A alquimia do rock colombiano: a longa caminhada dos Aterciopelados

Três décadas de resistência, transformação sonora e o reencontro com os palcos brasileiros

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German Martinez

11/7/20268 min read

A banda colombiana Aterciopelados construiu uma das trajetórias mais ricas, originais e impactantes da história do rock alternativo na América Latina. Surgido no início da década de 1990 em Bogotá, o grupo liderado por Andrea Echeverri e Héctor Buitrago desafiou as convenções da época ao misturar guitarras distorcidas com o folclore local. Em um cenário marcado por tensões políticas e sociais, eles encontraram na música um espaço de resistência e identidade cultural pioneiro.

O embrião do projeto nasceu sob o nome de "Delia y los Aminoácidos" em 1990. Héctor Buitrago, vindo da cena punk underground da capital colombiana, uniu-se a Andrea Echeverri, que na época cursava artes plásticas. A química artística e pessoal entre os dois transformou a sonoridade crua inicial em algo inovador, fazendo com que adotassem definitivamente o nome Aterciopelados em 1992.

O álbum de estreia, Con el Corazón en la Mano, lançado em 1993, refletia uma juventude urbana ávida por se expressar. Com uma pulsação nitidamente punk combinada com elementos de ritmos tropicais e letras viscerais, o disco atraiu rapidamente a atenção do público local. A voz única de Andrea começava a se consolidar como um farol de autenticidade no rock em espanhol.

As mudanças na formação foram uma constante na história do grupo, moldando as suas diferentes fases de experimentação. Nos primeiros anos, músicos como Andrés Giraldo e Charlie Márquez integraram a banda, ajudando a definir o peso inicial. Contudo, ao longo das décadas, o núcleo criativo sempre se manteve firme na parceria inabalável entre Andrea Echeverri e Héctor Buitrago.

Lançado em 24 de outubro de 1995, El Dorado é o segundo álbum de estúdio da banda, produzido por Federico López, o disco representou um divisor de águas não apenas para a carreira do grupo liderado por Andrea Echeverri e Héctor Buitrago, mas também para toda a cena do rock em espanhol. O título faz alusão à mítica lenda pré-colombiana, traduzindo uma busca por identidade e um resgate da riqueza cultural e espiritual da América Latina.

Musicalmente, o álbum destaca-se por fundir de forma inovadora o folclore tradicional colombiano com gêneros urbanos e contemporâneos, como o punk, o reggae e o rock alternativo. Essa fusão audaciosa desafiou os padrões estéticos dominantes da época e estabeleceu uma sonoridade própria e autêntica, classificada muitas vezes como uma estética kitsch elegante. As composições conseguiram capturar as cores, o misticismo e as contradições do cotidiano de Bogotá, embaladas pela voz marcante de Andrea e arranjos instrumentais inventivos.

O impacto comercial e cultural de El Dorado foi imenso, superando a marca de 200 mil cópias vendidas e impulsionando a banda em turnês internacionais ao lado de gigantes como Soda Stereo e Héroes del Silencio. O disco imortalizou clássicos absolutos do cancioneiro latino-americano, como a irônica e dramática balada "Bolero Falaz" e a enérgica "Florecita Rockera". Graças a essa obra-prima, os Aterciopelados consolidaram sua reputação como pioneiros na modernização da música alternativa do continente.

Lançado em 1996, o terceiro álbum de estúdio da banda, La Pipa de la Paz, consolidou definitivamente o sucesso internacional do grupo e rendeu aos Aterciopelados sua primeira indicação histórica ao Grammy Internacional na categoria de Melhor Álbum de Rock/Alternativo Latino. Gravado em Londres sob a produção do renomado Phil Manzanera (ex-guitarrista do Roxy Music), o disco apresentou uma sonoridade incrivelmente polida, sem perder a acidez e a atitude contestadora características do duo colombiano. Através de uma fusão refinada entre o rock e o folclore latino-americano, a obra destilava críticas sociais afiadas em um contexto de busca por reconciliação pacífica na Colômbia da época.

