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Você já ouviu Os Mortos?

Conversamos com Os Mortos, sim, os Mortos, um trio que já registrou 2 singles, e vem trabalhando em seu próximo registro intitulado de Rasga Mortalha.

Como surgiu o trio?

Naturalmente e aos poucos. Na verdade somos três pessoas que continuamente nos víamos sentados na cozinha, bebendo, conversando e ouvindo música. E uma vez que a Camila (contrabaixo e voz) trabalha com pintura abstrata e instalações artísticas, a Mari (bateria) estuda artes cênicas e montagem teatral e eu (Ian, voz e guitarra) trabalho com literatura e performance, era assunto que não acabava mais. Em comum tínhamos que víamos todas essas artes entrelaçadas, quase interdependentes umas das outras, e ali naquela cozinha já estava germinando a ideia de que poderíamos fazer algo juntos, além e aquém do que ficar bebendo, conversando e ouvindo música – processos fundamentais para o nosso processo criativo, diga-se.
Acabou que a música virou o entreposto de todas as estradas.  

A ideia inicial era ser um trio?

Sim e não. Se formos falar do começo de tudo – que guarda realmente pouquíssimas semelhanças com a sonoridade de agora, inclusive não havia nem nome -, então sim. Mas era um esquema muito diferente, eu tocava violão, com outra base de violão gravada, a Camila tocava baixo e um amigo tocava percussão. Fazíamos um som muito mais leve e pensávamos nada em questões de performance ou visual – a não ser algumas referências cinematográficas que queríamos usar como projeções. Aí o percussionista enveredou-se pelas estradas do Recife e ficamos só nós dois, Camila e eu. Foi nesse momento que eu comecei a usar a guitarra e nós percebemos que tínhamos inclinação para o noise e o shoegaze, isso só porque nos agradava o ruído nos ouvidos e músicas longas sem nenhum compromisso com refrões e versos – algo que de algum modo ainda está presente no nosso trabalho, mas de maneira diversa. O nosso primeiro show, quando já existia um nome e tal, foi no Zapata, em São Paulo, e então tocamos como um duo. É engraçado porque a Mari, que hoje toca bateria na banda, foi nesse show para nos emprestar o projetor. Nessa ocasião, ela participou do show em uma música, em pé tocando um prato. A Mari – que tem um jeito particular de tocar que consideramos imprescindível para o som que hoje realizamos – nunca tinha exatamente tocado bateria; não era exatamente uma baterista. Ela tocava pandeiro, triângulo, e tal, e tinha uma bela noção de ritmo, mas não era baterista. Mas tínhamos centenas de afinidades artísticas, estéticas e ideológicas, além de uma amizade bem longa, e uma vontade de vislumbrar um modo diferente de fazer as coisas, o que, para nós, é muito mais fundamental para a criação da arte do que saber fazer uma virada na hora certa ou qualquer coisa assim. Aquele prato do primeiro show se estendeu para um bumbo, que logo virou uma caixa, um surdo, e sabe-se lá onde isso vai parar. No nosso segundo show já éramos um trio, e assim continuaremos.  

Foto por Ian Uviedo

Que tipo de sonoridade queriam executar?

Quando a ideia toda surgiu, tínhamos dois alvos: o Fellini, talvez a única banda original de São Paulo nos anos oitenta, por causa dos arranjos minimalistas e o jeito falado das letras do Cadão Volpato; e o Exuma, um caribenho lunático dos anos sessenta e setenta que gravou discos absolutamente geniais, pouquíssimo conhecidos, algumas das suas músicas foram gravadas pela Nina Simone e dele nos interessava o clima dos registros fonográficos: vozes, risadas, sussurros e diálogos perdidos preenchem o espaço – algo que usamos bastante na nossa performance ao vivo. 

Hoje em dia gostamos de pensar Os Mortos como uma banda que é experimental mais em seu processo do que em seu resultado. A sonoridade da música se desenrola em sua própria formulação, não a precede. Nos é desnecessário, hoje, pensar em alguma sonoridade específica, não procuramos nos espelhar nem nos identificar em nenhum estilo. Além disso, vemos a nós mesmos como uma banda situada na América do Sul, este continente que é marcado pela história da violência, a militarização do Estado contra a resistência dos povos. As pessoas, na América do Sul, sempre tiveram que se refugiar em guetos sociais – sejam estes estéticos, sonoros, ideológicos -, afinal, períodos políticos turbulentos trabalham a serviço da diluição da individualidade. Tem outra coisa: estilos são instituições, e bandas que se identificam com eles e se limitam a eles estão trabalhando a serviço de instituições, e isso não nos interessa, já que nossas letras, e mais do que isso, nossa vontade de criação, surgem justamente como uma reação às imposições das instituições, que no caso da arte, na maioria das vezes no nosso contexto, são americanizadas ou eurocêntricas. Como nos identificar com o punk, o post-punk, o fuzz, o hardcore ou qualquer coisa assim em pleno processo de descolonização das Américas? Mesmo que hoje nosso som se aproxime de algum desses estilos que, veja bem, nós gostamos e muitas vezes nos influenciamos, não se pode esperar que vamos levantar qualquer bandeira. Não será por uma limitação de estilo que vamos deixar de usar um maracá e um echo na mesma música. Por esses motivos acreditamos que a não-identificação e o não-pertencimento são um norte para nós. 

Gostamos bastante de um teatrólogo francês chamado Antonin Artaud, e patinamos nas ideias dele, também, para prezarmos o imediato como condição suprema do instante. Não queremos que nossos shows sejam iguais aos nossos ensaios. Queremos o instante, o inesperado, o desconhecido. 

