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Sangue ruim : Cadelas Magnéticas!

Um papo maneiro com Cadelas Magnéticas, falamos sobre o álbum homônimo lançado, entre os assuntos, criação, influências e muito mais!

Como surgiu o grupo? E porque do nome do grupo?

O embrião da banda surgiu em 2016 quando eu estava lançando meu primeiro livro de poesia, Os ratos roeram o azul. Mostrei alguns poemas pro Vinícius França, para o Mauro Novaes e o Gustavo Badaró e resolvemos fazer um projeto de spoken word para o lançamento do livro. Após o lançamento continuamos tocando juntos, compondo e vimos que já tínhamos algumas canções prontas. Daí para a criação da banda foi um passo. O Gustavo, que era o guitarrista, saiu do Cadelas para se dedicar exclusivamente ao Herói do Mal, banda que ele tem com o Mauro e o Vinícius. Aí convidamos o Kim Gomes e o Fábio Corrêa para assumir as guitarras. O nome da banda vem de um conto de ficção científica do William Gibson, Johnny Mnemonic. Nele, as Cadelas Magnéticas são duas transexuais barra-pesada que fazem a segurança de um gangster. Esse conto gerou também um filme homônimo horrível nos anos 90 com o Keanu Reeves pré Matrix.

Quais eram as principais referências musicais pra vcs montarem o grupo?

As referências musicais são muito diversas e esquizofrênicas. Todo mundo na banda já está no cenário musical de BH há algum tempo e tem ou já passou por outras bandas com sonoridades muito próprias. O batera, Mauro Novaes, tem sua trajetória no punk, mas trouxe para o Cadelas uma sonoridade mais percussiva calcada nos tambores do congado mineiro e da umbanda. É só ouvir músicas como Canto para Oxóssi e Oxum, Makumbhia e Tá Rolando que
dá pra sacar o batuque ali conduzindo tudo. O Vinícius França tem mais influência do Birthday Party e bandas do pós punk. O Fábio Corrêa é um guitarrista mais jazzy e se liga em Frank Zappa, Steely Dan, Baden Powell. O Kim Gomes é o nosso Ron Asheton particular. Já meus santos padroeiros são Lou Reed, Iggy Pop, Patti Smith e música de terreiro, além das influências poéticas, Roberto Piva e Drummond. A única certeza que tínhamos era que queríamos juntar essa maçaroca de referências mas a partir de um viés antropofágico, no sentido de regurgitar isso tudo de uma forma bem brasileira, anti-colonial. Algumas pessoas chamam o nosso som de Rock Tranca-Ruas ou Punk Makumba. Acho que é por aí.

Foto por Ricardo Laf

O que buscam transmitir através das canções?

Nunca pensei muito sobre isso… mas respondendo assim à queima roupa o negócio é o seguinte: a música é a única arte que ultrapassa qualquer fronteira, língua ou linguagem, mas tenho muita preguiça de todas essas bandas brazucas que escrevem subletras em inglês. Geralmente são todas superlativas ou simplesmente não querem dizer nada, vira um subproduto colonizado e sem potência que nunca vai além daquele mundinho seguro da classe média. Eu venho da periferia e dos dialetos urbanos da cidade e jamais me permitiria fazer algo assim tão inodoro. Por isso me esforço para escrever alguma coisa que preste em português. Eu canto assim no disco: “ sobrevivente da desnutrição e da chacina / minha poesia ginga / entre a gíria, o jongo e a ilíada”. Então o Cadelas traz em si todas essas confrontações e contradições seculares brasileiras, da desigualdade, da violência do estado, da fome e também, claro, o sexo e a celebração do sagrado. A gente quer se comunicar com as pessoas, falar sobre as questões do nosso tempo, correr riscos. Acho que nossas músicas estão ancoradas no Brasil de agora, esse país politicamente convulsionado e que está sendo destruído por essa corja fascista que tomou o poder, mas também tentam apontar para o futuro. No fundo só queremos fazer boas canções, não sei se conseguimos, mas acho que estamos no caminho com uma música super pop como “Suely”, por exemplo.

Capa por Kelson Frost

Falem do novo álbum

Esse álbum tem três universos norteadores: a porrada política do punk, certa sonoridade xamânica devido às minhas raízes e a minha ligação com as religiões afro-indígenas brasileiras, e a poesia.

A primeira faixa já é uma declaração de intenções: Makumbhia. Essa música é uma saudação a Exu e também uma celebração travessa aos meus ancestrais.

