Melancolia, suor e distorção: El Mató conquista São Paulo (novamente).

Da cena independente de La Plata ao palco do Cine Joia, o quinteto argentino reafirma por que é a voz de uma geração

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Fotos por Flavio Santiago - Texto German Martinez

10/12/20268 min read

A apresentação da banda argentina Él Mató a un Policía Motorizado no tradicional palco do Cine Joia, em São Paulo, consolidou-se como um marco memorável para os órfãos do indie rock latino-americano em solo brasileiro. O local, conhecido por sua acústica particular e atmosfera intimista de antigo cinema de rua, serviu de moldura ideal para a catarse sonora promovida pelo quinteto de La Plata. Diante de uma plateia calorosa e completamente esgotada, o grupo destilou um repertório potente que atravessou diferentes fases de sua icônica trajetória musical.

O show começou com uma atmosfera de expectativa quase palpável, que logo se transformou em vibração pura assim que os primeiros acordes ecoaram pela antiga sala de cinema. O vocalista e baixista Santiago Motorizado, com sua presença de palco magnética e ao mesmo tempo humilde, conduziu o público por uma viagem hipnótica de distorções de guitarra e melodias nostálgicas. A sintonia entre a banda e os fãs brasileiros ficou evidente desde os primeiros minutos, quebrando qualquer barreira idiomática por meio da linguagem universal do rock.

Los Otros, o trio paulistano de indie/garage rock formado há apenas 3 anos atrás por Isabella Menin (baixo e voz), Tom Motta (guitarra e voz) e Vinicius Czaplinski (bateria) foram os responsáveis por abrir o show dos argentinos em São Paulo. Num dia efervescente onde a Avenida Paulista foi tomada de vermelho, graças à um ato pela nova candidatura do presidente Luiz Inácio "Lula" da Silva, a banda que puxou coro do nome do presidente e também participou do ato, se posicionou firmemente em meio ás suas canções que viajavam do rock básico à influência de bandas como Mutantes, Los Twists. Tocaram faixas como Rockzinho Básico e Rotina, que encerrou o set.

Ao longo da noite, o Él Mató intercalou clássicos de álbuns fundamentais com faixas de seus trabalhos mais recentes, mostrando uma impressionante evolução técnica e de composição. Músicas que misturam o noise rock com o pop lo-fi foram recebidas com coros uníssonos, transformando a pista do Cine Joia em uma verdadeira celebração coletiva. A parede de som construída pelas guitarras de Doctora Muerte e Pantro Puto envolveu o espaço, criando uma experiência imersiva e sensorial única para todos os presentes.

O som do banda é frequentemente denominado por sua fusão de referências internacionais como Pixies, Sonic Youth e Weezer. No entanto, a verdadeira alma da banda reside em como eles digeriram e reconfiguraram a rica linhagem do rock nacional argentino. Embora tenham surgido como uma reação estética ao rock de arena tradicional de seu país, o DNA da música argentina, a sensibilidade poética de Santiago Motorizado bebe diretamente das fontes dos dois maiores pilares do rock argentino. A capacidade de traduzir crises sociais ou dores individuais em metáforas cotidianas, mas profundas, remete ao lirismo sofisticado e à melancolia que consagraram álbuns históricos de Spinetta e as crônicas urbanas de Charly García.

O Formato de Hino do Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota: O fenômeno cultural conhecido na Argentina como "Los Redondos" moldou a ideia de comunhão entre banda e público. O Él Mató herdou deles a estrutura de canções que começam sutis e explodem em refrões catárticos feitos sob medida para serem cantados por multidões com os braços levantados — algo visível na devoção dos fãs e nas apresentações ao vivo. A Canção Popular de Los Auténticos Decadentes e Andrés Calamaro.

Apesar das guitarras barulhentas do início da carreira, o Él Mató sempre manteve um compromisso inabalável com a melodia pop e a estrutura da "canção perfeita" portenha. O próprio Santiago Motorizado já colaborou com Jorge Serrano (líder do Los Auténticos Decadentes) e cita o faro melódico de Andrés Calamaro como uma escola essencial para criar refrões que grudam na mente, uma transição que ficou ainda mais nítida na sonoridade limpa de La Síntesis O'Konor e nos sintetizadores de Súper Terror.

No show músicas como "El Tesoro" e "Más o Menos Bien" transformaram a pista do antigo cinema em um coral gigante. A entrega do público paulistano impressionou o próprio Santiago Motorizado. Ele frequentemente afastava o microfone para ouvir a plateia liderar os refrões. As faixas do elogiado disco Súper Terror foram recebidas com os braços abertos. O público mostrou que já tinha decorado canções recentes como "Diamante Roto" e "Tantas Cosas Buenas", pulando e dançando no ritmo mais oitenta e sintetizado que essas faixas trazem.

Durante canções mais intensas como "Amigo Piedra" ou "Sábado" , formaram-se pequenas rodas de pogo e muito enérgicas. O público pulou junto e lavou a alma.

O ápice da apresentação se deu nos momentos em que as canções de tom mais melancólico e existencialista ganharam o reforço das vozes do público paulistano. Essa capacidade de gerar uma identificação imediata, mesmo em quem não domina o espanhol, é um dos maiores trunfos da banda em suas incursões internacionais. O Cine Joia, com seu formato que aproxima o artista dos espectadores, potencializou essa troca de energia sutil, transformando o concerto em um ritual íntimo e inesquecível.

