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Amor,ordem e progresso : Black Bell Tone!

Falamos com o Black Bell Tone, sobre seu mais novo álbum, clipe e mais!

Como surgiu o Black Bell Tone ?

A Black Bell Tone se formou em março de 2017 a partir do final de três outras bandas aqui da cena independente do RS. O Taba Kuntz veio da Sandálias, eu (Nando Pontin) e Lucas Pontin viemos da Dissométrica e o Fernando Paulista veio da Wannabe Jalva. Cada uma dessas bandas já tinha uma longa estrada com EPs, discos e clipes lançados, shows pelo Brasil e no exterior e isso ajudou muito a gente ter focos bem definidos desde o primeiro dia de ensaio. A banda já nasceu focada em compor e gravar um álbum completo, mas sabíamos que o processo levaria um tempo, por isso decidimos lançar alguns clipes e singles ao longo do tempo pra já ir apresentando o trabalho pra diferentes públicos e também pra afinar o nosso processo como um todo.

Como se originou o nome do grupo?

O nome Black Bell Tone na verdade tem uma história bastante curiosa contada em vídeo no nosso canal do Youtube. Algumas semanas depois de formar a banda, ainda sem nome, nós organizamos um “campeonato” de nomes de banda. Cada um trouxe pelo menos dez sugestões e aí votamos nos três melhores nomes de cada um. Saímos de um universo de mais de 50 sugestões para um total de oito e depois fizemos um chaveamento tipo quartas de final, semi- final e final. Black Bell Tone foi uma sugestão do Taba e que na época foi escolhido muito mais pela sonoridade, porém ao longo do tempo o “som do sino negro” foi completamente incorporado nos conceitos da banda e do disco como se tivesse sido criado sob medida. É difícil dizer o quanto também essa escolha, resultado de um método inusitado, nos influenciou a trilhar o caminho que percorremos a partir daí. Como se o nome desse sentido a banda e não o contrário.

Como foi o processo dos singles e videoclipes anteriores ao álbum?

A gente tinha certeza que precisava lançar um single rapidamente depois de montar a banda pra poder “existir” no mundo virtual. É um jeito de começar a trabalhar as redes sociais, apresentar a banda pra galera e etc. Depois de alguns meses compondo e ensaiando, estávamos prontos pra gravar as três primeiras músicas: Wolfpacks Bay, All You Said Was Never True e It’s All Right To Sense Again. Como dá pra perceber que, até então, o plano da Black Bell Tone era compor somente e inglês. Gravamos as bateras das três músicas, mas escolhemos acelerar o processo de Wolfpacks Bay pra ser o primeiro single. Eu (Nando) mixei o single e mandamos pra masterização em Abbey Road com o engenheiro Alex Wharton que fez trabalhos pros Beatles, Pixies, Marvin Gaye, Gilberto Gil, entre tantos outros. Quando voltou a gente ficou abismado com o som! O Alex depois masterizou também os nossos dois outros singles que lançamos antes do disco: All You Said Was Never True e Será Que Restou Alguém.

O clipe de Wolfpacks Bay na verdade surgiu de uma “emergência” para podermos participar da seletiva de um festival. O edital pedia um videoclipe, então nos reunimos no estúdio uma noite com mais dois amigos pra filmar, organizamos a luz e o cenário e em três horas filmamos tudo.

A princípio esse seria um clipe provisório, mas o resultado foi tão legal que decidimos enviar para o pessoal da Colateral Filmes fazer um trabalho de finalização de edição e cor e oficializamos como o nosso primeiro videoclipe. O clipe de Será Que Restou Alguém a gente decidiu que seria feito com cenas das gravações em estúdio, então conforme fomos gravando os instrumentos e vozes, já fomos filmando o processo e quando ficou pronto o single, já estava pronto também o clipe.

Como foi essa etapa de criação do álbum?