Pin Up é hit em nossos shows e é sobre um casal fora dos padrões em uma noitada regrada a BDSM e substâncias ilícitas. Eu adoro Funk, mas como não sou MC a gente fez esse rock proibidão.

Canto para Oxóssi e Oxum, é das minhas preferidas. Daquelas canções que não se parecem com nada. Oxóssi é o Orixá das matas, “baixado” no Brasil no arquétipo do índios e do caboclo. Oxum é a deusa das águas doces. Para mim
o grande destaque dessa música é o arranjo de bateria que o Mauro fez.

Tá rolando fala sobre os quatrocentos kilos de cocaína encontrados no helicóptero do senador Zezé Perrela e sobre a impunidade dos políticos em geral.

Im not gonna crack é das primeiras músicas que fizemos e gerou um clipe muito foda do Jonathan Tadeu filmado num bairro boêmio aqui de BH. Está no you tube e vocês podem conferir.

Há coisas extremamente barulhentas e experimentais como Cidade industrial e Sangue Ruim com seu naipe cabuloso de metais e que cita o meu filme favorito, O bandido da luz vermelha.

Mas também tem canções pop tradicionais como Suely e Meus amigos. Essa última eu escrevi depois de perder dois amigos queridos. Nossa época está muito pesada e algumas pessoas que têm a sensibilidade à flor da pele não conseguem segurar a onda durante muito tempo. Foi como uma réquiem para eles.

Gosto muito também de Eu comi o Morrissey, também super pop, espécie de homenagem crítica ao sujeito que estava à frente de uma das maiores bandas do mundo e que me influenciou enormemente e hoje se transformou num completo babaca. Por isso só tenho ouvido os discos do Johnny Marr (risos).

Hehehe! Deu quase um faixa-a-faixa!!

Como foi essa fase de concepção do disco?

Nossas canções sempre nasceram do improviso, com a banda tocando e eu escrevendo alguma letra na hora. Nossos shows também são muito intensos, uma pajelança eletrificada. Gosto de provocar a platéia, fazer com que as pessoas não sejam apenas espectadores passivos. Falamos com o produtor do disco, Fabrício Galvani, que queríamos levar esse espírito libertário e anárquico para as gravações, como os Stooges fizeram no Fun House. Ele topou e gravamos tudo ao vivo no estúdio, como se fosse um show, com a banda enchendo a cara de vinho e cerveja. O disco tem dez canções e seis delas foram gravadas em um único take, sem metrônomo, sem nenhuma amarra tecnicista. Por exemplo, Cidade industrial, a música que fecha o álbum é um épico de oito minutos de puro noise e várias vozes que foi gravada de forma catártica e sem repetições. Já a capa foi uma história à parte. Convidamos o Kelson Frost. Além de grande pintor e músico, ele fez capas históricas para a gravadora Cogumelo Records, a mesma que lançou o Sepultura, Sarcófago, Witchhammer e todas as bandas de metal de Minas nos anos 80 e 90. Pra você ter uma ideia a capa que ele fez para o clássico Rotting, do Sarcófago, até hoje é censurada em alguns países. Gostamos muito da capa, ficou praticamente uma pintura renascentista. O pessoal da Goblin Filmes registrou em vídeo todo esse processo de gravação e em breve lançaremos um mini documentário sobre a feitura mucha loka do disco. Aguardem!

Foto por Curt Freitas 

Além da divulgação dele , quais os próximos passos?

Como o processo de concepção e gravação foi muito intenso e deixou muitos mortos e feridos pelo caminho (risos), nosso plano era lançar o disco e acabar com a banda. Até porque tocar rock autoral em BH é uma tarefa mais que árdua. Se você não está inserido nas panelinhas do “mainstream alternativo” da zona sul ou não está ligado a alguma produtora você é simplesmente ignorado. Porém o show de lançamento foi muito foda e renovou as energias de todo mundo para seguirmos em frente. Estamos aguardando a finalização do documentário sobre a produção do álbum e também iniciaremos as filmagens de alguns video clipes. 2020 vai ter muita coisa nova do Cadelas na área!

Considerações finais

Gostei muitíssimo da entrevista! Vida longa ao Raro Zine!
Pra finalizar só queria dizer uma coisa: OUÇAM O CADELAS MAGNÉTICAS!!!

Foto principal por Curt Freitas 

 

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