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Vida de Rockstar : Sheena Ye!

Sheena Ye acaba de lançar uma “Live Session” de Rockstar, e pra falarmos deste e outros registros falamos com a banda inteira!

Quando e como se aproximaram pra formar a banda?

Mário: “A banda começou como uma ideia minha de ingressar na cena goiana, com um rock’n’roll em português e autoral. Conforme foram passando os anos alguns integrantes saíram e outros entraram, um ciclo normal da vida, porém todos que entraram na Sheena Ye somaram de alguma forma para a música que hoje produzimos. A ideia se metamorfoseou, e hoje é o que faz nosso som ser tão livre e interessante para nós, não estamos nos limitando a fazer só um estilo. Se formos colocar em datas, a banda começou em 2013, e o Douglas (guitarrista) entrou em 2015, quando estávamos começando a realmente nos movimentar na cena, realizar mais shows e a lançar trabalhos. O Léo (baterista) entrou em 2018, e trouxe uma pegada diferente ao que fazíamos antes, o som naturalmente se profissionalizou com a entrada dele. ”

Douglas: “Conheço o Mário desde a 5ª série, e já tivemos experiências juntos em bandas de colégio. Depois disso seguimos caminhos diferentes, e em 2015 ele me convidou pra Sheena Ye. Naquela época entrei como o 4º integrante, e a banda seguiu em um formato com dois guitarristas. Mesmo assim, meus dois primeiros shows com eles foram no formato de power trio. O Guga (o outro guitarrista) estava viajando, então assumimos esse formato mais enxuto. Por curiosidade, esses dois foram em sequência (sexta e sábado) no Martim Cerere, um foi uma pré-festa do Vaca Amarela em que o Kadavar era Headliner e outro evento era da Monstro Discos trazendo os Velhas Virgens. Um começo muito especial para um novato na cena. ”

Léo: “Nem conhecia esses caras pessoalmente. Vi um anúncio na internet de uma banda precisando de baterista, era a Sheena Ye. Já sacava que eles faziam um bom trabalho, então me inscrevi. Foi um processo extremamente complexo e rigoroso, com várias etapas. Fomos conversando por um bom tempo, e foi dando certo, e assim entrei na banda. ”

Foto por Luan Rampazzo

Como é fazer parte da fervorosa e criativa Goiânia, onde vocês se encaixam nesse contexto?

Mário: “Comecei a conhecer a cena goiana quando eu tinha 12 para 13 anos de idade. Comprei um CD que a Monstro Discos (selo goiano lendário) lançou chamado ‘Goiânia Rock City’, até ali eu não fazia ideia de que existia rock autoral em Goiânia, e que tínhamos tantas bandas interessantes e de qualidade. Eu passei a ser um admirador secreto da cena, ia ao Martim Cererê e ficava deslumbrado com os shows, sonhava em um dia me apresentar naquele palco, em que vi tantos shows que me marcaram, como o MQN, Johnny Suxxx and Fucking Boys, Rollin Chamas, Violins, Black Drawing Chalks e outros. Sabendo disso, hoje fazer parte dessa cena goiana é manter viva a chama do autoral, e honrar todas as bandas que nasceram e morreram na cidade. Todas as vezes que me apresento em Goiânia são especiais, eu enxergo hoje a Sheena Ye como parte da cena, até pela nossa amizade com as outras bandas. Sou fã das bandas goianas e sempre procuro apresentá-las para as pessoas que ainda não conhecem. ”

Douglas: “Imagine se a história do Rock Goiano fosse escrita em livros e em alguns desses livros citasse Sheena Ye… Fazer parte dessa cena tem a ver com escrever uma fração dessa história, mesmo que pequena, e ser reconhecido por isso. Quando tocamos fora e falamos para alguém que somos de Goiânia, as pessoas ficam na expectativa e comentam: “Cara, Goiânia é foda, sou fã das bandas e da cena. Vou assistir o show de vocês! ” Rola uma simpatia, uma identificação, sabe? E continuar transmitindo essa energia Brasil afora é sempre positivo para o nosso Rock (que na verdade é para todos). Talvez possam me interpretar achando que eu estou falando de entrar para o “Hall da Fama do Rock Goiano”, se é que isso existe. Só acredito que seria injustiça com qualquer banda autoral, que fomenta a cena, cai na estrada, lança disco, faz shows, sem roadies, sem incentivo, sem nada, não estar presente nesse livro da história. Nós continuamos em frente, tentando manter, melhorar, ampliar o que as bandas do passado fizeram, para que as bandas presentes, e as que ainda vão vir, possam ir mais longe ainda. ”