Para além do sucesso dessa noite específica em São Paulo, o Él Mató a un Policía Motorizado carrega consigo o peso e a honra de ser uma das instituições mais importantes do rock argentino contemporâneo. Nascida no início dos anos 2000 na cidade universitária de La Plata, a banda surgiu em um momento de profunda crise econômica e social na Argentina. Diante de um cenário desolador, o grupo ajudou a redefinir a estética do rock local, afastando-se do tradicional "rock nacional" para abraçar a ética do faça-você-mesmo. Tanto que quando a iluminação ficava vermelha o público gritava "Lula", Santiago embarcou na situação crítica do nosso país e fez referência a décima terceira faixa do repertório, arrancando aplausos e mais gritos da platéia.

A importância da banda no cenário argentino reside, primordialmente, no fato de terem sido os pioneiros de uma verdadeira revolução estética e de mercado na música independente. Eles abriram as portas para toda uma nova geração de artistas que perceberam que era possível criar música de alta qualidade fora do circuito das grandes gravadoras. O selo independente Laptra, capitaneado por eles, tornou-se um farol de criatividade e resistência cultural na província de Buenos Aires e em todo o país.

A sonoridade da banda, que bebe diretamente de fontes como Pixies, Sonic Youth e Guided by Voices, foi nacionalizada e ganhou uma identidade puramente argentina através de letras poéticas e confessionais. Suas composições falam sobre amizade, o fim do mundo, amores platônicos e a melancolia do cotidiano de uma forma que ressoa profundamente na juventude de seu país. Essa honestidade brutal e sem artifícios transformou suas canções em hinos geracionais para os jovens que buscavam novas formas de expressão.

O lançamento do álbum "La Dinastía Scorpio" e, posteriormente, do aclamado "La Síntese O'Konor" marcou a transição da banda do status de segredo cult para o de gigantes da música latino-americana. Esses trabalhos redefiniram o som do indie argentino, trazendo arranjos mais limpos e uma maturidade lírica que influenciou dezenas de novas bandas de Ushuaia a La Quiaca. O Él Mató provou que o rock de guitarras ainda tinha muito a dizer em um ecossistema musical cada vez mais dominado por ritmos urbanos e eletrônicos.

Na Argentina, o grupo preencheu um vazio deixado por grandes lendas do rock que haviam se aposentado ou saído de cena, tornando-se a referência máxima de autenticidade para o público. Eles conseguiram a proeza de manter sua postura independente e fiel às suas raízes enquanto lotavam estádios e teatros de prestígio em Buenos Aires. Essa integridade artística rendeu à banda o respeito unânime de críticos musicais, de músicos veteranos e de uma base de fãs extremamente leal.

O impacto deles também se estende à descentralização da cena cultural argentina, historicamente muito concentrada na capital Federal. Sendo orgulhosamente de La Plata, o Él Mató colocou sua cidade natal no mapa definitivo da música pop e do rock internacional, inspirando movimentos similares em outras províncias. Essa valorização da própria identidade regional fortaleceu o tecido cultural do país, gerando um sentimento de orgulho e pertencimento na nova safra de músicos independentes.

Portanto, quando o Él Mató sobe ao palco de um local como o Cine Joia, ele não está apenas entregando um show de rock competente; está exportando um pedaço vivo da história cultural recente da Argentina. A energia descarregada em São Paulo é o reflexo de décadas de estrada, de resistência cultural e de um compromisso inabalável com a sua arte. O público brasileiro capta essa bagagem histórica na intensidade de cada acorde e na entrega física dos músicos no palco.

A recepção calorosa que o grupo encontra no Brasil também sinaliza um momento importante de maior integração cultural e musical dentro da América Latina. Historicamente distantes devido à barreira do idioma, os públicos de Brasil e Argentina encontram no Él Mató uma ponte sólida de conexão emocional e estética. Ver a plateia paulistana cantar em espanhol no Cine Joia é a prova cabal de que a banda alcançou um patamar superior de relevância artística transfronteiriça.

Ao final do espetáculo, o sentimento geral entre os presentes era de ter testemunhado um evento histórico, daqueles que permanecem na memória por muitos anos. O suor na pista, os sorrisos e os aplausos prolongados foram o agradecimento justo a uma banda que entrega sua alma em cada acorde. O Él Mató reafirmou que sua relevância não é passageira e que o seu som continua a ecoar com força total, seja em Buenos Aires ou no coração de São Paulo.

Em suma, a passagem do Él Mató a un Policía Motorizado pelo Cine Joia foi mais do que uma excelente apresentação de indie rock; foi a consagração de um gigante da música latina. Sua trajetória na Argentina transformou o panorama musical de seu país natal, e sua capacidade de lotar casas de shows no exterior prova que sua mensagem é atemporal e universal. Eles permanecem como os heróis improváveis de uma geração, provando que a distorção e a poesia ainda são ferramentas poderosas para unir os povos.

Fotos gentilmente cedidas por Flavio Santiago (https://onstage.mus.br/website/)

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