Fishbone: o "quase" estrelato de uma das bandas mais seminais da Califórnia

De volta ao Brasil, banda celebra seu mais recente disco lançado no ano passado, e seus mais de 46 anos de atividades

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German Martinez

5/28/20268 min read

Durante anos a supremacia branca se espalhava pelos quatro cantos dos Estados Unidos da América, mesmo depois de organizações como os Panteras Negras ou a luta pelos direitos civis de Martin Luther King Jr., o país sempre foi um barril de pólvora principalmente racial. E obviamente muitas respostas foram dadas atrás de movimentos sociais ou de bandas que escancaravam a realidade nebulosa dos norte-americanos, seja ela racial, social ou das mazelas comportamentais vividas na época.

Se outrora tínhamos bandas como o Death, que demonstrava o lado centro-oeste, vindos de Detroit (Michigan), na própria capital Washington DC, na costa leste, havia a representatividade do Bad Brains, ali então se viu bandas formadas majoritariamente formadas por negros. E mais exatamente na escaldante e efusiva Los Angeles, foi ali no final dos anos 70, que 2 irmãos, os garotos Fisher, Norwood e Phillip, iam pro colégio que tentava integrar estudantes negros em bairros predominantemente brancos das mais distintas classes sociais.

A brincadeira de ter uma banda era comandada pelos irmãos Fisher, na casa dos pais, sob a tutela da mãe que curtia que os meninos se divertissem na residência, logo que ficou sabendo que os garotos Fisher tinham montado uma banda, Moore ficava enviando papéis em sala de aula pra ver se entrava pro time também, e foi assim que chegaram á sua primeira e clássica formação com: John Norwood Fisher (baixo), Philip Fisher (bateria), Chris Dowd (teclados, voz, trombone), Walter Kibby (trumpete e backing vocals), Kendall Jones (guitarra) todos de South Central, localizado no sul de Los Angeles, e o único do Valle San Fernando, ao noroeste de LA, e um dos poucos negros do seu bairro, o menino sorridente Angelo Moore, que foi o último a completar o sexteto. Um garoto de classe média que tinha o potencial de ser um possível vocalista, a banda em si trilhou pelo caminho do punk, mas pra eles aquilo não bastava, e como nos EUA haviam muitos combos que iam adicionando sonoridades, o Fishbone também foi por esse trajeto. O grupo foi intensificando sua "cara" e mostrando seu show enérgico pra toda Califórnia.

Mesmo tendo nascido no final da década de 70, a banda só conseguiu gravar em meados dos anos 80, um EP, que já impactava pelo instinto que o grupo despejava ali, a mescla de Ska, Jazz, Reggae e até Rock Progressivo que apimentavam o caldeirão de influências da banda.

A invasão californiana era a cargo de bandas como Black Flag, Circle Jerks, Agent Orange, Redd Kross e uma das metas da banda era tocar com todo mundo e em qualquer lugar, no começo era uma bagunça generalizada musicalmente até que cada um foi achando seu lugar dentro do grupo. A banda tocava por todo buraco e o público era predominante de brancos, mas eles queriam alcançar todos, sem objeções.

O contrato pro primeiro disco aconteceria ainda no período escolar, mas a Columbia queria um material que antecedesse o álbum, então o grupo foi pro estúdio e registrou o EP homônimo, que continha 6 faixas, dentre elas o maior destaque, Party At Ground Zero, seguida de Ugly e Modern Industry, um belo começo pra uma banda com 6 anos de estrada.

A cena local aguardava pelo seu debut, em 1986 saiu In Your Face, e trouxe uma banda performática, com vários sons que entrariam pra história da banda, When You Problems Arise, foi o primeiro estopim, o lado Hardcore não era esquecido com "Simon Says" The Kingpin, ou a cômica Post Cold War Politics.

