Graveyard: intensidade e entrega

Os suecos retornaram ao Brasil, e fizeram do Hangar 110 seu lar pelo menos por uma noite

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Fotos Raíssa Corrêa - Texto German Martinez

5/11/20266 min read

Se tem uma coisa que a gente gosta, é o rock sueco, em suas mais variadas vertentes, e no caso do Graveyard que evidencia cada vez mais o lado setentista da coisa, cada vez mais vai ganhando mais adeptos, não á toa, a banda lançou em 2023, pela Nuclear Blast Records, seu sexto de álbum da carreira, que muitos podem torcer o nariz, mas é um excelente disco, e que faz jus a discos como Hisingen Blues e Peace, ou o debut.

Vindos pra uma maratona sul-americana, onde passaram por Argentina, Chile, e fechariam com o Brasil, o Graveyard foi azeitando sucessivamente as engrenagens deste blues ácido, vintage ou ora psicodélico que a banda despeja no palco, a vibe da estrada corrobora uma trajetória tão frutífera da banda, e passar por 4 cidades pelo Brasil, lhes gera ainda mais uma notoriedade no estilo, e vem cravando seu nome no cenário mundial há um punhado de anos

A Space Grease, novamente abrindo pra uma banda de peso, assim como havia sido cerca de 10 dias atrás, junto do Lucifer, o quarteto paulistano ficou encarregado de assumir a responsabilidade de aquecer o público que timidamente chegava ao Hangar 110. Prestes a lançar um novo álbum, A Kind Of Mess, a banda apresentou seu potente som.

Mais engrenados do que show anterior, e sempre muito inspirados, a banda já vem se acostumando com seu novo repertório, do vindouro disco, e que evoca o seu lado mais psicodélico possível, pitadas de rock progressivo, pitadas de stoner, e a voz viajante de Ju Ramirez, fazem do Space Grease um dos destaques da cena paulistana dos últimos tempos.

O show foi gradativamente ganhando cada vez mais consistência, até que todos já estavam mais soltos em cima do palco, após 2, 3 canções, e já preparando os ouvidos dos presentes pro novo álbum.

E o quê dizer do Bike? Cada performance que vemos da banda é uma experiência transcendental, o som da banda é um processo de hipnose que confunde em que ponto do show você se está, se é o começo, o meio ou o fim.

Formados por Julio Cavalcante, Diego Xavier, Daniel Fumega, e Gil Mosolino, a banda segue sua saga psicodélica inaugurada no magistral 1943, de 2015, que assim junto dos seus discos sucessores lhes rendeu frutos tanto no Brasil quanto no exterior, podendo distribuir seus discos lá fora e a oportunidade de tocar nos mais diversos festivais.

A sinergia entre os integrantes é absurda, e traz pro palco, um dos melhores shows em território nacional, sendo que isso não é nenhuma novidade, já que a banda tem excursionado muito no exterior.

Assim como no passado, o Bike também tocou no Festival Buena Onda, ao lado do Space Grease, e tantas outras bandas, que justamente tinha o Graveyard como headliner, então desta vez a banda foi convocada pra tocar no "braço" sul-americano da turnê. Enquanto Gil aplica suas linhas de baixo, os lados opostos criam nuances hipnóticas de guitarra, acrescentadas de efeitos á cargo de Diego, e a presença atmosférica dos vocais de Julio, aliados aos movimentos frenéticos de Daniel, que mesmo com espaço reduzido pro seu kit, fez uma performance e tanto. Um belo show e acerto da noite!

E vamos lá pra 2019, a primeira vez que o Graveyard veio ao Brasil, naquela oportunidade a banda divulgava o belíssimo Peace, e a banda viu de perto o Fabrique abarrotado de gente pra conferir os caras no palco, ano passado a própria Xaninho, que já era responsável pela estréia no Brasil, os trouxe de volta desta vez pro Festival Buena Onda, com várias bandas brasileiras e com os canadenses do Danko Jones a tiracolo, a performance foi no Vip Station, e foi uma grande prova que mesmo pós pandemia o som do Graveyard ainda ecoava nos headphones dos fãs. Agora, em sua terceira passagem pelo Brasil, a banda se apega à uma de suas melhores fases, na nossa opinião, uma banda que construiu um carreira sólida com uma discografia ímpar, com 6 álbuns totalmente recomendáveis e shows avassaladores.

Sábado, 09 de maio de 2026, terceiro show da turnê brasileira, Hangar 110, uma noite mais fria nesta temporada de outono, e os suecos subiriam ao palco pra fechar com chave de ouro a noite que já vinha engrenada. Sem sequer uma projeção no palco, sem bandeira, de forma crua, a banda abriu os trabalhos logo de cara com a pedrada Please Don't, do álbum Peace, e os caras não precisam dizer uma vírgula, Joakim Nilsson (guitarra/vocais), Trüls Morck (baixo/vocais), Oskar Bergenheim (bateria), Jonatan Ramm (guitarra), que juntos formam uma espécie de quarteto fantástico do cenário sueco, a banda funciona de uma forma que muitas sequer conseguem ser tão concisas como o Graveyard, entre as bases firmes de Jonatan, as palhetadas de Joakim, e o baixo preciso de Truls, Oskar deliberadamente fica à vontade pra usufruir do seu belíssimo kit de bateria, um tanto quanto minimalista.

Um setlist muito mais do que assertivo que celebrou canções como a inebriante Cold Love, No Good Mr Holden, a belíssima Breathe In Breathe Out, que Joakim faz lembrar Nick Cave com sua voz rouca e um timbre totalmente sombrio.

Entre alguns agradecimentos ao público, a banda descia a lenha sem dó nenhuma, era hora das porradas como From A Hole In The Wall, cantada por Trüls, como um carro prestes a despencar de um precipício, Walk On, talvez a melhor faixa do Peace, foi altamente celebrada, causando vários coros da plateia, algo como: "Ole, Ole, Ole, Graveyard", a banda respondia á altura com uma descarga enérgica em formato musical em cima do palco com Ain't Fit No Live Here.

O Graveyard é áspero e minucioso, o blues lisérgico predomina em canções intravenosas como Rampant Fields e Bird Of Paradise. Joakim é o cara que soa a camisa como um camisa 10 do seu time favorito, a cada som, ele não entrega o meio de campo, ele corre, marca, cabeceia e chama o time pro jogo como An Industry Of Murder, emendada cirurgicamente como um bisturi, com a música que lhes gerou popularidade no mundo todo, Hisingen Blues.

Discreta mas potente, Goliath marcou presença pelo baixo incrível de Morck. Uma quase ode ao Pink Floyd, do jeito Graveyard de ser, eles fecharam o setlist com a magistral e emocionante Uncomfortably Numb, uma aula de como deve se entregar um show, e o Graveyard sabe fazer isso com o pé nas costas. Mas não, não havia acabado, como um belíssimo ás de espadas pra trucar o jogo, eles haviam separado 5 canções, sim 5 pérolas pro aclamado bis.

Twice, trouxe o novo disco novamente à tona, seguida de Evil Ways, petardo do primeiro disco, o lado emocional em Hard Times Lovin, voltaram a se envenenar com a bombástica Satan's Finest e The Siren, espetacular como sempre e a música mais fundamental pra fechamento do show da banda, o Graveyard aqui no Brasil ele já é tricampeão, a banda entrega muito além do que se imagina, e é sempre um deleite do que se pode esperar deles no palco, que voltem sempre, estamos dispostos a encontrá-los.