Kneecap: o hip hop rompendo fronteiras

Trio de Belfast estréia no país em outubro

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German Martinez

9/2/20268 min read

Para coroar o ano mais importante de sua trajetória, o Kneecap trará sua turnê incendiária à América do Sul. O trio confirmou sua primeira apresentação histórica no Brasil para o dia 23 de outubro de 2026, em São Paulo.

O show único acontecerá no Cine Jóia, sob a realização da produtora independente Balaclava Records. Os ingressos já estão disponíveis para venda oficial na plataforma Ingresse, prometendo trazer o caos organizado, a fúria política e as batidas eletrônicas de Belfast diretamente para o público paulistano.

Kneecap é um dos fenômenos mais viscerais, provocativos e necessários da música contemporânea. Misturando a agressividade do punk com a batida do hip-hop e da cultura rave, o trio de Belfast transformou rimas ácidas em um poderoso ato de resistência política e de revitalização linguística.

O grupo surgiu em 2017, em West Belfast, na Irlanda do Norte, formado pelos rappers Mo Chara, Móglaí Bap e pelo enigmático DJ Próvaí (que se apresenta usando uma balaclava com as cores da bandeira irlandesa). A dinâmica da banda nasceu de forma quase acidental em um contexto de ativismo de rua e da necessidade de tradução de termos para a preservação do idioma local.

O grande diferencial do Kneecap é a escolha cirúrgica de rimar predominantemente em irlandês (gaélico), misturado ao inglês das ruas. Suas letras são um espelho caótico e satírico da juventude pós-Conflito Norte-Irlandês (The Troubles): ao mesmo tempo em que cospem manifestos ferozes contra o imperialismo britânico e a favor da unificação da Irlanda, eles rimam abertamente sobre o uso de drogas (como cocaína e cetamina), festas hedonistas e deboche contra a polícia. Essa mistura de "escória autoproclamada" com intelectuais da língua nativa chocou conservadores, mas gerou identificação imediata. O próprio nome da banda faz referência irônica ao kneecapping (tiro no joelho), uma punição violenta historicamente aplicada por paramilitares na região.

A estreia oficial veio em 2017 com o single underground "C.E.A.R.T.A." (palavra irlandesa para "Direitos"). Em 2018, lançaram a mixtape de estreia 3CAG, que sedimentou o status de cult do trio. Em 2024, veio o aclamado primeiro álbum de estúdio cheio, Fine Art, que os colocou no radar das grandes paradas internacionais.

Os shows do Kneecap são conhecidos por serem verdadeiros cultos de energia punk-rave. O trio já incendiou palcos gigantescos como os dos festivais Glastonbury e Coachella. Nessas apresentações, a banda frequentemente causa furor: no Coachella, por exemplo, tiveram a transmissão cortada ao puxarem gritos de "Free Palestine", e em Glastonbury transformaram a tenda em um mar de bandeiras palestinas, batendo de frente com as tentativas de boicote e censura da grande mídia.

O tom altamente político e o deboche do grupo os levaram diretamente aos tribunais. A banda enfrentou fortes brigas judiciais com o governo britânico, notavelmente quando o Ministério da Cultura do Reino Unido bloqueou ilegalmente uma verba de fomento artístico que havia sido destinada a eles, alegando que suas letras "promoviam o republicanismo radical".

Mais recentemente, o rapper Mo Chara chegou a ser acusado formalmente de "terrorismo" pelas autoridades britânicas por ter levantado uma bandeira do Hezbollah. A acusação caiu por terra por falta de sustentação pouco antes de sua apresentação histórica em Glastonbury, fazendo com que ele subisse ao palco celebrando o fato de ser "um homem livre" sob os olhares irritados do establishment.

Em 2024, a história do grupo ganhou as telas de cinema com o filme homônimo Kneecap (No Brasil, referenciado como Kneecap - Música e Liberdade). Dirigido por Rich Peppiatt, o longa-metragem é uma comédia dramática biográfica e semi-fictícia onde os próprios integrantes interpretam a si mesmos, dividindo a tela com grandes nomes como o indicado ao Oscar, Michael Fassbender.