Truth And Soul, é o segundo disco e deixa a banda cada vez mais perto do que queriam atingir musicalmente, músicas como Ma And Pa, a doida Subliminal Fascism, deixando bem claro a mensagem política que buscavam transmitir,

Bonin' In The Boneyard, com o baixo alucinante de Norwood por toda canção, em nenhum momento eles abandonaram as raízes da música negra, e fizeram uma versão incrível de Freddie's Dead do magnífico Superfly de Curtis Mayfield, o que muito espantaria aos desavisados pois o Red Hot Chilli Peppers faria uma versão de Stevie Wonder, um ano depois da faixa Higher Ground, no álbum Mother's Milk pra servir de gratidão ao Soul/Funk norte-americano. Mas ainda faltava algo.

A primeira banda que descobriu o potencial dos shows, foram os nova iorquinos dos Beastie Boys, que após o lançamento do aclamado Licensed To lll, convocou os californianos pra um giro pelos EUA, em 1987.

Muitos bebiam dessa fonte, foi o caso do Red Hot Chilli Peppers, que na época do Blood Sex Sugar Magik levou a banda pra uma extensa turnê nos EUA. A banda serviu de referência pra bandas como Primus, onde Les Claypool sempre declarou seu amor pelo grupo, assim como Perry Farrell que não só gostava, como os convidou pro Lollapalooza no começo dos anos 90. O que seria do Faith No More sem sua influência do Fishbone principalmente pela performance de Chuck Mosley, vide os primeiros clipes da época de Anne's Song e We Care A Lot.

É inegável a influência da banda em grupos como Suicidal Tendencies ou Infectous Grooves, que por obra do destino o próprio mago das guitarras "Crossover" Rocky George, tocaria na banda anos depois.

O ano de 1991 abre com talvez sua obra prima, The Reality Of Surroundings, os incríveis vocais de Moore e Crowd, davam o pontapé inicial pra pérolas como Fight The Youth, um som mais truncado, até mais sério, soando por muitas vezes parecido com os nova-iorquinos do Living Colour, sem deixar de incluir todos os instrumentos necessários, mas um pouco mais longe da irreverência dos dois primeiros discos. O material já contaria com a presença de John Bigham, um segundo guitarrista, enquanto Kendall Jones ia além com sua guitarra, criando frases em cima do vocal flutuante de Moore, o som ficou mais potente, mas nem por isso deixou de ter momentos mais ensolarados como em Everyday Sunshine. Those Days Are Gone, uma das maiores canções do espólio da banda, teve seu lugar cativo neste terceiro disco, o álbum fechava com a magnífica Sunless Saturday, que de quebra teve um videoclipe produzido por ninguém menos que Spike Lee. Mas o que aconteceu ali? A banda não despontou, não virou sucesso imediato nem nada do tipo, o disco era um petardo sonoro e ninguém tinha dúvidas, contudo a nave não decolou.

O Fishbone bebia da fonte de coisas como Parliament/Funkadelic, Sly And Family Stone, o ska, o reggae, misturando tudo isso, o grupo foi convocado pra participar de um pequeno festival que teria o rapper LL Cool J como headliner, promovendo seu show intenso, eles roubaram literalmente a cena e receberam elogios não só do público como da imprensa, o que provocou que muitos presentes fossem embora do festival após o show do Fishbone deixando o LL como segundo plano.

A fase criativa não tinha fechado seu ciclo, e dois anos depois eles vieram com Give A Monkey Brain And He'll Swear He's The Center, ecos de grunge, já que falávamos de 1993, mas sem abandonar o peso, o disco tinha pelo menos 4 pedradas como: Swim que flerta facilmente com o Alice In Chains, Servitude, Black Flowers e Unyielding Conditioning, que remetia aos primeiros anos da banda com sua fusão de vários estilos.

A MTV sempre foi um caso á parte, ela alavancava muito as bandas em ascendência, e não foi diferente com o Fishbone, a banda se preocupou com os registros audiovisuais desde sempre, amostras que ficam nítidas em vídeos como When You Problems Arise, Ma And Pa, Servitude, Swim.