O álbum transformou-se em um marco cultural impulsionado por clássicos atemporais como "Cosita Seria" e "Baracunatana", faixas que dominaram as rádios do continente e expandiram os horizontes do rock em espanhol. Enquanto as letras abordavam com maestria o empoderamento feminino e ridicularizavam o machismo estrutural, os arranjos inovadores ganhavam as telas da MTV Latina com videoclipes de forte impacto visual. La Pipa de la Paz não apenas reafirmou a genialidade criativa da parceria entre Andrea Echeverri e Héctor Buitrago, mas também estabeleceu a banda como uma voz fundamental para entender a identidade urbana e a resiliência da juventude latino-americana nos anos 90.

Lançado em junho de 1998, Caribe Atômico é o quarto álbum de estúdio. Gravado em Nova York e produzido por Andrés Levin, o disco marcou uma virada estética radical na trajetória da banda, afastando-se do rock de distorção crua dos trabalhos anteriores para mergulhar de cabeça na experimentação eletrônica. A obra combina batidas de downtempo, sintetizadores, loops de vinis antigos e texturas computadorizadas com instrumentos tradicionais latino-americanos, criando uma atmosfera futurista que serviu de pano de fundo para um forte manifesto ecológico e social, explícito na faixa-título que denuncia a poluição e a destruição dos oceanos.

O trabalho foi amplamente aclamado pela crítica internacional, consolidando o sucesso comercial global do grupo com mais de 500 mil cópias vendidas em todo o mundo. Impulsionado por grandes sucessos como "El Estuche" e a melancólica "Maligno", o álbum rendeu à banda uma prestigiosa indicação ao Grammy de Melhor Performance de Rock Latino/Alternativo em 1999. Com essa fusão pioneira de folclore e tecnologia, Caribe Atômico não apenas expandiu os horizontes musicais de Andrea Echeverri e Héctor Buitrago, mas tornou-se um dos pilares fundamentais da evolução da música alternativa no continente no fim da década de 1990.

A ligação dos Aterciopelados com a MTV foi um dos pilares fundamentais para a projeção internacional da banda, servindo como a principal vitrine que transformou o duo bogotano em um fenômeno continental nos anos 90. A relação atingiu seu primeiro grande ápice em 1996, quando os videoclipes de faixas do aclamado álbum La Pipa de la Paz entraram na rotação máxima da MTV Latino, desafiando o mercado musical ao levar discursos sobre o empoderamento feminino e críticas ao machismo estrutural diretamente às telas de jovens de toda a América Latina. No mesmo ano, a marcante presença da vocalista Andrea Echeverri no clássico acústico do Soda Stereo — dividindo os vocais com Gustavo Cerati na icônica versão de "En la Ciudad de la Furia" — selou de vez o status da banda como realeza do rock em espanhol.

Essa sólida parceria resultou em um feito histórico no ano seguinte: os Aterciopelados tornaram-se a primeira banda colombiana a gravar um especial para o prestigiado selo MTV Unplugged. Gravado em 3 de abril de 1997 no Miami Broadcast Center, o show acústico desnudou a sonoridade do grupo em uma roupagem intimista e mística, mesclando a distorção do rock com a riqueza de suas raízes folclóricas. Embora o concerto não tenha recebido um lançamento físico em CD na época, tornando-se uma espécie de "reíquia pirata" cultuada pelos fãs até sua posterior disponibilização digital, as exibições na TV consolidaram de vez o nome dos Aterciopelados no imaginário da cultura pop latino-americana.

A banda desempenhou um papel revolucionário na música sul-americana ao quebrar o complexo de vira-lata do rock do continente e provar que a identidade latina não precisava ser apagada para soar moderna. Antes deles, grande parte do rock em espanhol mimetizava fórmulas anglo-saxãs prontas. Ao fundir guitarras distorcidas com o bolero, a cumbia, o vallenato e ritmos ancestrais andinos, o duo colombiano abriu as portas para uma estética inteiramente nova — o chamado rock alternativo latino —, mostrando a toda uma geração de músicos que era possível cantar a própria realidade, folclore e misticismo com atitude genuinamente punk.

