Dean Wareham e Vapors of Morphine transformam o Cine Joia em uma noite de nostalgia, fumaça e beleza melancólica
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Texto Matias Carsolio Picón - Fotos Bruna Sizilio
6/28/20265 min read


Tivemos uma noite especial no Cine Joia, daquelas que parecem feitas sob medida para quem gosta de música que envelhece bem, sem pressa e sem precisar provar nada pra ninguém.
No sábado, dia 9 de maio, São Paulo recebeu um encontro improvável, mas extremamente coerente: de um lado, Dean Wareham revisitando boa parte do repertório do Galaxie 500, acompanhado de sua parceira de longa data Britta Phillips e Roger Brogan na bateria; do outro, o retorno do Vapors of Morphine, carregando adiante o legado deixado pelo saudoso Mark Sandman, mas mostrando também que a história continua viva e em movimento.




Sem excessos, sem cenografia elaborada e sem grandes discursos, Dean entrou no palco ao lado de Britta Phillips e Roger Brogan e fez exatamente aquilo que precisava ser feito: deixou a música falar.
A abertura já colocou todos no clima, com clássicos do Galaxie 500 surgindo quase como uma névoa sonora ocupando lentamente o Cine Joia. A guitarra limpa e reverberada de Dean parecia flutuar pelo ambiente, enquanto Britta segurava tudo com um baixo econômico, elegante e preciso, daqueles que não precisam chamar atenção para fazer toda a diferença.
Vieram clássicos inevitáveis do Galaxie 500, como “Flowers”, “Blue Thunder”, “Fourth of July”, “Strange” e “Tugboat”, recebidos com emoção por um público claramente entregue ao momento. Também apareceram músicas do Luna, como “Friendly Advice” e “23 Minutes in Brussels”, além de versões que já fazem parte do repertório afetivo de Dean, como “Bonnie & Clyde”, de Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot, e “Listen, The Snow Is Falling”, de Yoko Ono.




Talvez uma das coisas mais bonitas do show tenha sido justamente perceber como aquelas músicas continuam funcionando décadas depois. Não como peça de museu ou exercício de nostalgia, mas como algo vivo, atual e sincero. O encerramento com “Ceremony”, do New Order, caiu como uma luva e deixou aquela sensação de sonho bom, desses que não dá vontade de acordar.




Depois foi a vez do Vapors of Morphine tomar conta do palco e mudar completamente a atmosfera da noite. Se Dean Wareham nos levou para um estado contemplativo e quase onírico, o Vapors trouxe a fumaça, o groove, o jazz torto e aquele clima de bar decadente onde parece ser eternamente madrugada.
Pra quem não conhece a história, vale um pequeno contexto: o Morphine, banda fundada por Mark Sandman no começo dos anos 1990, construiu uma identidade absolutamente única dentro do rock alternativo. Misturando blues, jazz, rock, saxofones hipnóticos e um baixo de duas cordas, criaram uma sonoridade impossível de confundir com qualquer outra coisa.
Após a morte precoce de Sandman, em 1999, parecia difícil imaginar uma continuidade para aquilo. Mas Dana Colley e Jerome Deupree decidiram não deixar esse legado desaparecer e, anos depois, encontraram em Jeremy Lyons alguém capaz de manter a chama acesa sem transformar tudo num exercício de imitação.




E isso talvez seja o que mais chama atenção no Vapors of Morphine: não é uma banda cover do Morphine, nem um tributo preso ao passado. Diferente do show do ano passado, onde o repertório parecia muito mais ancorado nos clássicos do Morphine, desta vez chamou atenção a presença maior de músicas do próprio Vapors of Morphine, mostrando uma banda que já possui identidade própria e não vive apenas da memória do que existiu antes.
Claro que clássicos não faltaram — e ainda bem. “The Saddest Song”, “Honey White”, “Buena”, “I’m Free Now”, “Cure for Pain” e “Souvenir” foram recebidas quase como pequenos hinos de uma platéia que claramente sabia o que estava vivendo ali. Mas havia também espaço para desvios mais experimentais, grooves longos, improvisações e momentos onde a banda parecia mais interessada em expandir sua linguagem do que simplesmente reproduzir versões idênticas do passado.








Dana Colley segue sendo uma figura magnética. Seu saxofone, ora sombrio, ora explosivo, continua sendo praticamente um personagem dentro das músicas. Jeremy Lyons, por sua vez, não tenta ocupar o lugar de Mark Sandman — e talvez justamente por isso funcione tão bem. Sua presença respeita a memória do Morphine sem cair numa caricatura impossível de sustentar.
O som do Vapors continua carregando aquela mistura de sensualidade, melancolia e sujeira elegante que sempre definiu o Morphine, mas agora existe algo a mais ali: maturidade. Uma sensação de continuidade. E talvez essa seja a palavra da noite: continuidade.
Porque tanto Dean Wareham quanto o Vapors of Morphine provaram algo muito bonito no palco do Cine Jóia: certas bandas não envelhecem, elas amadurecem. Continuam encontrando novas formas de existir, revisitando suas histórias sem ficarem aprisionadas nelas.
Saímos do Cine Joia com aquela sensação boa de quem viu algo importante. Não um espetáculo grandioso ou cheio de firulas, mas uma noite sincera, elegante e profundamente musical, daquelas que ficam ecoando na cabeça por dias, como fumaça impregnada na roupa depois de uma madrugada muito bem vivida.

