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Leipzig se une ao Brasil : Werther Effekt!

O duo que cruzou os mares , se encontrou e se apaixonou na Alemanha, hoje se entrega a fazer música punk eletrônica, conheça Werther Effekt!

Como que vcs foram parar em Leipzig?

DADA: Estávamos morando em Berlim que foi onde nos conhecemos. Os primeiros anos em Berlim foram sensacionais, mas depois de algum tempo simplesmente não conseguíamos nos encaixar na cidade. A infelicidade pairava sobre nossas cabeças, estávamos vivendo o momento caótico – sem casa, sem dinheiro, sem amigos e sem emprego.
Aí que eu caí de paraquedas em Leipzig, vim visitar um amigo e acabei ficando enquanto a outra metade do Werther estava estudando em Berlim e assim que terminou veio para Leipzig também.

Como foi a adaptação aí na Alemanha? vcs costumam retornar ao Brasil regularmente?

DITA:Putz, até hoje não nos adaptamos completamente! Eta terrinha burocrática e fria..
Mas na real não tenho do que reclamar – a qualidade de vida é muito melhor do que no Brasil, e como mulheres e artistas temos muito mais oportunidade aqui.
É difícil de acostumar porque a essência do povo alemão é completamente oposta a nossa essência brasileira, então é difícil de entender e lidar as vezes..
Berlim é bem mais tranquilo, pois tem gente do mundo todo e a cidade é mais liberal com tudo. Leipzig era parte da DDR (Alemanha oriental) e ainda sentimos uns resquícios disso no povo daqui. Eles são mais conservadores e nos fazem sentir como intrusas e tal, não estão muito interessados em integração com imigrantes.

DADA: A adaptação aqui é demorada, ser imigrante não é fácil, e a língua alemã é treta de aprender! Demora um pouco pra entrar no ritmo mas vamos aprendendo os macetes também, como lidar com as burocracias, com as pessoas, a língua e o clima.
Tentamos bastante ir visitar o Brasil, gostaríamos de ir muito mais na verdade! Mas as passagens são tão caras, ai fica difícil de ir sempre.

Gothic Pogo por Andi K Shoots

Como o público local reage ao som de vcs?

DITA: De cara sempre ficam surpresos! Quando veem duas minas no palco já acham que vai ser música mais calma, vocalzinho leve e tal. Mas ai começamos com os synths rasgados, batidas pesadas e vocal esquisitão e logo ficam de cara! A galera dança e se diverte bastante, ficam curiosos também pois a maioria das letras não são em inglês.

DADA: É uma delícia depois do concerto quando as pessoas vem conversar com a gente, seja com feedback positivo ou negativo. É super legal que não são só os góticos/ póspunks que curtem nosso som, como não temos gênero definido acabamos tocando o coraçãozinho de um monte de gente diferente.
Mas nosso som não é pra todo mundo, tem gente que não curte também.
Eu realmente não me importo em agradar todas as pessoas da pista , mas a galera agita bastante o nosso som.

Já chegaram a sair da Alemanha pra tocar em outro país?

DITA : Já! Por enquanto alguns países da Europa e no Brasil.
Tocamos na Bélgica num festival underground de pós punk e wave irado chamado ‘Waveteef’. (Inclusive Tetine e Wonder Dark do Brasil já tocaram lá!)
Tocamos também na Holanda, em 2018 fizemos uma mini- tour com nossa banda irmã ‘Sterk Water’ e a grande djane ‘Reverend Esser’. Em 2019 voltamos e tocamos no aniversário de seis anos do squat/ocupa ‘Bikewars’.
Na Espanha tocamos em Madrid, no aniversário de um ano da ‘Trash Me’, festa queer focada em bandas/djs female e LGBTIQ*, que é organizada por duas grandes amigas/djs ‘Aurelia Dinamita’ e ‘Schatten Voraus’. Fizemos um cover da música “Trash Me” do ‘Malaria!’ pra tocar especialmente nessa festa!

DADA: No Brasil tocamos bem no começo do Werther, acho que em 2016, ainda no esquema djset com vocais por cima. Tocamos em Heliodora (MG) no festival “Contatos Sonoros”, em Belo Horizonte na festa mara do coletivo bafo MASTERp la n o e em São Paulo no Espaço Desmanche.
Fazemos “mais sucesso” na Alemanha, onde está a maior concentração desse nicho gótico/pós-punk/dark/wave – mas pouco a pouco estamos sendo conhecidas em outros países.
Nosso maior sonho é fazer uma tour na América Latina! Várias cidades do Brasil, mais pro norte também onde tem uma cena dark forte e também México, Colômbia, Perú, Guatemala.. Estamos procurando um selo que divulgue ou lance nosso trampo por ai, tendo um pouco de popularidade por esses lados fica mais fácil pra marcar uns concertos e tal.

Urban Spree por Andi K Shoots

Como surgiram os pseudônimos?

