Kneecap: caos, rave, rimas afiadas e manifesto político antifascista

O trio norte-irlandês faz história em sua estreia no Brasil

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Fotos por Raíssa Corrêa - Texto German Martinez

10/31/20266 min read

O ano de 2026 testemunhou grandes apresentações internacionais em solo brasileiro, mas poucas noites entregaram uma carga de energia e relevância cultural tão avassaladora quanto a estreia do Kneecap no Brasil. O badalado trio norte-irlandês de hip-hop e punk-rave transformou a tradicional casa de shows Cine Joia, em São Paulo, em um verdadeiro caldeirão de contestação social, atitude anárquica e batidas eletrônicas pesadas. Diante de uma plateia completamente hipnotizada, o grupo consolidou aquela noite de sexta-feira como um dos melhores e mais memoráveis shows do ano no país.

A abertura dos caminhos ficou sob a responsabilidade do artista paulistano Thalin. Transitando com naturalidade entre o rap experimental, as artes cênicas e a cultura urbana, ele soube exatamente como preparar o público para a insanidade que viria a seguir. Com rimas carregadas de vivência contemporânea, o MC aqueceu a pista com sua sonoridade urbana.

Quando Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí finalmente subiram ao palco, ao som de Favourite dos conterrâneos do Fontaines DC, sob os gritos ensandecidos da plateia, ficou claro que aquela não seria uma apresentação comum de rap. Vestindo sua icônica balaclava com as cores da bandeira irlandesa, o DJ deu a largada disparando batidas industriais que pareciam tremer as estruturas do antigo cinema da Liberdade. A fusão única de hip-hop moderno com a estética agressiva das raves europeias estabeleceu uma atmosfera elétrica logo nos primeiros segundos da performance.

O grande diferencial do Kneecap reside na escolha de rimar quase que inteiramente em gaélico, a língua nativa da Irlanda que por séculos foi reprimida pelo colonialismo britânico. Ouvir a platéia tentando acompanhar refrões cantados em um idioma tão distante geograficamente provou a força universal de sua música. A barreira linguística simplesmente desapareceu sob o peso de canções do aclamado disco recente FENIAN, lançado em maio de 2026, e de clássicos de sua discografia.

Durante a apresentação, o momento de maior conexão emocional e delírio coletivo com o público brasileiro envolveu diretamente a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em meio à catarse das músicas, projeções e gritos de apoio ecoaram pelo Cine Joia celebrando a importância do líder político para o atual cenário democrático do Brasil. Os integrantes do trio não hesitaram em abraçar o sentimento da casa, erguendo os braços em sintonia com a militância e o alívio democrático expressados pela plateia.

O ativismo político da banda não se limitou ao apoio doméstico e rapidamente expandiu suas fronteiras para críticas contundentes contra o fascismo global. Um dos alvos mais explícitos do discurso furioso dos rappers foi o ex-presidente norte-americano Donald Trump. As rimas ácidas e as falas entre as músicas criticaram duramente a extrema-direita global e as políticas imperialistas representadas pela figura do magnata dos Estados Unidos.

A agressividade lírica do grupo encontrou outro alvo prioritário nas ações do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. O Kneecap usou o microfone do Cine Joia para condenar com veemência os ataques na Faixa de Gaza, defendendo de forma aberta a causa e a libertação do povo palestino. Em entrevistas e no próprio palco, eles explicaram que irlandeses e palestinos compartilham de um histórico brutal de opressão pelas mesmas potências coloniais.

Nem mesmo a política interna da América do Sul escapou do radar afiado e contestador do trio de Belfast. O presidente da Argentina, Javier Milei, foi vaiado durante o show paulista devido às suas controversas medidas de austeridade econômica e sua agenda ultraliberal. Para um grupo criado no cerne da classe trabalhadora de Belfast, atacar figuras como Milei faz parte do dever artístico de usar a música como ferramenta de denúncia social.