Depois de gravar as três primeiras músicas, a gente decidiu que o restante o disco também seria feito dessa maneira: em blocos. Quando nos reunimos, ninguém tinha um “estoque” de músicas pra mostrar para os outros, selecionar as melhores e trabalhar. Nos realmente compusemos praticamente todas as músicas do disco depois da formação da banda. Então nesses dois anos e meio a gente teve que conciliar as composições das novas músicas, os arranjos, as gravações do que já estava pronto ou semi-pronto, o trabalho nas redes sociais e os shows. É bastante coisa acontecendo ao mesmo tempo e dividir o disco em blocos nos ajudou a aprimorar o processo gradualmente. No final, foram quatro grandes blocos, o primeiro com três músicas, depois mais duas, depois outras duas e finalmente as últimas cinco, totalizando doze faixas. Foram dezenas de sessões de gravação. Nós criamos o hábito de deixar uma câmera filmando o estúdio durante todo o tempo que estamos lá. Isso nos ajuda a não perder arranjos e ideias e também gera muito material de bastidores pras redes sociais. No dia do lançamento do álbum, já tínhamos mais de 350 horas de vídeo, fora as sessões de mixagem que não filmamos, pois era só eu sozinho na sala e não tinha lá muita coisa acontecendo. É um trabalho imenso, mas ficamos realmente orgulhosos e felizes com o resultado final e isso tem se refletido no feedback que estamos recebendo das pessoas. Dá pra perceber que o esforço investido pra criar cada uma das coisas: coros gigantes sobrepondo vozes dezenas de vezes, camadas e camadas de guitarras, vários takes de voz com diferentes interpretações e pegadas, tudo isso vai somando um pouquinho pra que o resultado final seja um álbum “de respeito”.

Como foi o criado o conceito do mesmo?

O nome “Engenho Que Fabrica Opinião” faz um paralelo entre os engenhos de cana onde os escravos fabricavam açúcar e o imenso “engenho” onde hoje escravos virtuais, sejam eles robôs ou humanos, “fabricam” opiniões. Essa frase está na letra do single de lançamento
“Amor, Ordem e Progresso”:
Escravos digitais
Chicotes virtuais
Engenho que fabrica opinião
Vaidade dos senhores da razão
Praticamente todas as músicas do disco foram compostas após a criação da banda, ou seja, já dentro de um contexto. No entanto esse processo levou dois anos e meio, ou seja, a mensagem foi sendo refinada e tornou-se mais focada ao longo do tempo. Desde o primeiro dia a gente buscou encontrar pontos de convergência para decidir pra onde iriam as nossas letras e a nossa mensagem. Acabamos percebendo um interesse geral sobre tecnologia, redes sociais, big data, manipulação de massas, política tanto em nível nacional como mundial e como hoje a gente vive na iminência de um apocalipse. Considerando que alguns líderes mundiais (cada vez mais radicais) têm arsenais nucleares a sua disposição, não nos parece ser uma questão de “se”, mas apenas quando vai acontecer. O primeiro single “Wolfpacks Bay” ainda é fruto das experiências iniciais no estúdio, mas a partir de “All You Said Was Never True” e “Será Que Restou Alguém” todas essas temáticas já ficam bem evidentes e isso acabou pautando todas as demais faixas do álbum.

Quem elaborou a parte gráfica do disco?

Pode ser dizer que essa capa também é fruto de quase dois anos de desenvolvimento, pois o Leo Lage, artista que assina a obra, já vem trabalhando com a gente desde o primeiro single. O Leo tem uma extensa carreira com grandes artistas e bandas aqui do RS como a Pública, Ultramen, Dingo Bells, Anaadi, entre tantos outros. O Leo é um cara sensacional e ele não faz apenas uma arte pra ilustrar o teu single/disco, ele faz questão de cair pra dentro de todo o teu conceito, entender, ouvir as músicas, discutir e só então propor algo. Nesses dois anos de composição das músicas o Leo esteve envolvido então quando chegou a hora de criar a capa do álbum nós escrevemos um briefing de mais de dez páginas (!) tentando “organizar” as ideias e conceitos, mas em momento nenhum dissemos o que queríamos estampado na capa. Passados alguns meses, o Leo apareceu com essa imagem espetacular das mãos na posição “da paz”, porém feridas por um prego medieval. Não é exagero dizer que a capa ressignificou muita coisa no álbum. A impressão que nós tivemos é que ela amarrou todas as pontas soltas e criou uma mensagem extremamente coesa e poderosa. As mãos em oposição, uma para esquerda e outra para direita, uma preta e outra branca, fazem uma alegoria à polarização da sociedade, não só no Brasil, mas em quase todo mundo. Essa sociedade sangra em busca de paz, acredita que estão muito distante, embora esteja praticamente no mesmo lugar. Além de todo esse poder de síntese que o Leo foi capaz de fazer em apenas uma imagem, o processo técnico de criação da capa também é impressionante e começou com um “rascunho” da imagem (layout). Depois de aprovado, o Leo, com assistência da Anne Fernandes, fotografou as próprias mãos na posição. Em seguida foram dezenas de processos e centenas de ajustes para que parecesse uma escultura em mármore desgastado (como em um apocalipse), porém viva. Incluí abaixo algumas imagens que eles foram postando ao longo da criação.

 

Como foi produzido o novo clipe?

Escolhemos “Amor, Ordem e Progresso” para ser o nosso clipe e single de lançamento. A inscrição na bandeira “Ordem e Progresso” é parte do lema do positivismo de Auguste Comte que originalmente diz: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. Como é possível uma sociedade ter ordem e progresso sem o princípio mais fundamental de todos que é o amor? Nesse momento, nos pareceu um gancho perfeito para falar sobre a polarização da sociedade brasileira e como parece impossível a gente sair dessa sem empatia, conversa, entendimento e amor. Isso tudo aparece numa alegoria na estética do cenário e figurino alternando entre preto e branco que também faz referência à capa do álbum. A música vai além e aborda como as pessoas sucumbiram às possibilidades de comunicação trazidas pela tecnologia, tornando-se avatares frios e insensíveis em uma guerra virtual cuja única finalidade é destruir o discurso que é oposto ao seu. O clipe foi produzido, filmado e editado por nós mesmos, no melhor estilo DIY (do it yourself), e também conta projeções de imagens históricas e momentos importantes que ajudam a dar o contexto nacional abordado na música. Todo o processo foi documentado e está disponível no nosso Instagram.
O ódio e a polarização da sociedade não são um efeito aleatório ou reflexo de sentimentos que sempre estiveram ali, porém oprimidos. Muitos grupos políticos e econômicos se valem do “engenho que fabrica opinião” para mitigar essa cisão da sociedade em nome dos seus próprios interesses. Quanto antes as pessoas perceberem isso e voltarem a tratar os seus parentes e amigos como semelhantes que no fundo querem o mesmo bem comum, mais chances teremos de evitar essa escalada de governos autoritários ao redor do mundo. A mensagem final do nosso disco em “It’s All Right to Sense Again” trata exatamente desse processo de cura pelo qual a sociedade vai precisar passar pra voltar a avançar.

Fill your mind
And turn on all your chances
Set rewind
And give another dance
It’s ok
It’s all right to sense again

Quais os próximos passos?

Nós seguimos trabalhando intensamente, agora na divulgação do disco, na produção de mais dois ou três clipes, na gravação de material para o nosso canal do youtube e também no trabalho de venda de shows e participação nas feiras de música do Brasil. Já estamos com as passagens compradas pra SIM SP que acontece em Dezembro e estivemos na FIMS em Curitiba e no TUM Festival em Floripa. Essas feiras são sensacionais porque nos permitem conhecer e falar pessoalmente com quem gira esse mercado da música no dia a dia. Hoje existe claramente um “midstream” formado por artistas independentes e festivais por todo o Brasil, reunindo público qualificado e aberto a novos sons e novas mensagens. Esse é o nosso grande objetivo para 2020: fazer parte dessa cena e mostrar o nosso trabalho para essa galera.

Considerações finais

Muitos têm comentado como o nosso trabalho faz uma crítica forte ao governo brasileiro, porém a nossa preocupação vai muito além do clã Bolsonaro. Os mecanismos que ajudaram a eleger Bolsonaro seguem vivos e intactos e ninguém parece preocupado em combater esse mal pela raiz. Isso é parte da mensagem do “Engenho Que Fabrica Opinião”. Não há qualquer garantia que, se Bolsonaro terminar ou não o mandato, na próxima eleição não vamos ter exatamente as mesmas estratégias (fake news, financiamento privado disfarçado, caixa 2, etc) para eleger alguém igual ou pior. É importante deixa claro que a Black Bell Tone é e sempre será contra todo tipo de preconceito, discriminação e atentado as liberdades individuais promovida por governos sejam eles de direita, centro ou esquerda. A nossa bandeira é a da HUMANIDADE. Conciliar não significa tolerar absurdos. Pacificar não é o mesmo que calar-se.
Estamos nesse processo de ódio e polarização há alguns anos e seguir acusando os outros de serem idiotas, manipulados, estúpidos, racistas, misóginos e etc. não parece estar surtindo efeito, certo? Pelo contrário, só estamos empurrando pra mais longe pessoas que, com um pouco de conversa e informação, poderiam estar ao nosso lado. Informação, entendimento, empatia e cura. Pra nós, essa parece ser a única saída desse buraco onde nos enfiamos.

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