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A morte é coletiva : Never Again!

Thiago e Rodrigo falam sobre o Never Again, sonoridade, materiais lançados e mais!

Como surgiu o Never again?

Thiago: Então, bicho, eu já conhecia o Jeca (baixista) de internet, antes de mudar pra Florianópolis, por conta das nossas antigas bandas, Holodomor e Send More Hate. Originalmente teríamos lançado um split, o que não rolou por motivos diversos e trocentos anos depois acabei me mudando pra cidade, fui resolver um lance no centro e reconheci o cabeludo de longe, sentado num banquinho numa praça. Cheguei pra trocar ideia e aí a gente ficou nessa de tocar alguma coisa, já que ele tava sem banda e eu também, passamos por umas mudanças na formação e estabilizamos com Bruno na guitarra, Jeca no baixo, Rodrigo na bateria e eu nos ruídos e vozes.

Vcs já vinham de bandas nessa linha , ainda possuem projetos?

Rodrigo: Eu toquei em bandas de vários estilos, desde hardcore melódico até noisecore. Bandas como Parental Advisory e Kaösa Brüo acho que se aproxima do que rola com Never Again. Mas tomamos rumos mais experimentais recentemente e isso é resultado das múltiplas influências dos membros atuais, que passa por black metal, harsh noise, crust… Toquei também no Araukana e no Guliver, que iam por outros caminhos. Atualmente, toco no Ordinaria Hit também. Mas sempre tive claro uma mesma ideia: o faça você mesmo como maneira de buscar autonomia e consciência política dentro e fora da cena. Me envolvi com punk e anarquismo desde moleque e sigo nisso até hoje.

Thiago: Eu sempre tô me metendo em mais coisas do que deveria, mas atualmente só participo mesmo do Narcose, que é uma banda de sludge com duas baterias e baixo, com umas influências de power electronics, onde posso brincar com sonoridades mais arrastadas, bem diferente das outras bandas que já tive, sempre mais puxadas pro lado rápido da coisa, desde que me envolvi com o punk, o que felizmente rolou bem cedo na minha vida.

O que define a sonoridade do grupo?

Rodrigo: Diria que é mais um “clima”. Uma espécie de desconforto com a realidade e inadequação aos padrões vigentes. Acabamos expressando isso pela música e pelas letras. Algo agressivo e incômodo, com muito ruído e ao mesmo tempo incertezas… Acho que hoje é difícil classificar nosso som. É punk. É grind também, mas vai além. Mas acho que raiva e tensão definiriam bem nosso som.

Thiago: Essa é uma conversa que a gente sempre tem entre nós e o Rodrigo já sintetizou bem. Na primeira demo era um grind/noise meio precário porque era o que dava pra fazer e dá pra sacar um certo salto já no EP, assim como nos shows. Hoje em dia, se alguém pergunta, eu só digo que é punk mesmo, porque tem influência de tudo que é canto, até mesmo das mais inesperadas.

Tem música nova que eu canto, tem coisa que é meio spoken word e tem momentos de esporro puro e simples. É bem legal poder fazer algo livre assim com pessoas que entendem o que estão fazendo e o fio condutor disso tudo é essa sensação de desconforto, essa tensão, esse não-pertencimento que engloba desde não se encaixar no molde fascista do momento político em que vivemos até a depressão da vida nas grandes cidades.

Vcs registraram um álbum ao vivo como foi essa gravação?

Thiago: Foram três faixas captadas com uma CÂMERA DIGITAL da forma mais porca possível. Não lembro bem se foi ideia do Bruno ou Jeca de pegar aquele áudio ali e fazer alguma coisa com ele, haha.

“A morte é coletiva ” , como foi gravar esse material ?

Rodrigo: Foi legal e frustrante ao mesmo tempo. Registramos os sons em março e só conseguimos chegar a um acordo para lançar em julho. Foi desgastante em especial pela nossa falta de experiência e por problemas na mixagem. Tínhamos uma alta expectativa, inclusive de lançar em vinil, mas o resultado não ficou 100% como gostaríamos. As músicas são legais e representa um momento de mudança na banda, em poucos meses fizemos novos sons que estão mais estranhos e, ao mesmo tempo, mais fortes. Então nessa demo há material antigo regravado e músicas dessa nova fase. Curtimos muito os sons e registrá-los foi maravilhoso. Eu estou contente com o resultado, mas na próxima vez teria mais atenção com a parte da produção.
Sobre a capa e as ideias do disco acho que o Jeca e o Thiago podem falar mais…

Thiago: Apesar das tretas todas de mixagem, o material marca um momento importante e de certa forma afasta um pouco a banda daquela sonoridade mais crua inicial, dando espaço pra outras coisas, ainda que sem perder a chucrice.
Eu odeio aquele papo furado de amadurecimento, mas bicho, foi meio que o que aconteceu mesmo, com a chegada do Rodrigo, a adição de alguns ruídos e outras referências, a gente simplesmente começou a fazer um som cada vez mais esquisito. Se der tudo certo, só vai piorar, mas sem perder essa veia noise/grind.
Quanto ao conceito, o título do EP veio de uma faixa nossa que se chama Muros, cuja letra fala basicamente desse ciclo horrível que o capital nos impõe, da produção, da destruição causada por essa produção e por fim do isolamento daqueles que comandam tudo do alto de suas torres de marfim, cercados por seus muros, bem como da classe trabalhadora que gera as riquezas para estes. O capital cobra seu preço e é este: a morte chega para todos, de uma forma ou de outra, é coletiva.

O que é motivo pra composição das faixas?

Rodrigo: Acho que certo grau de pessimismo frente à vida, mas também um profundo ódio contra as autoridades e qualquer forma de dominação e exploração.

Quais os próximos passos?

Estamos aguardando a produção da versão em K7 da demo “A morte é coletiva”, uma iniciativa de colaboração entre os selos Antichrist Hooligans, Manaós Distro, Insulto Rex e HC Discos. Logo deve sair a nossa versão para “Forward to Death” na coletânea “Grindcore über Alles – International Blast Beat Tribute to Dead Kennedys” pelo selo The Hills are Dead. Será lançado em CD e edição limitada em cassette. Acabamos de aceitar um convite para participarmos de uma 4 way tape pela Brutal Alien Records com as bandas Numbomb, Morri e Nefarious D-saster.
Já temos músicas novas e pretendemos gravar em outubro/novembro e lançar um EP 7’. Também buscamos selos para ajudar nesse projeto e estamos ampliando contatos com bandas, selos e zines para reforçar o intercâmbio de materiais e shows.
Pretendemos fazer shows fora de Florianópolis e continuar organizando alguns eventos por aqui para bandas que gostamos ou que estão no mesmo rolê DIY que nós.

Considerações finais

Obrigado pela oportunidade de expor nosso trabalho e nossas ideias.
Seguimos na luta. Raivosamente ingovernáveis!

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