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Questions : apresenta sua nova liberdade!

Uma das bandas que mais admiramos há anos no circuito paulistano, agora com  disco novo em português, tivemos a oportunidade de conversar com Questions , Pablo Menna, fala conosco sobre essa nova etapa da banda!

Quase 20 anos de estrada , o que ainda motiva vcs a estarem na estrada?

Às vezes nem acreditamos que já passou tanto tempo, ainda mais que nesses anos todos nunca paramos. O que nos motiva a continuar na luta é a paixão pelo que fazemos e a força que recebemos das pessoas de vários cantos do mundo. É sentir que a nossa música e a mensagem são capazes de criar uma conexão com gente de lugares completamente diferentes da nossa realidade. Além disso, a banda é também uma maneira de nos mantermos sempre próximos, já que somos amigos desde moleques.

Qual é o balanço que vcs fazem na trajetória depois de tantos anos de trajetória?

Olhando pra trás, nos sentimos realizados! Conquistamos, sempre fazendo as coisas do nosso jeito e com ajuda de amigxs, tudo o que a gente sempre sonhou com a banda. Viemos da periferia, zona oeste de SP, nada caiu do céu ou veio fácil pra nós, por isso temos muito orgulho da nossa história.
Mas ao mesmo tempo também sentimos que ainda temos muito o que fazer, muita lenha para queimar. Enquanto tivermos saúde e disposição, vamos seguir levando as ideias da banda pra todos os lugares possíveis.

Disco novo na área , qual o sentimento que este álbum deixa pra vcs?

Esse disco representa muito pra nós, já que depois de 18 anos escrevendo músicas em inglês, resolvemos que chegou a hora de fazer em português. É também o lançamento de material inédito depois de quatro anos, então estamos muito empolgados para mostrar os sons novos pra galera.
O principal sentimento que ficou é a certeza de que é sempre possível experimentar novos caminhos para a banda sem perder a nossa essência. Além da mudança nas letras, musicalmente esse disco traz também algumas novidades, algumas melodias de guitarra, alguns detalhes a mais. É uma renovada que estávamos precisando e também uma satisfação de procurar novos desafios e conseguir fazer algo que a gente curtisse.

Acho que um dos pontos cruciais do momento da banda é ter escolhido o português como base,foi difícil ou natural essa escolha?

Não temos nenhum problema em admitir que achamos muito difícil cantar em português. Por mais que a gente tenha influência das bandas punk dos anos 80, como Inocentes, Ratos de Porão etc, nós também crescemos ouvindo muitas bandas gringas, então o inglês sempre soou natural pra nós, mesmo que a gente não seja super fluente na língua.
Escrever em português é uma ideia que tá na nossa cabeça já faz um tempo, e começou a tomar forma principalmente depois das eleições de 2014, quando a situação política do país piorou muito. Assim, resolvemos fazer um som em português para ver como soaria e fizemos “Lutar”. Gostamos do resultado, lançamos essa música como single com um lyric video e a partir daí decidimos que o próximo disco seria inteiro em português.

Vcs acreditam que o momento pro país , não só no quadro no político atual tanto pro momento de falta de empatia das pessoas em geral , cantar em português traz um momento de suspiro de alívio ou de identificação com a banda?

Ah sim, expressar as nossas ideias em português tem tudo a ver com o momento que estamos vivendo, com a ascensão da extrema direita fascista ao poder, com a falta de respeito e solidariedade que vemos todos os dias nas redes sociais. Sentimos que tínhamos que deixar a nossa mensagem de combater todo o tipo de preconceito mais clara e mais direta. E claro, sabíamos que ficaria mais imediato para as pessoas se identificarem. O que não esperávamos era que a resposta da galera fosse tão rápida e tão grande como está rolando.
No show de lançamento agora em agosto tocamos a maioria das músicas do disco e parecia que todo mundo já conhecia os sons novos faz tempo. Uma galera cantando as músicas com a gente, foi demais!

Como foi que escolheram o título e repertório das faixas?

A gente queria um nome que marcasse essa mudança para o português e o nosso vocal Edu veio com a ideia de usar um nome em latim, a língua mãe do português e de tantas outras. Libertatem significa liberdade, que sempre foi um tema que nos inspirou a escrever ao longo dos anos.
Já o repertório fomos compondo aos poucos desde o disco anterior, “Pushed out of Society”, de 2015. Mas a maioria das músicas foi feita no ano passado, foi quando o disco foi tomando forma e foi ficando mais claro pra nós o som que queríamos fazer.

Como foi desenvolvido a arte do álbum?

Como sempre quem fez todas as artes foi o Edu, nosso vocal. Além das coisas da banda, ele segue desenhando, pintando, fazendo gravuras etc, é muito massa acompanhar a evolução do trabalho dele. Pra nós a arte já virou uma marca registrada, algo que faz parte da banda. Nós todos sempre gostamos de bandas que tinham uma identidade visual bem forte, então é muito bom ter alguém na banda que faça essa parte.

Falem um pouco dessas faixas escolhidas pro disco

O disco abre com Achismo, que fala um pouco sobre essa coisa doentia que é a circulação de mentiras e discursos de ódio nas redes sociais. E como ficou claro um lado podre da personalidade de muita gente que destila todos os tipos de preconceito e rancor quando vai falar sobre qualquer coisa.

Seguimos com Lutar, que é o tema tradicional do Questions. Foi inspirada no golpe de 2016, na ganância dos que tomaram o poder e na única maneira de vemos de encarar essa vida, que é lutar contra a opressão dos que nos governam.

Questionamentos segue na mesma linha, e tem um elemento novo pra nós, que é o momento em que o Edu fala a poesia “Invictus”. Esse é um poema que inspirou o Mandela nos seus muitos anos preso, achamos que tinha tudo a ver com a música.

