Cinco Décadas de Puro Heavy Metal em São Paulo

Iron Maiden incendeia o Nubank Parque com a histórica turnê Run For Your Lives

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Fotos por Stephen Solon (Move Concerts) - Texto German Martinez

10/31/20266 min read

O domingo, 25 de outubro de 2026, ficou marcado na memória dos fãs de heavy metal como o dia em que São Paulo se transformou na capital mundial do heavy metal. Sob um céu que ameaçava chuva, mas que acabou abrigando uma noite perfeita, milhares de pessoas vestidas de preto lotaram cada canto do recém-renomeado Nubank Parque. O motivo não era para menos: a lendária banda britânica Iron Maiden estava de volta para celebrar seus 50 anos de história com a monumental "Run For Your Lives World Tour".

Os portões do estádio se abriram cedo para acolher um público intergeracional, composto por veteranos que acompanham o grupo desde os anos 1980 e jovens que descobriam ali o poder da Donzela de Ferro ao vivo. A atmosfera nos arredores da Água Branca era de pura eletricidade e confraternização. Desde as primeiras horas da tarde, coros com o nome da banda ecoavam pelas ruas, antecipando o espetáculo visual e sonoro que estava por vir.

Pontualmente às 19h10, a primeira grande atração da noite subiu ao palco para dar início aos trabalhos. O Alter Bridge, renomado grupo norte-americano de hard rock e metal alternativo, aceitou a missão de aquecer a gigantesca plateia paulistana. Liderada pelos vocais potentes e impecáveis de Myles Kennedy e pelos riffs cirúrgicos do virtuoso guitarrista Mark Tremonti, a banda entregou uma apresentação enérgica e extremamente técnica.

Durante o show de abertura, o Alter Bridge passeou por sucessos consolidados de sua discografia, como as catárticas "Metalingus" e "Blackbird". A recepção do público foi calorosa, demonstrando o respeito e a admiração dos fãs de metal pela bagagem musical do quarteto da Flórida. Kennedy, conhecido por sua impressionante extensão vocal, comandou o palco com maestria, fazendo o estádio cantar junto e preparando perfeitamente o terreno para o evento principal.

Após uma breve pausa para os ajustes técnicos e a troca de uma estrutura de palco monumental, os alto-falantes do Nubank Parque começaram a reproduzir a tradicional introdução "Doctor Doctor", clássico do UFO. Foi a senha para que um rugido uníssono tomasse conta das arquibancadas e da pista premium. O público sabia que, dali a instantes, a maior instituição do heavy metal mundial estaria diante de seus olhos para uma noite histórica.

Às 20h50, as luzes se apagaram por completo e o Iron Maiden subiu ao palco debaixo de uma ovação ensurdecedora. O início do show foi uma explosão de energia mecânica e visual, evidenciando que os veteranos continuam em sua melhor forma física e artística. Bruce Dickinson, o lendário vocalista, correu de um lado para o outro do palco desde os primeiros acordes, esbanjando uma presença de palco que desafia o próprio tempo.

A proposta da turnê "Run For Your Lives" é uma verdadeira viagem no tempo, focando exclusivamente no repertório dos nove primeiros álbuns de estúdio da banda. Lançados entre as décadas de 1980 e o início dos anos 1990, esses discos moldaram as diretrizes do metal moderno. Para os fãs, a escolha do setlist foi um presente inestimável, trazendo de volta canções que há muito tempo não ganhavam espaço nas apresentações ao vivo.

As lendárias guitarras harmonizadas de Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers soaram perfeitas e cristalinas em todo o perímetro do estádio. Gers, em particular, protagonizou um show à parte com suas acrobacias com o instrumento e sua performance performática inconfundível. O entrosamento impecável do trio de guitarristas mostra por que o Maiden mantém o status de uma das bandas mais influentes da história da música.

Na retaguarda sonora, o capitão e fundador Steve Harris ditava o ritmo com seu icônico contrabaixo galopante, metralhando notas com a precisão de sempre. Esta passagem pelo Brasil também trouxe uma novidade marcante no coração rítmico do grupo: o baterista Simon Dawson assumiu as baquetas nas apresentações ao vivo, substituindo Nicko McBrain. Dawson, que também toca no projeto paralelo de Harris, o British Lion, entregou uma performance precisa e pesada, honrando o legado das composições originais.