No meio dessa trajetória, Kendall Jones foi o primeiro a ter problemas pessoais, após a morte de sua mãe, e por anos afastado de seu pai, que o havia abandonado quando criança, ele se reencontrou com o próprio que lhe garantiu que estar envolvido no rock era do "Diabo", ele por ser líder de uma seita, fez com que Kendall se aproximasse da religião do pai, se tornando um fanático, como os seus parceiros de banda achavam que era uma lavagem cerebral, eles "raptaram" Kendall num furgão pra tentar impedir que ele fosse a sede da seita de seu pai, mas tudo virou do avesso, pois Kendall conseguiu fugir e os acusou criminalmente por sequestro, exigindo uma indenização aos envolvidos, como eles não tinham dinheiro pra pagar os custos dos advogados de defesa, membros do Alice In Chains, Tool e Primus fizeram shows pra arrecadação dos valores que seriam gastos, mas frente ao juiz, Kendall demonstrou um desequilíbrio psicológico, e fortemente induzido pelo espectro religioso de seu pai, e foi determinado que buscasse ajuda profissional, já os 3 acusados, o irmão, a namorada e Norwood, foram absolvidos. Pouco tempo depois quem abandonou o barco foi Chris Dowd, que muito tempo depois alegou que era um conflito de ego, já que Moore era o grande centro das atrações e ele se sentia incomodado com a situação desfavorável.

Após Give A Monkey, a banda lançou mais alguns álbuns, mas nunca mais cativaram o público e crítica, as coisas foram sendo atropeladas e não havia mais o mesmo entusiasmo do passado, e consequentemente a áurea inicial foi se esvaecendo trabalho após trabalho. O ano de 1998 marcou a saída de Phillip Fisher, que daria continuidade a sua carreira agora como baterista contratado, tendo trabalhado com artistas como: Rihanna, Snoop Dogg, Taylor Swift, entre outros.

Em 2010 num show na Filadélfia, Moore pulou do palco num stage dive (fato corriqueiro desde os anos 80) pra platéia, e acabou atingindo uma garota, da qual fraturou o crânio e a clavícula, a mesma processou a banda e o juiz decidiu que o grupo e Moore deveriam pagar uma indenização em torno de 1,5 milhão de dólares. Mesmo com tudo isso Moore nunca pulou do barco, e mediante sua insistência a banda sobrevive até hoje, a banda não deixou de excursionar ao lado de figuras como Madness, Tool, e Primus, passando também vários festivais ao redor do mundo.

Num período ainda de pandemia ainda sob o pesadelo da COVID 19, o Museum Of Culture Pop (MoPop), prestou uma homenagem ao Alice In Chains, dentre os convidados Duff McKagan, Mastodon, Billy Corgan, Dave Navarro e o Fishbone. A formação original (com a presença de Kendall Jones) voltou a se reunir novamente desde 1993, pra uma versão incrível de Them Bones, que foi uma das mais elogiadas do tributo e uma esperança de vê-los todos reunidos novamente, mas não vingou.

Agora eles trabalham na divulgação do disco Stockholm Syndrome, lançado em 2025, que tem participação do mestre George Clinton na faixa Last Call In America, e tem faixas totalmente a cara do Fishbone como Secret Police e Racist Piece Of Shit. A formação atual conta com Angelo Moore aka MaddVibe (voz e saxofone), Chris Dowd (teclados, trombone e vozes), James Jones (baixo), Hassan Hurd (bateria), John S Williams (trompete e vocais), e Tracey "Spacey T" Singleton (guitarra).

O show ocorre no sábado, 31/10, no Fabrique Club, na Rua Barra Funda, 1071, Barra Funda, São Paulo e tem produção da Maraty e Powerline.

Ingressos disponíveis

https://fastix.com.br/events/fishbone-em-sao-paulo

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