O som que ecoou no Parque: a despedida memorável do C6 Fest

O quarto dia do festival funde nostalgia e modernidade em uma curadoria impecável sob as árvores do Ibirapuera.

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Fotos por Raíssa Corrêa - Texto German Martinez

5/28/20266 min read

O quarto e último dia do C6 Fest, realizado no icônico Parque Ibirapuera, em São Paulo, consolidou o evento como um dos refúgios mais sofisticados e plurais do calendário musical. A atmosfera bucólica do parque se fundiu com a eletricidade do público, que compareceu em peso para se despedir de uma maratona intensa de shows de alto nível. Entre a folhagem e as estruturas arquitetônicas, as diferentes arenas e tendas ganharam vida sob uma curadoria impecável.

O encerramento do festival foi marcado por uma mistura equilibrada de nostalgia, experimentação contemporânea e o charme do indie internacional. O público transitou por diversas gerações da música em uma estrutura elogiada por sua proposta intimista, que permitia uma conexão profunda com os artistas no palco. Entre os grandes destaques desse grandioso desfecho, três nomes roubaram a cena por suas propostas sonoras distintas e performances arrebatadoras.

A transição para os sons contemporâneos e globais do festival encontrou o seu ápice estético e visual com a apresentação do duo norte-americano Magdalena Bay. Conhecidos por seu synth-pop conceitual e estetica futurista inspirada no início da internet, Mica Tenenbaum e Matthew Lewin entregaram um verdadeiro espetáculo multissensorial. A performance no palco misturou projeções psicodélicas com ritmos dançantes e magnéticos.

O show do Magdalena Bay funcionou como um portal para o pop eletrônico moderno, arrebatando tanto os fãs de longa data quanto os curiosos que passavam pela tenda. Com coreografias milimetricamente calculadas e vocais etéreos, a dupla entregou faixas que transbordavam sintetizadores oitentistas repaginados para o futuro. Foi uma apresentação que se destacou pela energia jovem e pela impecável execução técnica.

Um dos grandes momentos do dia foram os Paralamas do Sucesso, que trouxeram a potência histórica do rock brasileiro ao palco principal. Liderado por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, o trio demonstrou por que ostenta uma das carreiras mais sólidas e respeitadas do país. O entrosamento impecável dos músicos evidenciou décadas de estrada e uma cumplicidade cênica impressionante.

Para tornar a apresentação ainda mais emblemática, os Paralamas contaram com a participação especial da Nação Zumbi. A fusão do balanço ska-rock carioca com o peso do manguebeat pernambucano gerou um encontro histórico de gerações do rock globalizado brasileiro. Hits atemporais foram celebrados por uma plateia emocionada que, em uníssono, acompanhou clássicos que ajudaram a moldar a identidade da nossa música.

Lykke Li: A cantora sueca trouxe seu pop melancólico e intimista para o festival. Com uma atmosfera densa e envolvente, ela embalou a noite com sucessos marcantes de sua carreira indie. Oklou & Samuel de Saboia: Representando as novas tendências mundiais e nacionais, a produtora francesa Oklou apresentou seu pop etéreo e eletrônico inovador, enquanto o multiartista brasileiro Samuel de Saboia abriu os trabalhos do dia com uma performance cheia de identidade.

Cameron Winter: O vocalista da banda Geese comandou o palco do C6 Lab no pós-show, injetando uma dose extra de indie rock experimental para quem queria esticar a noite. Pista Pacubra: Dedicada inteiramente aos DJ sets, a pista ferveu com as apresentações de Jude Paulla e o elogiado formato back-to-back dos brasileiros DJ Nyack, Pathy Dejesus e Eduardo Brechó.

Em um contraste acústico e profundamente poético, o Beirut, projeto liderado pelo talentoso Zach Condon, trouxe sua aclamada fusão de folk e world music ao festival. O som melancólico, preenchido por metais reluzentes, ukulele e arranjos folclóricos do leste europeu, ecoou de forma mágica pelos gramados do Ibirapuera. Foi o momento em que o festival desacelerou para que o público pudesse contemplar a beleza das composições.

A performance de Zach Condon foi marcada por uma entrega vocal íntima, carregada de emoção e nostalgia pelas paisagens do mundo. Músicas marcantes de sua discografia criaram uma atmosfera cinematográfica no festival, transportando os presentes para uma viagem poética sem sair de São Paulo. A sensibilidade do Beirut provou ser o encaixe perfeito para o cair da noite no encerramento do evento.

Além desses quatro grandes expoentes, o último dia do festival ofereceu uma infraestrutura que estimulou a exploração e a conveniência de ponta a ponta. O público pôde desfrutar de lounges de descanso bem distribuídos e uma rica praça de alimentação com opções gastronômicas variadas. Essa organização permitiu que a transição entre os palcos ocorresse de forma orgânica e fluida.

A mistura de públicos foi outro fator notável ao longo do domingo. Fãs veteranos do rock nacional dividiam espaço harmoniosamente com os aficionados pelo indie internacional e pela música eletrônica experimental. Essa comunhão de tribos tão diversas sob o teto da boa música reforçou o posicionamento diferenciado da marca do festival no circuito nacional de eventos.

O show de Robert Plant com o projeto Saving Grace no C6 Fest foi uma aula de elegância, misticismo e inteligência artística. Aos 77 anos, em vez de se escorar na nostalgia fácil ou tentar emular os agudos estridentes dos tempos de ouro do Led Zeppelin, o lendário vocalista adaptou sua voz à maturidade do tempo. O resultado foi uma apresentação contida, intimista e focada no resgate sutil de suas raízes musicais, passeando pelo folk, blues, gospel americano e música celta.

Acompanhado pela fantástica cantora Suzi Dian e um time de multi-instrumentistas impecáveis, Plant transformou o palco em um verdadeiro "arquivo afetivo" acústico. A sonoridade foi ditada por instrumentos como violões de 12 cordas, bandolins, acordeon, banjos e percussão leve. As dinâmicas vocais e as harmonias com Suzi criaram uma atmosfera hipnótica que prendeu a atenção do público do início ao fim.

O grupo desenterrou e reconfigurou canções tradicionais e covers marcantes de artistas como Nora Brown (“The Very Day I'm Gone”), Martha Scanlan (“Higher Rock”) e Gillian Welch (“Orphan Girl”). Para a euforia dos fãs, Plant trouxe releituras completamente repaginadas de sua antiga banda. Canções como “Four Sticks” e “Friends” ganharam arranjos de acordeon e violões, enquanto a mítica “Ramble On” foi celebrada em uma pulsação acústica. A única grande exceção estética foi a catártica “Rock and Roll”, que manteve sua pegada clássica e roqueira para encerrar a noite em clima de celebração total.

À medida que as últimas notas musicais ecoavam pelo Parque Ibirapuera, a sensação geral era de total satisfação e dever cumprido. O público se despediu do espaço com a promessa velada de retornar no ano seguinte, carregando na memória apresentações que certamente figurarão entre as melhores do ano. O festival reafirmou sua maturidade curatorial ao promover encontros tão potentes.

O quarto dia do festival não foi apenas um encerramento, mas a celebração definitiva de uma proposta artística corajosa e necessária. Juntar no mesmo espaço a tradição histórica dos Paralamas, o lado experimental e clássico de Plant, o futurismo pop do Magdalena Bay e o lirismo global do Beirut é um feito que poucos conseguem realizar com tanta maestria. O evento se despediu deixando saudade e um padrão muito alto para suas próximas edições

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