O espetáculo visual foi outro grande destaque que elevou a noite a um patamar cinematográfico. A produção investiu pesado em constantes mudanças de cenários, jogos de luzes tridimensionais e efeitos pirotécnicos que acompanhavam perfeitamente a narrativa épica das músicas. Cada clássico executado vinha acompanhado de um pano de fundo temático diferente, ilustrando as ricas referências históricas e literárias que marcam as letras da banda.

Obviamente, o momento mais aguardado em termos visuais foi a aparição de Eddie the Head, o lendário mascote do Iron Maiden. Ele ganhou vida no palco de forma teatral e imponente, interpretado por um artista em pernas de pau com uma fantasia assustadoramente rica em detalhes. Eddie surgiu em diferentes versões ao longo da apresentação, incluindo sua roupagem clássica e a icônica caracterização militar britânica durante a execução de "The Trooper".

A interação entre o mascote e Bruce Dickinson durante "The Trooper" levou o Nubank Parque ao delírio. Empunhando uma espada cenográfica e duelando com o monstro, Dickinson mostrou por que é considerado um dos maiores frontmen da história do rock. A energia da plateia paulistana respondeu à altura, transformando a pista em um mar de braços erguidos e cabeças balançando em sincronia perfeita com o ritmo galopante da canção.

Outro ponto alto de pura emoção aconteceu quando a bandeira do Brasil foi erguida no palco pelo vocalista. O gesto, tradicional nas passagens da banda pelo país, gerou um clamor patriótico e apaixonado de um público que tem uma das conexões mais intensas do mundo com o Iron Maiden. Bruce fez questão de elogiar a lealdade dos fãs brasileiros, destacando que São Paulo sempre proporciona um dos melhores shows de qualquer turnê mundial.

O repertório seguiu empilhando hinos imortais do heavy metal, como "The Number of the Beast", "Run to the Hills" e "Powerslave". Em cada uma dessas canções, a potência vocal de Dickinson cortava o ar com notas agudas impressionantes, provando que o tratamento de saúde e o passar dos anos não tiraram o brilho de sua voz operística. O público cantou cada estrofe e cada refrão com uma intensidade que podia ser ouvida a quilômetros de distância.

À medida que o show se aproximava do fim, ficava evidente que os 50 anos de carreira do Iron Maiden não representam um cansaço, mas sim a consolidação de um império musical inabalável. A precisão cirúrgica de cada solo e a paixão evidente com que os músicos ainda sobem ao palco provam que eles se divertem tanto quanto os fãs que pagam para assisti-los. É um espetáculo que transcende o próprio nicho do heavy metal.

Após o tradicional bis, que encerrou a noite sob aplausos calorosos, a sensação geral na saída do Nubank Parque era de completo êxtase e satisfação. Os ingressos esgotados há meses se justificaram em cada minuto de uma apresentação impecável, que misturou com perfeição a nostalgia das origens com a modernidade de uma grande produção de arena. São Paulo presenciou uma verdadeira aula de história do rock britânico.

Para a felicidade dos paulistanos, aquele domingo foi apenas o pontapé inicial da mini-temporada da banda na cidade. Devido à altíssima demanda, o Iron Maiden agendou uma apresentação extra no mesmo Nubank Parque, garantindo que mais milhares de fãs pudessem testemunhar a celebração de suas cinco décadas de estrada. Na sequência, a caravana do heavy metal seguiu viagem rumo ao sul do país para encerrar a perna brasileira da turnê.

No balanço final, a noite de 25 de outubro de 2026 provou que o Iron Maiden e seus fãs continuam escrevendo capítulos dourados juntos. O espetáculo no Nubank Parque não foi apenas mais um show em uma agenda lotada, mas sim a reafirmação de que certas lendas nunca envelhecem; elas apenas se tornam mais grandiosas, mais pesadas e mais eternas a cada nova turnê que decidem entregar ao mundo.

Fotos gentilmente cedidas por Stephen Solon (Move Concerts)

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