O filme fez história ao se tornar a primeira produção em língua irlandesa a estrear no prestigiado Sundance Film Festival, onde venceu o prêmio do público (NEXT Audience Award). O sucesso foi tão estrondoso que a Irish Film & Television Academy (IFTA) escolheu oficialmente Kneecap para representar a Irlanda no Oscar de 2025 na categoria de Melhor Filme Internacional, alcançando a concorrida shortlist dos 10 finalistas da premiação. O longa também faturou 7 prêmios no British Independent Film Awards (BIFA).

O filme transformou o Kneecap de heróis locais do underground de Belfast em embaixadores globais da nova contracultura celta. Políticos unionistas e alas mais conservadoras do Reino Unido repudiaram o longa, classificando-o como uma "glorificação da violência paramilitar, do republicanismo radical e do comportamento antissocial" devido às piadas constantes com drogas pesadas (como a cetamina) e fortes provocações antibritânicas.

Consolidados como gigantes da música de protesto moderna, o Kneecap lançou em 1º de maio de 2026 o seu aguardado segundo álbum de estúdio, intitulado FENIAN. O termo Fenian carrega um peso histórico gigantesco, sendo usado historicamente para designar os nacionalistas irlandeses revolucionários (e frequentemente usado como insulto sectário por unionistas pró-Reino Unido).

Produzido pelo lendário Dan Carey (conhecido por trabalhos com Fontaines D.C. e Wet Leg), o disco expande brutalmente as texturas sonoras do grupo, passeando pelo acid house, trip-hop, dubstep e hip-hop industrial. Recebido pela crítica especializada como uma "obra-prima de fúria necessária", FENIAN traz faixas poderosas como "Smugglers & Scholars", "Liars Tale" e colaborações de peso com artistas como Kae Tempest e Radie Peat. O álbum estreou em 1º lugar na Irlanda e em 2º lugar na parada geral do Reino Unido.

O álbum conta com 14 faixas que expandem as fronteiras do punk rap em direção à música eletrônica de pista (como acid house, post-punk e techno).

Dentro do repertório do novo disco, algumas faixas se destacam, como no caso de: "Liars Tale": escolhida como o single principal de anúncio do disco, sintetiza a resposta ácida do grupo às acusações de "terrorismo" e às tentativas de censura que sofreram do governo britânico no ano anterior. É agressiva e moldada por batidas industriais.

"Smugglers & Scholars": Uma das faixas mais aclamadas pela crítica, ela equilibra perfeitamente as rimas velozes em gaélico com uma produção de peso assinada por Dan Carey, misturando a energia das raves com o espírito das ruas de Belfast.

"FENIAN" (feat. Casiokids): A faixa-título carrega o nome do álbum e conta com a participação do grupo norueguês Casiokids. É uma explosão eletrônica provocativa que resgata o termo histórico e revolucionário irlandês como um hino de orgulho.

Cocaine Hill" (feat. Radie Peat): Faixa que une o hip-hop eletrônico do Kneecap aos vocais assombrados de Radie Peat (vocalista da renomada banda de folk experimental irlandês Lankum). Uma mistura potente que gerou grande impacto entre os fãs.

"Palestine" (feat. Fawzi): Reflexo direto do forte ativismo geopolítico do trio nos palcos mundiais, a música carimba a solidariedade da banda com a causa palestina.

Já "Irish Goodbye" (feat. Kae Tempest): Uma das colaborações mais artísticas e profundas do álbum. A parceria com a lenda do spoken word britânico Kae Tempest traz uma atmosfera mais escura, densa e cinematográfica ao disco. Esta faixa carrega uma história extremamente dolorosa e pessoal para o grupo, dividida em dois momentos marcantes: Antes do trágico acontecimento, Móglaí Bap (nome real Naoise Ó Cairealláin) estava escrevendo uma música dedicada às mães do grupo, chamada simplesmente de "MAM". Na época, sua mãe, Aoife Ní Riain (uma conhecida ativista da língua irlandesa e musicista tradicional), enfrentava uma depressão severa.

Bap revelou que a intenção da música era fazer com que ela a ouvisse e pudesse enxergar o seu próprio valor em meio à doença. Infelizmente, Aoife tirou a própria vida em 2020, antes que a faixa ficasse totalmente pronta. O grupo lançou "MAM" logo em seguida, revertendo os lucros para a Samaritans, uma instituição de caridade focada na prevenção do suicídio. Seis anos após o luto e com o amadurecimento do grupo, Móglaí Bap decidiu revisitar essa perda dolorosa no álbum com a canção Irish Goodbye. A expressão "Irish goodbye" (despedida à irlandesa) é usada popularmente para o ato de ir embora de uma festa de fininho, sem avisar ninguém.