Foto por Johnny Macedo 

Como surgiu o nome da banda?

Os Mortos é o nome de uma novela de James Joyce, que está dentro do livro Dublinenses.  

O livro estava na estante o tempo todo, só faltava olhar. E quando olhamos, foi definitivo. Foi o primeiro e único nome da banda. É uma novela intensa de Joyce, com passagens quase existencialistas. Acreditamos que seja um bom nome para mostrar que nossas referências vão além da música. Temos uma música em que a Camila declama um trecho do livro Teorema, do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, que também transmite essa ideia. Os Mortos é um nome que tem causado reações interessantes, talvez pela sua simplicidade, achamos que tem um humor-mórbido, e uma sonoridade que nos agrada. Imagine só:

-você já ouviu o som dos mortos? -você tem que ouvir os mortos!

Como foram elaboradas as primeiras faixas?

As primeiras faixas são Minha História e Um Poema pra Ana, uma versão do compositor maranhense João do Vale e uma autoral, respectivamente. 

João do Vale foi um poeta e compositor Maranhense de um léxico riquíssimo e uma rara sensibilidade aos temas políticos do sertão brasileiro. Entre outras pérolas, compôs o Carcará. Na versão original de Minha História o arranjo é só voz e rabeca, e nós fizemos uma versão eletrificada, a fim de diluir barreiras entre o que é música regional e o que é música urbana. A nossa abordagem não foi a partir de ser uma música regional, mas sim de ser uma música que nos toca como qualquer outra do ponto de vista sentimental. Criamos o arranjo e percebemos que era um campo aberto para diversas experimentações e viagens, e com isso, entre outras coisas, temos a pretensão de que mais pessoas conheçam João do Vale a fundo e percebam a amplidão das possibilidades sincréticas dos ritmos: um power-trio de São Paulo fazendo um baião elétrico a partir da obra de um artista maranhense. A tal da Geleia Geral de Torquato Neto. 

A música Um Poema pra Ana eu, Ian, a compus faz tempo e a resgatei quando percebi que estava totalmente alinhada com as nossas vontades. É um exercício de criação de imagens que entre si tem apenas uma corrente poética subjetiva. Como letrista, não gosto de tratar de temas absolutos como a Morte, a Beleza, nem nada assim, e me desvio de adjetivos abstratos. Gosto de usar o concreto pra chegar ao sentimento abstrato: imagens, não sensações. Imagens são sensações. 

Achamos que são boas duas músicas para mostrar a que viemos. 

As duas faixas foram gravadas ao vivo no Estúdio Lamparina em outubro de 2019, em São Paulo, e masterizadas pelo Guto Gonzales. 

Foto por Johnny Macedo 

Nos falem sobre o EP que sai em breve?

O EP, que está previsto para 2020, se chamará ‘Rasga-Mortalha’. 

Rasga-mortalha é o nome popular que se dá, na região norte e nordeste do Brasil, à uma pequena coruja, de cor branca, de vôo baixo. O atrito de suas asas, ao voar, produz o som de um pano que está sendo rasgado. O povo acredita que, quando ela passa sobre a casa de alguma pessoa doente, ela esteja rasgando a mortalha do doente, que assim está pra morrer. Vale a pena a pesquisa, é uma lenda muito interessante. Gostamos desse nome pela óbvia conexão com o nome da banda e por estar tão entranhado na cosmogonia do norte e nordeste do país, região de onde saem muitas das manifestações rítmicas e poéticas que nos interessam. Nos nossos shows sempre terminamos tocando versões ruidosas de alguma cantiga como ‘O Cirandeiro’ ou então as cantigas de Sérgio Ricardo para os filmes de Glauber Rocha. Nesse sentido, podem esperar do nosso EP, por exemplo, uma música cujo eu-lírico da letra é dono de um arsenal no meio do sertão; podem esperar percussões, ritmos brasileiros, tudo diluído no bom caos d’Os Mortos. 

Além disso, também outras músicas que se inclinam para paisagens urbanas – como é o caso de Um Poema pra Ana -, sempre com a nossa oralidade poética e a tentativa constante da ternura nas melodias, nas letras. Estamos ainda vendo possibilidades de participações especiais, mas não só de músicos, como também de escritores e poetas. Acreditamos que será um panorama fiel das nossas cabeças, das nossas vontades, e de tudo que possa aparecer no meio do caminho. 

Quais os próximos passos?

Queremos explorar cada vez mais possibilidades de ritmos que cabem dentro dos nossos arranjos, ampliando assim nosso campo de vislumbre artístico. O importante agora é finalizar o EP de forma que expresse a efervescência do nosso começo. Além disso, queremos levar para o palco mais das nossas viagens cênicas, seja em projeções, em trajes, em discursos. Queremos cada vez mais avançar com a ideia do show enquanto instalação. Os próximos passos dependem única e exclusivamente dos acontecimentos que não dependem de nós, mas sim das circunstâncias. O que desejamos é continuar tocando, nos expressando vivamente, e levando às últimas consequências nossa aposta na autenticidade e, acima de tudo, na originalidade. Digamos que os próximos passos irão projetar a si próprios no futuro.

Considerações finais

O fim está ótimo. 

Foto principal por João Nunes Junior 

 

youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Wt_WeVBx6yc&list=RDMMdg3pKN0XgSo&index=6

youtube: https://www.youtube.com/watch?v=dg3pKN0XgSo&list=RDMMdg3pKN0XgSo&index=1

instagram: https://www.instagram.com/os.mortos/

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