A catarse instrumental do toe Incendeia a noite paulista

Após oito anos de espera, quarteto japonês celebra duas décadas e meia de carreira com um show memorável e esgotado no Cine Joia

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Fotos por André Brito - Texto German Martinez

9/28/20264 min read

Na noite da última quinta-feira, 17 de setembro, a icônica banda japonesa toe subiu ao palco do Cine Joia, em São Paulo, para uma apresentação histórica. Trazido ao Brasil pela produtora Balaclava Records, o show marcou o retorno do grupo à capital paulista após um longo hiato de oito anos. Celebrando 25 anos de estrada, o quarteto encontrou uma casa completamente lotada por fãs fervorosos, que esgotaram os ingressos rapidamente e transformaram o espaço em um verdadeiro caldeirão de energia e emoção.

O repertório da noite promoveu um equilíbrio perfeito entre o passado e o presente da discografia do grupo, que é uma das maiores referências mundiais do math-rock e post-rock. A jornada sonora teve início imediato com a imersiva “LONELINESS WILL SHINE”, faixa que abre o elogiado e meditativo álbum mais recente da banda, NOW I SEE THE LIGHT (2024). Sem perder o fôlego, o grupo emendou com a clássica “Long Tomorrow”, estabelecendo logo de cara que a noite seria uma costura fluida entre diferentes eras.

No palco, a sinergia entre os músicos Kashikura Takashi (bateria), Mino Takaaki (guitarra), Yamane Satoshi (baixo) e Yamazaki Hirokazu (guitarra) se sobressaiu de forma impressionante. A performance dinâmica da banda fez com que as estruturas complexas do rock instrumental ganhassem a intensidade física e a urgência de um show de hardcore. O grande destaque visual e rítmico ficou por conta do baterista Takashi, cujas viradas viscerais e precisão técnica ditaram a pulsação de cada música, hipnotizando os olhares da plateia.

Na sequência, a banda mergulhou em dinâmicas rítmicas hipnotizantes através de canções como “Kaze to Kioku” e a ovacionada “Kodoku no Hatsumei”. Foi nesse bloco que o Cine Joia testemunhou uma das marcas registradas do toe: a síncope perfeita das guitarras de Mino Takaaki e Yamazaki Hirokazu. Cada riff milimetricamente calculado encontrava eco imediato no público, que acompanhava as melodias instrumentais em uníssono, transformando faixas complexas em verdadeiros hinos cantados a plenos pulmões.

O setlist continuou a se expandir com a atmosférica “Chiaroscuro” antes de abrir espaço para duas joias pinçadas do EP Our Latest Number: a própria faixa-título “The Latest Number” e a cativante “Esoteric”. Entre elas, o peso do baixo de Yamane Satoshi ditou o tom em “Because I Hear You”, única representante do álbum Hear You (2015) no repertório paulistano, mantendo as estruturas do rock experimental em constante evolução no palco.

Além do entrosamento perfeito do quarteto principal, a noite ganhou camadas ainda mais ricas com a presença do tecladista convidado Keisaku Nakamura. Os arranjos de teclado preencheram o ambiente do Cine Joia, criando atmosferas profundas e dialogando diretamente com a síncope das guitarras. Saudado calorosamente pela plateia e pelos próprios integrantes, o músico foi fundamental para dar vida às texturas meditativas e experimentais que a banda acumulou nessas duas décadas e meia de história.

Para fechar o bloco principal, a banda optou por uma sequência de tirar o fôlego, consolidando as composições recentes de igual para igual com o material histórico. As texturas vanguardistas de “Sonny Boy Rhapsody” prepararam o terreno para a grandiosidade de “NOW I SEE THE LIGHT”. A apoteose antes do bis se deu com a intensa “F_A_R”, cuja parede de som industrial e rítmica dilacerante deixou a plateia em estado de completo transe e êxtase coletivo.

A sinergia entre os músicos e o tecladista convidado Keisaku Nakamura enriqueceu drasticamente a execução ao vivo dessas peças circulares. A performance dinâmica do grupo fez com que as estruturas do rock instrumental ganhassem a intensidade física e a urgência de um show de hardcore. O grande destaque visual e rítmico ficou por conta do baterista Kashikura Takashi, cujas viradas viscerais pareciam desmontar e reconstruir cada música em tempo real, ditando a pulsação da plateia.

Perto do final, o toe utilizou o espaço para fazer um emocionante discurso focado na união e no posicionamento contra os conflitos e guerras ao redor do mundo. Ovacionados, os integrantes engataram um encore memorável no violão acústico com a delicadeza de “Two Moons”, seguida pelo clima doce e contemplativo de “After Image”. O encerramento definitivo aconteceu em grande estilo com a clássica “Goodbye”, despejando as últimas doses de distorção de uma banda que revisita a própria história sem ficar presa a ela.

Após o encerramento catártico, ficou evidente que a apresentação não foi apenas mais uma data na agenda, mas uma verdadeira celebração de resistência do cenário independente. Ao esgotar duas noites consecutivas na cidade, o grupo japonês e a Balaclava Records mostraram a força descomunal que o nicho do rock experimental mantém no país. Para quem esteve lá, a quinta-feira converteu-se em um daqueles marcos raros em que a precisão milimétrica dos arranjos se dissolveu em puro sentimento.

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