O rapper ressignificou o termo para descrever a dor brutal, súbita e o tipo específico de luto deixado por alguém que morre por suicídio. Conduzida por um piano melancólico e pela poesia densa de Kae Tempest, a letra relembra momentos cotidianos e felizes de Bap com sua mãe, servindo como uma forma de processar a culpa e a raiva. De forma muito madura, a música busca acolher quem ficou, sem guardar rancor de quem partiu. O lançamento da música veio acompanhado de um emocionante filme musical de 13 minutos dirigido por Thomas James, focado nos rituais de funeral, na perda e na superação do estigma em torno da saúde mental na Irlanda, apagamento de línguas nativas colonizadas.

Por obra do destino ou mera coincidência, o cartaz da turnê latino-americana tem o presidente atual dos Estados Unidos da América se debatendo, enquanto o trio sobrevoa num avião todo o globo terrestre, num formato de "charge".

A opinião do Kneecap sobre Donald Trump é de total repúdio, oposição e crítica feroz. Sendo um grupo com fortes raízes na esquerda anti-imperialista e socialista, o trio enxerga o líder político americano como uma das maiores representações contemporâneas do colonialismo, da opressão e da agressão geopolítica global.

O posicionamento contundente da banda contra Trump manifestou-se em vários momentos de alta visibilidade internacional, em setembro de 2025, durante um show histórico e lotado na Wembley Arena, em Londres, o Kneecap usou o telão do palco para projetar um manifesto direto contra a visita oficial de Trump ao Reino Unido. No letreiro, o grupo lia: “Hoje Trump está aqui, o homem que permite a matança”, uma crítica explícita ao apoio financeiro e militar dado pelos Estados Unidos a ofensivas em zonas de conflito global, especialmente na Faixa de Gaza.

No meio da apresentação, Mo Chara disparou ao microfone para a multidão: “O Donald Trump está na prra da Inglaterra? Pelo amor de Deus!”*, emendando com gritos de deboche direcionados a ele e ao primeiro-ministro britânico Keir Starmer.

Em março de 2026, os integrantes do Kneecap viajaram pessoalmente para Cuba ao lado de ativistas humanitários. Em entrevista concedida ao canal britânico Channel 4 News diretamente da ilha, os rappers condenaram o embargo econômico e o bloqueio de combustível mantidos pela gestão de Trump, afirmando que a retórica e as sanções do político não visam a "liberdade", mas servem apenas para causar "fome e sofrimento a mulheres, crianças e pessoas comuns de Cuba" em nome do imperialismo norte-americano, traçando paralelos com as intervenções no Irã e na Venezuela.

O grupo também não poupa os próprios políticos irlandeses que aceitam dialogar com a extrema-direita dos EUA. Quando o atual primeiro-ministro da Irlanda (Taoiseach) planejou uma visita à Casa Branca para se encontrar com o presidente, o rapper Mo Chara declarou abertamente à imprensa europeia que o governante deveria se sentir "absolutamente envergonhado como um irlandês por apertar a mão de senhores da guerra".

Para o Kneecap, Trump representa exatamente o tipo de política de opressão contra a qual eles lutam, e denunciá-lo em palcos e turnês pelo mundo faz parte do que chamam de "preencher o vazio de verdade que os políticos tradicionais deixam para trás".

O grupo desembarca no Brasil em outubro pra despejar toda essa sagacidade das letras e batidas num show único no país.

Serviço:

Balaclava Records apresenta: KNEECAP em São Paulo

Data: 23 de outubro de 2026, sexta-feira

Local: Cine Joia

Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade

Horários: 20h Portas / 21h KNEECAP

Classificação etária: 16+ / menores de 16 anos acompanhados dos pais ou responsável legal

Ingressos: https://ingresse.com/kneecap-sp

Ponto de venda físico (sem taxa de conveniência):

Takkø Café

R. Maj. Sertório, 553 - Vila Buarque - São Paulo/SP

Horários: Terça à Sexta, das 8h às 17h / Sáb, dom e feriados, das 9h às 18h.

Mais informações: https://www.instagram.com/takkocafesp

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