High on Fire no Brasil: Uma Aula de Peso, Distorção e Energia Implacável

Liderado pelo lendário Matt Pike, o trio norte-americano justificou o status de gigante do metal underground em apresentação histórica

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Fotos por Flávio Santiago - Texto German Martinez

10/12/20265 min read

No último domingo, dia 4 de outubro de 2026, os fãs brasileiros de heavy metal testemunharam um momento histórico na capital paulista. Pela primeira vez em quase três décadas de estrada, a lendária banda norte-americana de stoner e sludge metal, High on Fire, desembarcou no Brasil para uma apresentação única. O palco escolhido para essa catarse sonora foi a casa de shows Burning House, localizada no bairro da Água Branca, que abriu as portas a partir das 18h para receber um público sedento por distorção e peso.

A expectativa que cercava a noite era monumental, já que o trio de Oakland, formado em 1998 pelo icônico guitarrista e vocalista Matt Pike (também conhecido por seu trabalho com o Sleep), nunca havia tocado em solo brasileiro. A turnê pela América Latina, organizada pela Solid Music e Caveira Velha Produções, teve paradas estratégicas em países como México, Costa Rica, Chile e Argentina, culminando na noite paulistana.

Sem perder tempo com firulas, e pontualmente, o High on Fire subiu ao palco descarregando uma avalanche sonora de 80 minutos de pura brutalidade. A abertura do setlist ficou por conta da avassaladora “Burning Down”, faixa do elogiado e mais recente álbum de estúdio da banda, Cometh the storm (2024), produzido pelo renomado Kurt Ballou, guitarrista do Converge. Logo nos primeiros acordes, ficou evidente que a fusão de riffs massivos de doom com a velocidade agressiva do thrash metal e do sludge ditaria o ritmo de uma noite caótica.

A postura magnética e crua dos integrantes no palco dispensava longos discursos ou interações forçadas com a platéia. O mentor Matt Pike mantinha sua clássica imagem ao vivo — completamente suado, tocando sem camisa e cuspindo no chão entre uma estrofe e outra —, enquanto o baixista Jeff Matz exibia sua precisão técnica impecável, segurando as linhas graves com maestria. Completando o trio, o baterista Ben Koller, amigo de Matt e baterista do Converge, espancava a bateria sem dó, garantindo que o impacto físico de cada batida fosse sentido diretamente no peito dos espectadores.

Hung, Drawn And Quartered foi um dos petardos da noite, e já demonstraria o poder que a banda tinha em mãos. Se o início do show já mantinha a temperatura elevada, foi durante a execução do clássico "Rumors of War", do aclamado disco Death Is This Communion (2007), que o verdadeiro caos se instalou na pista da Burning House. O público, que até então assistia animado, transformou o local em uma arena de mosh pits. A violência "amigável" das rodas fez com que celulares voassem, enquanto os mais corajosos arriscavam stage dives.

Um dos momentos mais curiosos e descontraídos da apresentação aconteceu logo após a execução de “10,000 Years”, música cujo encerramento puramente instrumental permitiu que Matt Pike e Jeff Matz viajassem em camadas densas de distorção. Ao final da faixa, em uma tentativa de brincadeira entre os músicos, o baterista Ben Koller acabou arremessando acidentalmente uma de suas baquetas direto na platéia, bem na lateral do palco.

O repertório do trio foi cirúrgico e passeou por diferentes momentos marcantes de sua trajetória vitoriosa, incluindo faixas obrigatórias como "Fertile Green", "Fireface", "Sol's Golden Curse".

"Fury Whip", do álbum de Death Is Communion também foi das mais insanas da noite, com o grupo entregando de forma explosiva a canção. Não sei se podemos dizer se o High On Fire tem um hit, mas certamente a destruidora "Snakes for the Divine", seria considerada como tal. O som absurdamente alto e pesado da banda, que evoca diretamente o espírito rústico e acelerado do Motörhead, funcionou perfeitamente na acústica da casa. Para muitos ali presentes, a experiência de ouvir os riffs cortantes de Pike ao vivo confirmava por que a banda garantiu um prêmio Grammy de Melhor Performance de Metal em 2019.

A reta final do espetáculo coincidiu de forma curiosa com o cenário político local, já que o show foi realizado exatamente no domingo de eleições no país. O detalhe visual marcante ficou por conta de Matt Pike, que utilizou uma chamativa guitarra customizada nas cores verde e amarela para executar as últimas notas da noite. A coincidência estética arrancou sorrisos e comentários da plateia, que estava exausta, mas completamente extasiada com a entrega física da banda em cima do palco.

Para fechar a histórica noite com chave de ouro, o High on Fire escolheu a densa e arrastada “Darker Fleece”, faixa que também encerra o último álbum da banda. Embora mantenha o peso esmagador característico do grupo, a música carrega uma atmosfera ligeiramente mais cadenciada e sombria, servindo como uma trilha sonora perfeita para acalmar os ânimos. Foi o desfecho ideal de um massacre sonoro que lavou a alma dos fãs de longa data.

Quando as luzes finalmente se acenderam, o cenário na Burning House era de destruição e contentamento, com camisas rasgadas, óculos tortos e corpos exaustos. A estreia tardia do High on Fire no Brasil fez valer cada segundo de espera das últimas décadas, consolidando-se imediatamente como um forte candidato a melhor e mais brutal show de metal do ano no país. Aqueles que estiveram presentes deixaram o local com a certeza de terem testemunhado uma apresentação lendária e irrepetível.

Fotos gentilmente cedidas por Flavio Santiago (https://onstage.mus.br/website/)

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