A noite britânica do C6 Fest: empolgação do Wolf Alice e o reencontro histórico do The xx embalam o Ibirapuera
Sob chuva e frio, festival une gigantes do Indie a encontros culturais potentes no terceiro dia de shows exclusivos em São Paulo
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Fotos por Raíssa Corrêa - Texto German Martinez
5/28/20266 min read


O terceiro dia da quarta edição do C6 Fest, realizado no Parque Ibirapuera em São Paulo, consagrou-se como uma verdadeira maratona para os amantes da música alternativa. No sábado, 23 de maio de 2026, com ingressos completamente esgotados antecipadamente, o público paulistano desafiou o clima frio e chuvoso para testemunhar um dos momentos mais aguardados do calendário cultural do país.
A atmosfera que se desenhava no Ibirapuera misturava a tradicional elegância do festival com a energia vibrante de uma plateia ansiosa por novidades e reencontros históricos. Entre as diversas atrações que cruzaram os palcos dispostos pelo parque, duas bandas britânicas concentraram as maiores expectativas da noite: os estreantes do Wolf Alice e o cultuado trio The xx.






Sendo uma das primeiras atrações a subir no palco da Tenda MetLife, as jovens norte-americanas do Horsegirl fizeram sua estreia em palcos brasileiros injetando guitarras zunintes e dissonantes no festival. O trio de Chicago apresentou faixas de seu elogiado repertório, abrindo com a dançante "Where'd You Go" e resgatando influências claras de Velvet Underground e Yo La Tengo. Com uma postura timidamente carismática, elas mostraram para a crítica o motivo de serem consideradas uma das promessas do indie pop atual.






Chamado às pressas para substituir o norte-americano Dijon, Mano Brown provou ser um dos grandes acertos da edição. O lendário rapper paulista subiu ao palco da Arena Heineken trazendo seu aclamado formato "Baile do Chefe", misturando o suingue do projeto solo Boogie Naipe com os hinos históricos que construiu à frente dos Racionais MC's. Contando com a participação enérgica de Rincon Sapiência, Brown entregou um show repleto de groove e rimas afiadas que colocou todo mundo para dançar.
As atrações nos 2 palcos não paravam, de um lado o icônico vocalista da banda The National , Matt Berninger, trouxe seu projeto solo ao festival. Conhecido por sua voz barítona profunda e performances intensas, ele entregou um show intimista e elegante, repleto de poesia urbana e melancolia indie.
A cantora e compositora ganesa-americana Amaarae, subiu ao palco da Arena Heineken trazendo o frescor do afropop moderno misturado com R&B experimental. Com vocais doces e batidas envolventes, ela colocou o público inicial do festival para balançar. Baxter Dury, o músico britânico apresentou seu estilo único de indie pop misturado com spoken word, trazendo linhas de baixo marcantes e letras ácidas que divertiram e conquistaram a plateia da Tenda MetLife.
Mabe Fratti, a violoncelista e compositora guatemalteca foi a grande responsável por inaugurar o palco C6 Lab dentro do Auditório Ibirapuera, proporcionando uma experiência de audição profunda com suas texturas experimentais e de vanguarda. Na Pista Pacubra, Para os amantes da música eletrônica, o espaço do pavilhão Pacubra ferveu com os sets de house music da brasileira Aline Rocha e o deep/afro house do DJ e produtor internacional Marten Lou.
O BaianaSystem promoveu um dos momentos mais explosivos do dia ao apresentar o projeto TanzaBahia. Conhecidos por transformarem qualquer espaço em um verdadeiro Carnaval soteropolitano, o grupo liderado por Russo Passapusso trouxe ao palco os MCs tanzanianos Makaveli e Kadilida, expoentes do gênero eletrônico de alta velocidade Singeli Music. Essa fusão rítmica de ancestralidade e vanguarda eletrônica entre a Bahia e a Tanzânia resultou em uma performance de pura força física e expressão corporal.




O Wolf Alice subiu ao palco da Tenda MetLife sob a enorme responsabilidade de realizar sua primeira apresentação em território brasileiro. Liderada pela magnética Ellie Rowsell, a banda inglesa não demorou um segundo sequer para mostrar a que veio, transformando o espaço coberto em uma catarse coletiva movida a guitarras distorcidas e vocais viscerais.
O repertório do quarteto equilibrou com maestria a agressividade do rock alternativo e a delicadeza de suas passagens mais melódicas. Músicas aclamadas do elogiado álbum Blue Weekend ecoaram com uma potência avassaladora, provando que o Wolf Alice sabe dominar grandes plateias com a autoridade de quem carrega prêmios importantes como o Mercury Prize na bagagem.
O ponto alto da apresentação se consolidou quando os primeiros acordes do hit "Don't Delete The Kisses" preencheram a tenda. Emocionada, a plateia acompanhou em coro uníssono cada verso da canção, criando uma conexão íntima e calorosa que fez o público esquecer completamente a baixa temperatura que fazia do lado de fora.
A performance cativante de Ellie Rowsell e o entrosamento impecável de seus companheiros deixaram claro que a estreia da banda no Brasil foi um sucesso histórico. Críticos e fãs saíram da Tenda MetLife com a nítida sensação de terem presenciado um show de rock puro, enérgico e absolutamente indispensável para os tempos atuais.








Pouco tempo depois, as atenções se voltaram integralmente para a Arena Heineken, onde o The xx se preparava para quebrar um longo hiato longe dos palcos brasileiros. Afastados das turnês conjuntas por cerca de sete anos, o trio britânico escolheu o C6 Fest para celebrar um reencontro mágico com o público de São Paulo.
Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie xx pisaram no palco sob aplausos calorosos, iniciando uma jornada que flutuou perfeitamente entre a melancolia indie e as batidas eletrônicas feitas para dançar. A assinatura sonora minimalista do grupo preencheu o espaço do parque, envolvendo a multidão em uma atmosfera hipnótica e profundamente sinestésica.
Clássicos de início de carreira como "Crystalised" e "Intro" geraram reações imediatas e nostálgicas, transportando o público de volta ao final dos anos 2000. A iluminação sofisticada e os arranjos polidos criados por Jamie xx nas picapes transformaram a Arena Heineken em uma imensa pista de dança a céu aberto.
O repertório também abriu espaço para faixas do álbum Coexist, como "Angels", além de celebrar as elogiadas incursões solo de cada integrante. O momento em que tocaram "Enjoy Your Life", canção autoral de Romy, injetou uma dose extra de euforia e celebração pop que lavou a alma de todos os presentes.






A dinâmica intimista entre os três músicos no palco provou que o tempo separados não desgastou a química essencial que os tornou um fenômeno mundial. Mesmo enfrentando oscilações pontuais no volume do som da arena externa, o The xx entregou uma performance elegante, afetiva e visualmente impecável.
Quando as últimas notas ecoaram pelo Parque Ibirapuera, o público relutou em deixar o local, ainda impactado pela sucessão de grandes apresentações. O terceiro dia do C6 Fest se encerrou consagrando Wolf Alice e The xx como os grandes triunfos de uma noite em que a música alternativa britânica ditou o ritmo e o coração de São Paulo.