Além da inovação sonora, a relevância do grupo reside no fato de terem sido uma das primeiras e mais potentes vozes da América Latina a unificar de forma indissociável a música pop de massas ao ativismo social, ecológico e feminista. Em uma época em que o cenário do rock era predominantemente masculino e as discussões de gênero eram raras na grande mídia, a figura performática e autêntica de Andrea Echeverri desafiou os padrões estéticos tradicionais com letras focadas no empoderamento da mulher e na desconstrução do machismo. Com Héctor Buitrago conduzindo manifestos de preservação ambiental e paz global, os Aterciopelados tornaram-se o espelho de uma juventude sul-americana que buscava curar cicatrizes políticas e sociais por meio da arte transformadora.

Genes Rebeldes, lançado em 2025 é o décimo álbum de estúdio. O trabalho funciona como um manifesto de identidade, resistência e maturidade, celebrando a rebeldia não como um ato de destruição, mas como uma força criativa, terna e transformadora que conecta o ancestral ao cósmico. Composto por 13 faixas inéditas, o disco transita com fluidez por uma rica paleta sonora que mistura o rock e o blues com ritmos tradicionais latino-americanos — como a rancheira, o bambuco e a cumbia rebajada — envolvidos por experimentações eletrônicas e sintetizadores.

Os grandes destaques conceituais da obra ficam por conta da faixa-título "Genes Rebeldes", descrita pelo duo como um "bolero cósmico" eletrônico que narra o romance interplanetário entre dois genes feitos de poeira cósmica, e de "Eterno", uma emocionante homenagem ao lendário instrumentista argentino Gustavo Cerati. Essa última conta com as guitarras de fuzz marcantes e as participações especiais de nomes de peso do rock latino, como Zeta Bosio, Richard Coleman e Hilda Lizarazu. Abordando temas de conscientização ambiental, paz e empoderamento feminino com o carisma inconfundível de Andrea Echeverri e Héctor Buitrago, o álbum reafirma a relevância e o vanguardismo contínuo do grupo na música alternativa continental.

A gravação do Aterciopelados: Tiny Desk Concert transformou o icônico escritório da NPR Music, em Washington, em um manifesto visual e sonoro da psicodelia e do rock latino. Lançada em 7 de abril de 2026, a aguardada sessão intimista celebrou os 30 anos do emblemático disco La Pipa de la Paz, consolidando a banda como um dos maiores pilares de resistência cultural e musical do continente.

O espaço minimalista da rádio norte-americana ganhou uma atmosfera mística inteiramente customizada pelo duo. O cenário foi decorado com peças artesanais de cerâmica e uma bandeira acolchoada feita à mão pela própria vocalista Andrea Echeverri. No setlist de seis músicas, clássicos inesquecíveis como "Bolero Falaz" e "El Estuche" ganharam roupagens acústicas e cruas, dividindo espaço com composições viscerais como "Te Juro Que No", "Piernas", "Candela" e "La Culpable".

A performance ficou marcada pela forte sinergia entre o baixo pulsante de Héctor Buitrago e a voz marcante de Andrea, que superou o desafio técnico do formato desplugado e sem amplificadores tradicionais com pura presença de palco. Exaltado pela crítica especializada, o show no NPR Music provou que o ativismo ecológico, o feminismo e a essência folclórica do grupo permanecem tão potentes e urgentes quanto em seus primeiros anos de estrada.

Serviço:


ATERCIOPELADOS (Col)
Onde: Cine Joia – Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade, São Paulo – SP, 01501-040
Quando: 29 de novembro de 2026
Abertura da casa: 17h
Show: 19h
Classificação indicativa: 18 anos

Ingressos disponíveis

https://www.cinejoia.com.br/eventos/aterciopelados/

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