DITA: Não queríamos associar a banda aos nossos nomes originais então criamos os pseudônimos.
Sempre fomos fascinadas com a palavra “crumbs” que significa ‘migalhas’ e que de algum jeito representa muito a gente. Dai nasceu nossa família ‘Crumbs’.

“Kötz” é adaptado da palavra “Kotze” que em alemão significa gorfo / vômito que tem tudo a ver com nossa música.
Nosso studio (a sala de casa) chamamos carinhosamente de “Palácio do Gorfo”
Dita Crumbs – o Dita veio de influências drag queen
Dada Kötz Crumbs – sempre fomos loucas por arte dadaista, Mari tem DADA tatuado no pescoço então virou o pseudônimo dela.

O que ajuda a moldar o som do duo? e como escolheram o nome?

DITA: Desde o o começo a ideia do projeto era fazer uma fusão de diferentes gêneros, criar um estilo de música novo, sem muitas regras – buscamos diferentes influencias dentro e fora do pós-punk.
Experimentamos bastante com sintetizadores e tecladinhos de brinquedo, brincamos com samples e edição/destruição digital. Também sempre tentamos técnicas de vocal e línguas diferentes – no momento tentamos focar mais em letras em português e espanhol, pra trazer nossa raiz latina pra música.
Também tentamos identificar características e grooves interessantes na música ou estilo que admiramos e aplicamos de algum jeito na nossa música.
E claro que sempre rola os “acidentes felizes” – no meio das experimentações rola algo inesperado muito bom e a partir disso vamos moldando a música em cima.
Então no fim cada música é criada de um jeito único, mas é obrigatório pra gente uma linha de baixo (eletrônica ou acústica) pesadona e melodias dançantes.

DADA: O nome “Werther Effekt” vem do livro do Goethe “Os Sofrimentos do Jovem Werther” de 1774.
Em resumo bem resumido a história é sobre um garoto, o Werther, que se apaixona e por ser rejeitado comete suicídio.
O livro virou uma febre na época e muitos jovens acabaram por seguir o exemplo de Werther e se suicidaram. Dai nasceu o conceito de “Efeito Werther” – termo usado para designar uma onda de suicídios copiados ; suicídio por contagio.
Nós nos identificamos muito com esse sentimento, esse sofrimento maligno causado por um amor extremo que dá vontade de morrer.
Nós somos casadas,e no começo da relação estávamos passando por maus bocados, resolvemos então ao invés de sofrer – fazer música, criar arte. Assim nasceu o Werther Effekt, de muito amor e muita dor.

Vcs iniciaram com improviso em laptops , como se deu essa evolução pra uma forma mais simples e despretensiosa?

DITA: Logo que começamos estávamos mais na cena techno eletrônica, eu era dj de deep house/techno e não conhecia muito pós punk. A Mari/Dada foi me apresentando a essa cena dark e fiquei loka, me identifiquei completamente com o som!
Fomos saindo da cena eletrônica e indo mais pro dark, sendo assim o esquema de vocal em cima de base já não rolava e vimos a necessidade de criar nossa própria música, do começo ao fim.
Ao mesmo também eu estava estudando Produção de música eletrônica na escola e aprendendo novas técnicas – de gravação, de estúdio, teoria de música e tal. Assim começamos a experimentar mais com microfone e outros instrumentos.
Começamos a ir em shows e festivais de pós punk e isso foi nos incentivando mais ainda.

DADA: O Werther surgiu com a intenção de reanimar este cadáver eteril que se chama dark ^-^
Ficamos pensando como seria re-vi-ver esta cena dark gótica pós punk wave.
Estávamos cansadas de ouvir as mesmas coisas, os mesmos beats e melodias, as mesas combinações,artifícios e tons.
Queríamos fazer um som diferente – algo dançante mais ainda com nossa assinatura esquizofrênica; um som que traz nossas referências clássicas e modernas, nossas combinações de estilos sem sentido, e nossos barulhos.

Gothic Pogo por Andi K Shoots

Falem um pouco dos lançamentos discográficos?

Meningite Social (álbum; 2017; independente; digital;)

Nosso primeiro release oficial, demorou uns dois anos pra ficar pronto. Lançamos independente e só digital.
Não tem um estilo definido, é uma coleção de nossas primeiras experiências fazendo música. Parte dele foi criado durante o curso de produção de música eletrônica, então até rolou umas gravações e mixagens no estúdio.
É bem DIY, nós que fizemos tudo, arte da capa, gravamos todos vocais e instrumentos, mixamos e masterizamos também. Nota-se na gravação que ainda não tinhamos muita experiência, é bem cruzão.
Curioso que a primeira música que fizemos na vida é “Bakteria”, deste álbum, e até hoje é um dos maiores hits do Werther. Essa música influenciou bastante a identidade da banda e foi aí que descobrimos que o público gostava na nossa esquisitice.

Anomalia (álbum; 2018; QRØZ REQØRDZ ; K7 e digital; )

O segundo álbum,aí já tinhamos um estilo mais definido, tinhamos mais técnica e criamos as músicas com um som em mente.
Ganhamos nesta época o sintetizador Korg MS-20 mini, instrumento que virou a alma do Werther. Esse álbum foi bem influenciado pelo estilo de música minimal wave synth punk germânico e grego. Trouxemos mais letras em alemão e influências de obras como “Gabinete do Dr. Caligari”, poesias do Baudelaire,…
O som de “Anomalia” é mais escuro, pesado.
Lançamos com a label queer ‘QRØZ REQØRDZ’ de Leipzig em fita k7 e digital.

Obscuir (EP; 2019; independente; K7 e digital; )

Nosso trampo mais recente, esse EP é fruto das memórias e sentimentos que trouxemos da nossa viagem a Madrid (Espanha), o título é uma mistura de obscuro e “cuir”, que brinca com o termo ‘Queer’,em espanhol.
O EP tem quatro músicas, a maior parte delas trazem influências da cena queer punk transfeminista madrilenha, que despertou um fogo muito delicioso dentro de nós.
Algumas das pessoas que conhecemos fazem parte do coletivo/zine ‘CuirMadriz’, que foi a principal inspiração para o EP e para a música “Alzamiento” especificamente.
A palavra “Alzamiento” significa ‘uma rebelião de um grande grupo de pessoas contra a autoridade’ – a letra dessa música retrata muito quem somos – as lésbicas anarko marikonas rebeldes.
Menção especial para “Pesadelo e Nada”, uma das nossas faixas preferidas do EP, que conta com participação das nossas amigas e artistas Ana Sita – vocalista da banda punk madrilenha ‘Interna’ e Aurelia Dinamita. Essa música saiu na compilação “Memorias de un continente III”. A compilação é de música dark feita por artistas latinos e foi lançada pelo selo peruano ‘Infravox Records’. Vale a pena checar, várias bandas mara!

Quais os próximos objetivos?

DITA: Acho que primeiramente lançar nosso próximo álbum, que deve ficar pronto até o fim do
ano. Estamos atrás de um selo que tope lançar em vinil e fita!
Com o lançamento do próximo álbum queremos fazer uma tour na Alemanha/Europa.
É claro que somos bem megalomaníacas e também queremos fazer uma tour na America latina! Nosso sonho é tocar no Brasil, México, Colômbia, Guatemala.. mas talvez ainda seja muito cedo pra isso, queremos ficar mais conhecidas por esses lados e aí faz mais sentido a tour.
Vamos também aplicar para um bachelor de Sonografia no conservatório de Den Haag (Holanda) para começar em 2021 – nos desejem sorte!
No mais, queremos continuar ativas na cena: fazendo música, tocando bastante por ai, seguindo também com nosso projeto de arte visual “Deffekt Creations”, colaborando com outros artistas, queremos continuar cativando e inspirando outras pessoas, na mente e na música, incentivando a sub cultura…

Considerações finais

O Werther Effekt sempre teve como objetivo trazer uma música desconhecida esquizitona para a cena gótica-dark-pós punk ,espalhar nossas ideias e fazer as pessoas sentirem algo especial.
Mas nunca foi só sobre a música, também somos atitude, política e física quântica. Faz parte da nossa missão trazer tolerância e igualdade pras pistas ; Werther Effekt também é ativismo, levamos pro palco nosso feminismo e pregamos antifascismo.
Somos Dita Crumbs & Dada Kötz Crumbs – duas minas lésbicas latinas, casadas, fazendo música eletrônica punk.
Temos o privilégio de estar na Europa e devemos abusar disso, temos as ferramentas e os caminhos para espalhar nossa arte e nossas ideias. E sendo minoria, devemos representar as minorias que não estão sendo vistas ou escutadas.
Queremos principalmente inspirar artistas marginalizados, como mulheres, pessoas LGBTQI+, pessoas de cor, pessoas com deficiências, imigrantes – mostrar que existe espaço pra gente como nós – nos palcos, na cena ou onde quisermos!
Sendo assim, representatividade é muito importante. Diversidade nas pistas e visibilidade para estes artistas gera poder para todos nós e inspira outros a seguirem seus caminhos sem medo.
Uma cena unida e engajada pode junta resistir ao machismo e preconceito que existe em vários níveis da indústria da música.
Somos resistência e quem diz que música não é política tá muito enganado – é essencial mostrar que não toleramos machismo, racismo, xenofobia e outros terrores fascistas; que estamos todos juntos e vamos lutar por uma pista livre, onde podemos ser nós mesmos sem medo.
Não tocamos ao lado de fascistas, não dançamos ao lado de misóginos, não toleramos seu preconceito, estamos de olhos abertos e resistimos!
Muito obrigada Raro Zine por esse espaço, agradecemos o tempo, o trampo de vocês que vem incentivando, informando e valorizando as sub culturas independentes! <3
E obrigada aí você leitor/a, que chegou até o final da entrevista. Juntos somos mais fortes, um salve no coração do underground.

Foto primcipal por Andi K Shoots

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