Godspeed You! Black Emperor: um manifesto social e musical
Combo canadense faz sua estréia em terras brasileiras em 2 datas em São Paulo
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German Martinez
8/11/20265 min read


O tal do "post rock" nunca mais seria o mesmo sem o surgimento do Godspeed You! Black Emperor, formado em Montreal/Quebec no Canadá, por Efrim Manuel Menuck, que logo se tornou um trio com a inclusão de Michael "Mike" Moya (guitarra) e Mauro Pezzente (baixo), e gradativamente foram adicionando mais integrantes, chegando à uma formação de 9 pessoas, mas já se apresentaram com 20 pessoas no palco.
Inspirado no filme God Speed You! Black Emperor, de 1976, do diretor Mitsuo Yanagimachi, que conta a história da gangue de motociclistas, os "Bōsōzoku", o documentário retratava a vida dos Imperadores Negros (Black Emperors), tal obra pavimentou a idéia dos canadenses. Mas se a estrutura é de um grupo de rock, a banda não deixa incorporar elementos mais clássicos como se inspirar em obras de Steve Reich e Enio Morricone, figuras célebres de trilhas sonoras e que trazem uma certa complexidade em seus arranjos rebuscados. O cinema sempre foi parte fundamental pro GY!BE servindo como uma das maiores inspirações do grupo.
Em 1995 eles registraram uma fita K7 intitulada All Lights Fucked On The Hairy Amp Drooling, com apenas 33 cópias fabricadas, eles logo chamaram a atenção do cenário local. O primeiro disco viria em 1997, F#a#, ♾️. Um disco completamente atemporal, pesado, atmosférico, abriu as portas pra trajetória da banda. O tema central do disco é o apocalipse, no disco, introduções, ruidos, e uma viagem megalomaniaca, mas muito além do apocalipse, eles abordam as mazelas sociais vividas em Vancouver, como em East Hantings, que praticamente se tornou uma Cracolândia, ou The Sad Mafioso, uma das melhores canções da banda, que acabou culminando com sua inclusão no filme 28 Days Later (Extermínio no Brasil), dirigido por Danny Boyle, ou a transcendental The Providence. O disco se tornou pedra fundamental do post rock.
O disco foi lançado em vinil, e um ano mais tarde recebeu uma versão extendida em Cd, no formato de disco as cópias receberam um tratamento artesanal diferenciado. O título fazia conotação as notas musicais " Fá sustenido, Lá sustenido, infinito"

Nesta época o cenário via bandas como Explosions In The Sky, Sigur Rós, Mogwai, se somarem e ascenderem no estilo citado. Em 1999, eles lançaram o EP Slow Riot For New Zero Kanada. Mas foi em 2000, que o GY!BE, catapultou o nicho onde estava com o lançamento do álbum Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven, desde sua capa emblemática, o disco se destaca pelas 4 faixas, que carregava um ar mais esperançoso um tom diferente dos trabalhos anteriores. O álbum foi considerado um dos melhores discos do ano para crítica especializada, e o grupo percorreu Europa e Estados Unidos, com shows lotados por várias cidades.
Mais uma crítica ao imperialismo norte-americano, Yankee U.X.O, fala sobre o poder bélico dos Estados Unidos. A capa do disco já expõe de maneira literal o escopo que a banda procurava atingir com o trabalho. A banda foi até Chicago gravar com o mago Steve Albini e trouxe de lá um petardo na discografia do grupo, considerado pela própria banda como um disco cru e furioso.
Em 2003 a banda entrou num hiato duradouro que chegou até 2010, nesse intervalo alguns integrantes se focaram com outros projetos como: Fly Pan Am, Set Fire To Flames, Thee Silver Mt Zion Memorial Orchestra, entre outros.
Dois anos depois, em 2012 o grupo soltou o álbum Alllelujah Don't Bend! Ascend!, que contava com faixas inéditas desde 2002, um trabalho provocativo, ousado e mesclando minimalismo com paredes sonoras contemplativas, formando cenas na sua cabeça com música como pano de fundo. Contendo 2 faixas longas e 2 drones que foram gravados de forma separada, o registro celebra a volta discográfica da banda em alta rotação, seguindo sua temática de trilha sonora pro bem ou pro mal.

O GY!BE consegue ser muitas vezes doce e suave, mas também dramático e apocalíptico, já que muitas canções beiram à momentos caóticos. As apresentações costumam ser compostas por exibições de filmes em 16 mm com trechos que criam contexto com as canções executadas, trazendo uma maior imersão pra sonoridade praticada pelo grupo.
Após a recepção do Alllelujah, o grupo se concentrou um bom período pra trabalhar no que seria seu próximo disco de estúdio, um álbum conciso, dilacerante e um dos mais importantes desde sua reunião, o Asunder, Sweet And Other Distress.
Após Asunder..., veio Luciferian Towers é um disco altamente politizado que retrata o momento atual em que foi lançado, em 2017, um recado a várias instituições e governos, já que tínhamos faixas como: Bosses Hang, Anthem For No State, Undoing Luciferian Towers, divididas em várias partes.
Mas é um disco mais "complexo", seguindo uma outra métrica de trabalhos anteriores, mas que não perde o selo de autenticidade do grupo.
O álbum sucessor já é intrigante desde seu título, Go_s' Pee At State's End, as composições nasceram nas turnês, já que a banda vinha fazendo várias turnês após a volta em 2010, chegando a fazer 18 meses de excursão. Gravado na pandemia, em plena COVID-19, o grupo se muniu de uma possível esperança pra um mundo pós-apocalíptico, mas tinha a total certeza de que os governos estavam massacrando tudo e todos de forma unilateral.

Vale destacar também que a banda lança tudo de forma independente, e se preocupa com a arte, com a inserção de textos, pôsteres. Ao vivo, o grupo sempre apoiou a iniciativa de que os fãs filmassem/gravassem os shows pra divulgação, os shows têm em média 2 horas de duração, onde a banda executa por volta de 9 à 10 canções, a concentração é maxima, com alguns dos músicos tocando sentados, a formação ao vivo é composta por 3 guitarras, baixo, cello, violino, bateria.
O grupo nunca se tornou extremamente público, dando pouquíssimas entrevistas ao longo de sua trajetória, não fazendo fotos promocionais, e muito menos os próprios integrantes com redes sociais atuantes. Declaradamente anarquistas, em 2024, eles lançaram o disco No Title As Of 13 February 2024 28,340 Dead. Abordando o terror declarado vivido na Palestina, o contexto do título se trata do número de vítimas dos conflitos em Gaza até o momento em que o material foi lançado, uma tradução literal do posicionamento político do grupo.
O GY!BE decidiu retirar sua discografia da plataforma Spotify, como protesto aos abusos comerciais de seu proprietário. O Bandcamp acabou se tornando seu maior aliado, trazendo sua vasta discografia pra audição em sua plataforma nos últimos anos.
Após 32 anos do seu pontapé inicial, os canadenses desembarcam pela primeira vez no Brasil, o grupo toca no dia 23/11 segunda-feira na Audio Club com ingressos esgotados, e repete a dose no dia seguinte 24/11, com ingressos já disponíveis.

A produção é da Balaclava Records
Godspeed You! Black Emperor
23/11 & 24/11
Audio Club
Av. Francisco Matarazzo, 694
Água Branca
São Paulo - SP


Ingressos disponíveis:

