Do Hardcore ao Power Pop: Redd Kross transforma o Cine Jóia em linha do tempo do rock

Irmãos McDonald desfilam hits oitentistas, raridades e covers de Beatles e KISS em um espetáculo perfeito de peso e melodia

Fotos Raíssa Corrêa - Texto German Martinez

6/28/20266 min read

No dia 26 de junho de 2026, a lendária banda californiana Redd Kross finalmente quitou uma dívida histórica com os fãs brasileiros ao subir no palco do Cine Joia, em São Paulo, para sua primeiríssima apresentação no país. O quarteto liderado pelos irmãos Jeff e Steven McDonald desembarcou na capital paulista em um momento de extrema maturidade artística, celebrando expressivos 45 anos de carreira dedicados ao que há de mais refinado no rock alternativo mundial.

A histórica noite de sexta-feira fez parte de uma junção de comemorações emblemáticas na cena cultural da cidade. O espetáculo integrou a programação especial dos 18 anos do festival de documentários musicais In-Edit Brasil e também celebrou o aniversário de 40 anos da tradicional loja London Calling Discos, um bastião essencial para a resistência e a difusão da música independente e do punk rock no Brasil.

Antes mesmo dos norte-americanos assumirem os instrumentos, a atmosfera do Cine Joia foi devidamente aquecida por duas atrações de peso que dialogam perfeitamente com a proposta sonora da noite. Os Twinpines, jogando em casa, os veteranos da cena indie rock de São Paulo abriram os caminhos celebrando mais de duas décadas de estrada. Formada em 2003, a banda entregou um show enérgico baseado em guitarras distorcidas e forte apelo melódico, preparando o terreno com o legítimo espírito do rock alternativo e independente brasileiro.

AlphaWhores: Vindo diretamente da Cidade do Panamá, o aclamado duo formado por Massiel Pinzón e Juan Carlos Garcia de Paredes fez sua estreia em solo brasileiro. A apresentação foi uma avalanche sonora que misturou grunge, stoner rock e metal alternativo com muito uso de fuzz, destacando as faixas potentes de seu segundo álbum de estúdio, You Can Come Out Now.

O Redd Kross é frequentemente descrito no meio musical como "a banda favorita da sua banda favorita", uma alcunha que reflete sua profunda influência sobre gigantes como Nirvana e Sonic Youth. Formado em 1979 na cidade de Hawthorne por Jeff e Steven — que tinham, respectivamente, apenas 14 e 11 anos de idade —, o grupo ajudou a pavimentar a transição crucial entre o hardcore agressivo e o rock melódico dos anos 90.

O show no Cine Joia provou em cima do palco como a vitalidade do grupo permanece intocada pelas décadas. Ao lado dos irmãos McDonald, a cozinha do grupo ganhou ainda mais peso técnico com o baterista Dale Crover (famoso por seu legado histórico no Melvins) e o guitarrista Jason Shapiro, que entregaram uma performance milimetricamente barulhenta e de extremo bom gosto.

Para a alegria dos nostálgicos e novos ouvintes, o repertório passeou sem pressa por todas as principais fases e discos de estúdio da banda. Canções emblemáticas como "Huge Wonder", "Peach Kelli Pop" e "Stay Away From Downtown" arrastaram os fãs para um misto de riffs pesados e aquelas harmonias açucaradas típicas do power pop, um contraste genial que é a assinatura registrada do Redd Kross.

Um dos momentos mais celebrados pelos presentes foi a execução de faixas de Neurotica (1987), clássico álbum produzido por Tommy Ramone, que logo transportaram o Cine Joia direto para o coração do punk rock oitentista, lembrando a todos o porquê de o Redd Kross ser considerado um patrimônio cult do rock alternativo mundial.

A sinergia entre o palco e a pista da icônica casa de shows na Liberdade foi imediata. Sorrisos largos vinham de todos os cantos, refletindo a felicidade explícita de Steven McDonald ao interagir com o público e o vigor descontraído de Jeff McDonald nas linhas vocais, provando que o espírito irreverente e a molecagem original do rock de garagem não se perderam com o tempo.

A reverência histórica da banda ficou explícita na escolha das reinterpretações. O Redd Kross resgatou "I'll Blow You a Kiss in the Wind" (de Tommy Boyce & Bobby Hart) e a visceral "Crazy World" (cover do Frightwig). Logo em seguida, o Cine Joia veio abaixo com os acordes inconfundíveis de "Lady in the Front Row" e o groove contagiante de "Mess Around", mostrando o equilíbrio perfeito entre o peso alternativo e as melodias açucaradas.

O miolo do setlist funcionou como uma viagem no tempo pela discografia dos anos 80 e 90, destacando faixas adoradas como "Annie's Gone", "Emanuelle Insane" e a clássica "Neurotica" — que contou com uma introdução marcante de solo de bateria do lendário Dale Crover. A banda também homenageou os Beatles com uma versão enérgica de "It Won't Be Long", antes de fechar a primeira parte da noite com a apoteótica transição de "Linda Blair" fundida aos riffs pesados de "I Want You (She's So Heavy)", também do quarteto de Liverpool.

O bis foi um presente dedicado especialmente aos entusiastas das raízes mais punks do grupo. O Redd Kross retornou ao palco disparando uma sequência matadora de seis músicas do seu início de carreira sob o nome de Red Cross. Relíquias do hardcore californiano como "Annette's Got the Hits", "Clorox Girls" e "I Hate My School" transformaram a pista em uma grande e nostálgica roda punk.

Para encerrar a noite histórica com chave de ouro e celebrar a cultura pop que os moldou, os californianos escolheram dois covers emblemáticos de arenas. Eles entregaram uma versão pesadíssima de "Crazy Horses" (dos The Osmonds) e finalizaram o espetáculo de lavagem de alma com o clássico do hard rock "Deuce", do KISS.

A sinergia entre o palco e a pista da icônica casa de shows na Liberdade foi imediata. Sorrisos largos vinham de todos os cantos, refletindo a felicidade explícita de Steven McDonald ao interagir com o público e o vigor descontraído de Jeff McDonald nas linhas vocais, provando que o espírito irreverente e a molecagem original do rock de garagem não se perderam com o tempo.

A vinda da banda paulista teve um gosto ainda mais especial devido a uma frustração do passado, já que o Redd Kross quase se apresentou no Brasil em 1994, uma turnê que acabou cancelada na época. A espera de mais de 30 anos foi compensada com uma apresentação enérgica e antológica, lavando a alma de uma plateia fiel que esperou gerações por esse encontro.

Para além do show, a vinda do grupo a São Paulo teve um caráter imersivo único. Na véspera da apresentação, a Cinemateca Brasileira exibiu o aclamado documentário "Born Innocent: The Redd Kross Story", contando com a participação presencial dos irmãos McDonald para um rico debate com o público sobre os bastidores, as crises e os triunfos dessas quase cinco décadas na estrada.

Ao final do espetáculo, a sensação geral era de transcendência pop. O público deixou o Cine Joia enriquecido por uma demonstração rara de como o rock alternativo pode envelhecer com vitalidade técnica e urgência emocional, sem se apoiar apenas em discursos melancólicos de nostalgia, mas sim na mais pura celebração da energia presente.

A estreia tardia do Redd Kross em São Paulo entrou imediatamente para a lista de shows históricos do circuito alternativo brasileiro em 2026. Entre guitarras distorcidas, refrãos cativantes e uma entrega visceral, os californianos assinaram um espetáculo inesquecível, provando que o verdadeiro rock 'n' roll é atemporal e imune ao desgaste do tempo.

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