve. Agora, confira o papo e põe Estudantes para rolar na vitrola!

Vamos começar com uma pergunta que nos remete a 2009/2010. Na época citada, vocês concederam uma entrevista ao zine/blogue Canibal Vegetariano e meses depois esse papo foi publicado na Maximum Rock’n’Roll. Ser capa de uma revista tão conceituada no independente contribuiu com a banda, ou não?

Victor: Ajudou a vender nosso disco para fora do Brasil, isso com certeza! Rendeu um EP lançado por uma gravadora gringa e uma quase tour nos EUA que acabou não concretizada em cima da hora. Na verdade, o que faz qualquer banda andar e ser reconhecida é tocar incessantemente.

Manfrini :  Acho que a capa foi mais mérito da foto incrível do Mateus Mondini do que nossa (risos). Outro fato que nos deixou em evidência e que acabou levando à publicação da entrevista foi a boa resenha que nosso primeiro disco teve na MRR. Foi após a resenha que começamos a receber vários contatos de outros países querendo comprar o disco.

Entrevista na íntegra, feita pelo Canibal Vegetariano que foi feita na época e ilustrou a capa da MRR
http://canibalvegetariano77.blogspot.com/2010/10/entrevista-feita-pelo-zine-canibal.html?q=os+estudantes

Foto por Raul Aragão

Quem acompanha o underground nota que vocês têm se apresentado com certa frequência mas o último álbum lançado foi em 2013, o ótimo “Pedras portuguesas na sua cabeça”. O que levou a banda a dar uma parada com gravação?

Dony: Pois é. Depois de Pedras Portuguesas, chegamos a lançar um Split 7″ com o Merda. Para gravar álbum é mais treta. É difícil conciliar a pegada individual de cada um com a banda.
Trampos, filhos, etc. Ainda mais aqui no Rio de Janeiro. Mas ao mesmo tempo, rola uma falta de organização de nossa parte. Precisamos tomar vergonha na cara e gravar outro álbum. Há pouco tempo o Rafael Crespo [Herzegovina] colou numa festinha de aniversário que rolou lá em casa e depois de algumas biritas [todos bêbados], ele comentou que tinha vontade de gravar/produzir um disco dos Estudantes com amplificadores multiuso toscos e bateria gravada com o mínimo de canais pra tentar tirar um som bem singular. Depois eu fiquei viajando nisso. Boto maior fé!

Victor: “Vambora”, porra!

Manfrini: Pois é, parece que quanto mais velho você fica, menos tempo se tem para fazer as coisas. Há algumas músicas novas, mas ainda nem foram tocadas no estúdio… Outro problema de gravar um LP é o custo: caro para gravar, caro para prensar… o que acaba deixando o disco caro para a venda. Talvez a solução seja lançar dois Eps.

Para amarrar as questões anteriores, como vocês analisam as mudanças que ocorreram não somente no mundo musical, mas no Brasil e mundo, nos últimos anos, desde o lançamento do último álbum de vocês?

Victor: No mundo da música eu vejo/ouço muita lamentação. “Não toca rock no rádio”, “Brasileiro gasta R$ 200 pra ver banda gringa mas não paga R$ 10 pra ver banda local”, “a cena não é unida”… e por aí vai.

Se o povo não vai assistir a sua banda é porque ela provavelmente tem coisa melhor para fazer. Ponto. Reclamar não vai fazer ninguém sentir pena ou se solidarizar com seu sofrimento de roqueiro falido.
E tem mais, a galera de banda reclama mas nem divulga os próprios shows decentemente.
Criam o evento no Facebook e é só. Faz um cartaz mequetrefe com imagem do Google e sequer se presta a fazer um exemplar impresso, um flyer ou um cartaz. Toda a divulgação é feita via redes sociais.
Se você espera que os algoritmos vão te ajudar a divulgar seu trampo, vosmecê tá na merda.
Tem que sair de casa com filipeta na mão, divulgar em outros shows, botar nos poucos recintos onde pode ter um público alvo e, talvez, apareça mais pessoas no evento.

Manfrini: Eu acho que o Rock não anda muito na moda ultimamente. As dificuldades financeiras das fabricantes de guitarra são uma evidência deste fato. Mas o punk sempre resistiu e ainda resiste no underground. Bandas antigas e novas continuam tocando e lançando discos no mundo todo. Por outro lado, na conjuntura política e social, vemos uma preocupante ascensão da extrema direita no mundo todo. Não é só no Brasil que as coisas estão esquisitas.
Nesse sentido, acho que a arte de uma forma genérica, e mais especificamente, a produzida de forma independente no underground, é uma boa ferramenta de resistência nesses tempos sombrios que se anunciam.

Foto por Raul Aragão

Quais os planos d’Os Estudantes para o segundo semestre deste ano? Teremos alguma música nova? Shows? Alguma previsão para apresentações no interior do Estado de São Paulo?

Victor: Espero ir para estúdio ainda esse ano, gravar pelo menos umas 10 músicas. Como isso vai sair ainda não sei. Mas definitivamente não vai ser somente de forma digital.

Manfrini: Como eu disse anteriormente, já temos algumas músicas. Precisamos entrar em estúdio finalizá-las.

Em 2009 vocês estiveram em Bragança Paulista no Cardápio Underground. Quais os momentos daquela noite que vocês se lembram?

Victor: Só boas lembranças, pico lindo, baixou povo do Leptospirose, ETE do Muzzarelas, Pedro
do Catarro, só gente fina. Tem umas fotos insanas desse show.

Manfrini: Gente, já faz 10 anos (risos). O tempo passou muito rápido. Foi com certeza um dos
shows mais legais que fizemos. Temos fotos incríveis desse show.

Cardápio Underground 2009

Victor, você além de vocalista, faz vários trabalhos ligados as artes plásticas. Como é ser artista no Brasil em 2019?

Victor: Um cocô.

Manfrini: (risos) Resistência Vitão!

Victor: Sim… mas é como eu falei, tem que correr atrás. Ninguém vai bater na porta da minha casa, me elogiar e convidar para fazer uma exposição em Milão com todas as despesas pagas.
A questão é nunca desanimar e produzir sempre!

Foto por Melvin

Agradeço pelo papo, deixo espaço para considerações finais e deixem endereços nos quais os interessados pela banda consigam adquirir discos, camisetas, etc.

Victor: Obrigado! Querendo escutar, chamar para tocar ou comprar merch, só acessar essa Internet. Estamos em todas essas mídias por aí que todos conhecem (Instagram, Facebook, Bandcamp, Spotify…).
Para finalizar, Morte aos Fascistas, aos carros SUV, motos barulhentas, sapatênis, baixos de 6 cordas, Deus, a Pátria amada Brasil!

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