Léo: “Sempre admirei várias bandas goianas, e sempre tive vontade de fazer parte disso. Hoje, muitas dessas bandas que admiro são parceiras de palco, de shows, de festivais, e a admiração por elas se tornou ainda maior. Agora que faço parte da cena, vejo que também somos reconhecidos por muitas pessoas, e muitas vezes elas acabam seguindo esse mesmo sonho, montando banda, criando músicas e outros materiais, e dessa forma acabam fortalecendo a cena, e isso é muito legal. Todo mundo ajuda todo mundo, é assim que deve ser, e é assim que nos fortalecemos.

Foto por Rayssa Guth

Como foi gravar o EP de estreia?

Mário: “Foi mágico, até ali eu nunca tinha gravado nada profissionalmente, apenas gravações ao vivo. Outro baque que eu tive foi gravar pela primeira vez com o renomado produtor Gustavo Vazquez (Violins, Móveis Colôniais de Acaju, Macaco Bong, Hellbenders, MQN, Black Drawing Chalks), nós sabíamos da fama dele e eu me lembro de ficar nervoso, hahaha. Mas ele sempre acreditou na nossa música, e nos passava muita confiança no trabalho que realizávamos, isso foi essencial para nos sentirmos mais soltos dentro do estúdio. Foi uma experiência que me marcou muito, me deu vontade de morar dentro do Rocklab, e me deu novas inspirações para compor. ”

Douglas: “Ótima experiência, do caralho! Rocklab acontecia em Pirenópolis naquele ano. Até então, só ouvia as histórias do lendário estúdio. E por ser meu primeiro trabalho com a banda, foi uma vibe diferente. ”

Quem são os responsáveis ligados às artes dos materiais?

Mário: “O legal da Sheena Ye é que sempre tentamos mesclar os artistas que trabalham conosco, isso trouxe uma pluralidade às artes visuais da banda, e sempre foi algo que tentamos explorar. A primeira pessoa que trabalhamos foi o Danilo Itty, um designer gráfico goiano que já trabalhou com bandas como Overfuzz, Woolloongabbas, Mad Matters, e em festivais como o Bananada, Vaca Amarela e Paralelo Sonoro. O Itty, na época, fez uma arte pra camiseta, de uma mulher sentada numa bomba, e também fez a nossa logo, que é a mesma até hoje, e é a que estampa a capa do nosso primeiro EP. Nós trabalhamos também com o João Tiago, um artista diferente e não tão conhecido na cena, porém ótimo profissional. No álbum ‘Seu Tempo Acabou’, buscamos uma pessoa mais experiente com capas de discos, o Paulo Rocker, ilustrador, e também músico. O Paulo havia feito na época uma capa que me chamou muito atenção, do Autoramas. Ele tem traços bem legais, que lembram quadrinhos, e isso me deixou fascinado para trabalhar com ele. Como esperado, o resultado foi fantástico, a arte do ‘Seu Tempo Acabou’ expôs bem a mensagem que queríamos passar, que nada é pra sempre e só a morte pode nos parar. Agora em 2019 vamos lançar uma arte nova, com o designer e ilustrador Alex Almeida, vulgo Katira. É engraçado porque sempre quisemos trabalhar com o Katira, e só agora tivemos a oportunidade. Ele é um grande amigo nosso, e sempre admiramos seu trabalho. Essa nova arte vem com uma pegada diferente e espacial, ela está atrelada ao nosso novo single que deve sair esse ano ainda, chamado ‘Sem Um Fim’.”