A bombástica e histórica parada em São Paulo marcou o encerramento com chave de ouro de uma intensa e bem-sucedida turnê do grupo pela América Latina. Antes de incendiar o palco em solo brasileiro, os norte-irlandeses cruzaram outros territórios latino-americanos espalhando suas mensagens anárquicas. A passagem por países vizinhos pavimentou o caminho para a consagração final que o público brasileiro reservava para eles.

Nos países vizinhos da América Latina, o grupo de hip-hop encontrou realidades sociais que dialogam profundamente com as feridas históricas de sua própria terra natal. A recepção calorosa que tiveram em cidades andinas e platinas demonstrou que a revolta juvenil e a sede de justiça social são as mesmas em qualquer canto do planeta. O Kneecap soube absorver essa energia continental antes de desembarcar em terras brasileiras.

O repertório do show trouxe petardos sonoros impressionantes como as celebradas faixas 'Sick in the Head', 'Éire go Deo' e a polêmica 'Get Your Brits Out'. Cada uma dessas músicas funcionou como um manifesto sonoro, unindo rimas rápidas a graves distorcidos que faziam o Cine Joia pular em uníssono. O público respondeu abrindo imensas rodas de mosh no centro da pista, simulando a energia caótica dos festivais europeus.

Um dos momentos mais brilhantes da noite foi a execução da parceria da banda com Grian Chatten, vocalista do aclamado grupo de pós-punk Fontaines D.C.. A canção "Better Way To Live" trouxe uma camada extra de melancolia e urgência ao espetáculo, unindo duas das maiores forças da música contemporânea da ilha da Irlanda.

A performance de palco de Mo Chara e Móglaí Bap é um espetáculo à parte pela entrega física absoluta. Os rappers correm de um lado para o outro, sobem nos retornos e interagem de forma agressiva, porém carinhosa, com os fãs. O suor misturado às luzes vermelhas e estroboscópicas do palco criou uma estética visual impactante, digna da cinebiografia premiada que o trio estrelou no Festival de Sundance.

O DJ Próvaí, operando seus equipamentos por trás de sua indefectível máscara, atuou como o maestro regente desse caos organizado. Suas transições rápidas mantiveram o ritmo do show no talo durante pouco mais de uma hora de apresentação ininterrupta. Não havia tempo para respirar ou se recuperar entre uma rima em gaélico e um drop de techno-rave.

Para os críticos musicais e fãs presentes, a importância do show transcendeu o mero entretenimento e alcançou o status de evento histórico. Em um período global marcado por fortes polarizações, ver um grupo estrangeiro cantar sobre descolonização e direitos humanos de forma tão crua e honesta foi profundamente revigorante. O Kneecap provou que o rap de mensagem continua vivo, perigoso e incrivelmente dançante.

À medida que o show se aproximava do final, a sensação de que estávamos presenciando uma das melhores apresentações de 2026 só se confirmava a cada acorde. A exaustão física do público era evidente, mas o sorriso no rosto de cada pessoa na pista denunciava o estado de catarse coletiva. O Cine Joia testemunhou uma noite de celebração artística que dificilmente será esquecida por quem esteve lá.

A produtora Balaclava Records marcou um golaço histórico ao apostar no ineditismo e trazer o trio para o Brasil no auge de sua relevância criativa e política. Trazer artistas com esse perfil vanguardista oxigena o circuito de shows internacionais no país e desafia o público a consumir manifestações artísticas fora do óbvio comercial. O sucesso de bilheteria e de crítica abre portas para que mais nomes do hip-hop alternativo global visitem a América do Sul.

Quando as luzes finalmente se acenderam e o trio se despediu sob aplausos ensurdecedores, ficou a certeza de que a primeira passagem do Kneecap pelo Brasil foi histórica. Eles vieram de Belfast armados apenas com suas rimas gaélicas, batidas eletrônicas e suas convicções políticas inabaláveis, e saíram consagrados como heróis de uma noite inesquecível. O hip-hop irlandês fincou sua bandeira em São Paulo com um dos shows mais viscerais, barulhentos e necessários do ano.

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