Exclusão é mais uma sobre preconceito e ignorância, sobre gente que se acha mais que os outros porque tem certo status. E ainda trata qualquer um que tenha outra cor de pele ou outra condição com desprezo. Essa tem a participação do Gabriel Zander.

A próxima é Florar, nome inspirado na Flora, filha do nosso batera Duzinho. Fala sobre correr atrás dos nossos sonhos e é uma música rápida como a gente gosta de fazer.

Seguimos com Libertatem, essa com uma levada mais cadenciada, diria até “lenta” para os nossos padrões, hah. A letra fala sobra a desigualdade enorme em que vivemos e como o respeito pelo próximo é fundamental se quisermos construir uma sociedade mais livre.

O lado B (no caso do vinyl e k7) abre com Tempus, outro nome em latim. A música fala sobre como muitas vezes perdemos tempo precioso da nossa vida correndo atrás de padrões de vida completamente inalcançáveis.

Rapina é sobre a ganância dos governantes com sua vontade de se perpetuar no poder e de como estamos deixando um mundo com problemas gravíssimos para as futuras geracações. É a primeira vez que faço todos os vocais numa música nossa.

Ilegal é sobre a crise dos imigrantes em várias partes do mundo, sobre as famílias que têm que reconstruir a vida num país diferente, muitas vezes fugindo de guerras ou da fome. Essa conta com a participação do Carl Swarchz do First Blood. Ele mesmo é um norte americano de origem felipina que mora na Europa, tem muito a ver com a letra.

O Ato de Ousar foi inspirada pelas meninas e meninos que ocuparam as escolas um tempo atrás em protesto contra uma lei que ia prejudicar a vida da maioria. Para nós esse episódio conta muito sobre o poder de mobilização social e a força da juventude, já que o governo foi obrigado a recuar.

A penúltima se chama Veteranos e traz o Ariel do Invasores de Cérebros recitando uma poesia dele. A letra é dele também. É uma grande honra ter o Ariel no disco, um ícone do punk brasileiro.

Fechamos o disco com uma música dos Inocentes, Aprendi a Odiar. Nada mais justo que homenagear um dos pioneiros do punk feito em português no nosso primeiro disco na nossa língua. Como colocamos no encarte, na nossa visão essa letra representa a tomada de consciência de que o mundo é muito injusto e o ódio ao que se refere é o ódio a um sistema que oprime a grande maioria das pessoas.

Como foi ter a participação do Zander ,do Ariel ,do Carl no álbum?

Conhecemos o Gabriel há anos e recentemente fizemos uma tour com o Zander, o que nos aproximou ainda mais. Chamamos ele pra mixar o disco porque gostamos de coisas que ele já fez e aí pensamos que seria legal que ele cantasse também. Sabíamos que ia surpreender muita gente, essa música é uma das mais comentadas pela galera.

O Helinho conheceu o Carl há vários anos quando ele fez uma tour com o Strife pela Europa. Em 2015 fizemos vários shows com eles por lá, ele nos ajudou muito e é um dos caras mais gente boa que já encontramos nos rolês. Quando convidamos ele topou na hora e ficou super empolgado em participar.

Além deles tem a participação do Ariel também, pra nós essas músicas ganharam muito com os convidados.

Como surgiu a versão de “aprendi a odiar” dos Inocentes?

Essa música é das nossas preferidas da primeira fase dos Inocentes e já um tempo que a gente toca de vez em quando em alguns shows. Quando decidimos fazer o disco em português, gravar a nossa versão foi meio que uma escolha automática. Consideramos o Clemente o nosso “padrinho” já que, desde que conhecemos ele ainda nos anos 90, ele sempre deu muita força pra nós. A gente colava, ainda bem moleque, na oficinas de banda que ele fazia na Casa de Cultura do Butantã e ele dizia “vocês tem que ir pra Europa!”.
Aliás, ficamos muito felizes com a tour deles lá nesse ano.

Além das plataformas , vcs já soltaram o álbum em cd , saiu em vinil e algum outro formato também?

Temos uma boa parceria com a 78Life e com a HBB, que fizeram os nossos últimos lançamentos, mas dessa vez decidimos lançar o disco por nós mesmos. Então montamos o selo Resista Records e o CD digipack nacional já na mão.
Além disso, 3 selos alemães, Toanol, Underdogs e Mustard Mustache, lançaram na Europa em CD, K7 e vinyl. 
Ainda não pegamos as nossas cópias, mas devem chegar logo!
Assim que tivermos na mão vamos deixar tudo disponível na nossa loja.
Questions.iluria.com

Quais os próximos objetivos?

Agora a ideia é tocar em todos os cantos possíveis com o material novo. No momento estamos em tour no México e em seguida temos muitas datas já fechadas até o fim do ano no Brasil. Sempre divulgamos os shows no facebook.com/questionsbr

Considerações finais

Muito obrigado pelo espaço e vida longa ao Raro Zine! A circulação da cultura underground é mais importante do que nunca nos tempos sombrios que estamos atravessando no Brasil e no mundo. Devemos apoiar uns aos outros e não deixar o fascismo e atraso tomarem conta da nossa vida. Acreditamos que o hardcore é um veículo de ideias libertárias que combate todos os tipos de preconceito, e é assim que deve permanecer.
E não custa lembrar, em tempos de vida digital, que não tem nenhum YouTube que se compare com a experiência real de colar num show e ver as bandas tocando ao vivo.
Grande abraço! Libertatem!

https://www.facebook.com/questionsbr

http://questions.com.br/blog/

https://questionshc.bandcamp.com/

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