Foto por Luan Rampazzo

Falem do ‘Seu Tempo Acabou’

Mário: “Foi nosso disco cheio de estreia, apesar de no ano anterior termos lançado o primeiro EP (2016), já estávamos mais experientes, e com várias canções novas no repertório, ou seja, era algo inevitável. Passamos de 2013 a 2017 tocando em todos os lugares possíveis, e criando a ‘liga’ necessária para a banda, mas enxergávamos uma necessidade de lançar um trabalho maior, em que as pessoas pudessem conhecer nossa música de verdade. Além disso, era um sonho para nós gravar e lançar um álbum. O processo foi rápido até demais, começamos a gravar em abril de 2017 e lançamos em julho, tivemos que acelerar um pouco mais do que gostaríamos devido a tour, que naquela época, já estava marcada e divulgada. Mas não me arrependo de fazer as coisas do jeito que aconteceram, a Monstro Discos nos apoiou bastante nisso. Novamente, a gravação foi realizada no estúdio Rocklab, com o produtor Gustavo Vazquez. Ele já conhecia nosso modo operante, e sua presença nesse projeto era importantíssima. Algo interessante foi a escolha das músicas que ingressaram no disco, a Sheena Ye sempre foi uma banda de muitas canções, até porque sempre enxerguei uma necessidade de renovação do repertório e nunca parei de compor, mas na época a polêmica era se as músicas do EP entrariam no álbum. A minha visão era focar só nas canções inéditas, e foi algo defendido pelo Gustavo Vazquez também. Eu me lembro de ter feito uma votação entre nós, e as mais votadas foram às músicas que entraram no álbum. Foi um álbum democrático. ”

Douglas: “Disco gravado bem ao estilo de seu tempo acabou, porque quase não deu tempo mesmo. Tínhamos uma meta para lançamento, e isso envolvia questões da lei de incentivo. Então, logo que saiu a aprovação, tivemos que correr com as pré-produções, ensaiamos como nunca para chegar ao estúdio e poder gravar com mais tranquilidade e precisão. Registro com muitas guitarras, por culpa minha mesmo, tenho uma essência metal/heavy/hard rock muito presente, e ao mesmo tempo Gugu (Gustavo Vasquez), como bom metaleiro, comprou essa ideia, e acabamos colocando essas nuances ‘guitarrísticas’ distorcidas até o talo.

Qual foi o fator que motivou a composição do mesmo?

Mário: “Eu componho músicas desde que me entendo por gente, comecei escrevendo ainda criança, e isso me deu muita experiência para o futuro com a banda. O que mais me motivou a compor as letras foram as etapas da minha vida, é normal vivermos sobre conflito de personalidade. Por ter sido uma criança tímida, eu sempre fiquei mais calado, ouvindo as outras pessoas se expressarem. Muito do que sentia eu guardei dentro de mim, e minhas canções foram o modo que achei para propagar meus sentimentos. Cada canção do álbum mostra uma faceta vivida e superada, claro que nem todas as canções são de cunho pessoal, mas deposito muito de mim nelas. A composição foi uma maneira que achei para me divertir e falar o que eu penso.

Foto por Elder Dorneles

Como foi passar pelo sudeste? E gravar o Showlivre?

Mário: “Essa tour foi animal, tínhamos acabado de lançar o álbum, e estávamos com sangue nos olhos pra fazer as coisas acontecerem. Foram mais de 10 datas, e qualquer dor de cabeça que tivemos antes dessa tour foi esquecida. Conhecemos pessoas maravilhosas, e passamos por lugares mágicos. Minha única tristeza foi ter pegado uma gripe, que me deixou extremamente rouco e piorou minha voz. Me lembro de no último show, em Uberaba, não ter mais voz pra cantar e estar muito doente.

Quanto ao Showlivre, foi uma experiência ótima, que nos fez melhorar muito como músicos. Sonhava em participar desse programa desde moleque, e quando me vi lá tocando pro Clemente e conversando com ele, me senti realizado.”

Vocês lançaram uma nova live ‘Rockstar’, como surgiu essa canção?

Mário: “Na verdade, escrevi essa música no finalzinho de 2014, mas não sei porque ela nunca tinha dado certo nesse formato elétrico e mais pesado. Quando o Léo entrou na banda, eu e o Douglas já estávamos com a ideia de abaixar um tom dela e tocar dropado (descer um tom da corda mizão). Foi ótimo, porque deu muito certo, e como eram as primeiras vezes que tocávamos essa música nos shows, as pessoas achavam que era uma canção nova, hahaha. A letra foi uma mensagem que quis passar para alguns músicos egoístas e arrogantes. Já presenciei atitudes que não concordava, e nunca enxerguei a necessidade dos músicos se acharem melhores que as outras pessoas. Eu sempre defendi, e sempre vou defender, que o artista tem o dever de tratar bem as pessoas que admiram seu trabalho, porque são elas que te apoiam e te dão força para continuar.”

Douglas: “Uma música simples, com uma letra ácida e generalista, com uma moral da história muito direta. Pessoas que, para alcançar um sonho, passam na frente do próprio caráter, e até acreditam ser alguém que não são.

Mas é algo que os indivíduos estão suscetíveis a ser…

Rockstar serve até para nós, integrantes da Sheena Ye, que vivem esse sonho de viver da música e se divertir pelo mundo. Esse powertrio de cuzões roquistas de merda! Pelo menos temos bons corações! Kkk”

por Didi Peixoto

Onde e como ela foi gravada?

Mário: “A gravação foi realizada em Goiânia, no antigo Complexo Estúdio, que encerrou as atividades pouco tempo depois. O Complexo era um lugar com uma aura díspar, tinha uma sala enorme, e além de estúdio era um pub, que abria oportunidade para as bandas novas e velhas da cena. A Sheena Ye fez shows incríveis naquela salinha, como o showcase do Bananada 2018, as pessoas cantando nossas músicas e toda aquela energia envolvente. O encerramento das atividades do Complexo entristece bastante a cidade, e expõe qual é o atual momento da cena independente que vivemos.

Gravada ao vivo, ‘Rockstar’ foi mixada e masterizada por Braz Torres, um dos principais produtores da cidade, que já trabalhou com bandas como Boogarins, Overfuzz, Hellbenders, Sótão, Caffeine Lullabies, Carne Doce, My Magical Glowing Lens, Ana Muller, entre outros.”

Ela define um novo rumo da banda?

Mário: “Sem dúvida, ela traz consigo características novas à banda, e uma nova forma de trabalho. Apesar de ser uma canção ao vivo, ela demonstra que não estamos presos aos nossos trabalhos já lançados, e aponta uma nova direção.”

Douglas: “Acredito que toda nova música define um rumo, é relativo. Esse rumo pode ser o primeiro EP ou algo totalmente desconhecido.”

Quais os próximos passos?

Mário: “Pretendemos continuar em ativa, fazendo shows, e lançando materiais novos e diferentes. Estamos cada vez mais animados com o som que produzimos, compondo mais e melhor. Esse ano ainda sai um single novo, chamado ‘Sem Um Fim’. Ele exemplifica bem o que estou querendo dizer, em não ficar preso a um estilo ou a poucos instrumentos. A partir de agora iremos focar nossos trabalhos em singles, ao invés de álbuns. Nada contra os álbuns, porém o investimento realizado não condiz com a reciprocidade obtida. Na verdade, temos até canções suficientes para lançar um novo álbum, e até gostaríamos, mas o atual momento da banda não permite que se concretize.”

Considerações finais

Mário: “German, muito obrigado por esse espaço, e por realizar esse trabalho fantástico no Raro Zine, sou grato a ti por dar oportunidade às bandas de falarem sobre seus projetos. Quem estiver lendo até aqui, agradeço, de coração, por gastar um pouco do seu tempo com a Sheena Ye. Não deixe de nos acompanhar nas redes sociais e nos streamings. Quem estiver a fim de conversar mais comigo sobre a Sheena Ye, pedir conselhos, mandar sons ou trocar uma ideia mesmo, fique a vontade para me adicionar no facebook ou instagram ou me mandar um e-mail. Saudações a todos que amam rock e boa sorte em seus projetos.”

Douglas: “Obrigado German, valeu tamo junto!”.

Foto principal por Didi Peixoto

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https://www.instagram.com/sheena.ye/

 

2 Comments

  1. Entrevista muito bacana! É essa galera que vai salvar o rock and roll! Tive o prazer de vê-los ao vivo, energia foda nos palcos e que sonzeira!! Vocês tem muito futuro no cenário brasileiro!

  2. Melhor banda goiana em atividade!
    Os caras são bons demais no que fazem e além disso, são uns puta músicos!
    Só tenho saudades do Perninha o Arrombaster mór hahaha

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