Melvins: A banda mais pesada e influente que você (talvez) nunca ouviu
Da garagem em Washington ao festival Levitation em São Paulo, a trajetória da banda que ensinou o rock alternativo a ser pesado de verdade.
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German Martinez
10/19/20269 min read


Formada em 1983 na pacata cidade de Montesano, Washington, a banda Melvins surge como uma das forças mais disruptivas, prolíficas e influentes da história do rock alternativo mundial. Liderada pelo carismático guitarrista e vocalista Buzz Osborne (King Buzzo) e pelo cirúrgico baterista Dale Crover, a banda fincou suas raízes quebrando todas as regras vigentes do punk e do metal. Eles desaceleraram o ritmo frenético do hardcore da época, introduzindo afinações pesadas e uma estética agressivamente arrastada.
Esse som pioneiro acabou se tornando a fundação essencial de gêneros inteiros, como o sludge metal e o grunge. Sem o Melvins, o panorama musical dos anos 1990 que consagrou Seattle para o planeta simplesmente não teria existido da forma como conhecemos. Grandes ícones daquela geração, especialmente Kurt Cobain e os membros do Soundgarden e Mudhoney, apontavam o trio de Montesano como seus maiores heróis. A banda construiu uma reputação inabalável de ética de trabalho severa e desdém absoluto pelas armadilhas do estrelato comercial.
O marco inicial da discografia cheia de experimentos da banda ocorreu com o lançamento do álbum de estreia, Gluey Porch Treatments, em 1987. Este trabalho pioneiro capturou a transição exata onde o peso opressor encontrava a crudeza do punk rock de garagem. As faixas curtas, mas assustadoramente lentas e arrastadas, ditaram as primeiras regras do que viria a ser batizado anos mais tarde pela mídia especializada como sludge metal.
A relevância de Gluey Porch Treatments reside justamente na sua total falta de polimento comercial e no estranhamento que causou à época. King Buzzo despejava riffs rústicos enquanto a cozinha rítmica quebrava as estruturas convencionais de tempo. O disco se tornou um manual secreto e altamente disputado por jovens músicos da região noroeste dos Estados Unidos, que buscavam alternativas ao glam metal reinante nas rádios.
Em 1989, a banda deu um passo definitivo em direção à sua consolidação artística com o visceral Ozma. Gravado após a mudança do grupo para a Califórnia e contando com Lori Black (Lorax) no baixo, o álbum refinou a agressividade caótica do início da carreira. O som apresentou-se ainda mais denso, claustrofóbico e focado em estruturas matemáticas bizarras que desafiavam o ouvinte a cada quebra de andamento.
Ozma é amplamente reverenciado por fundir a urgência do punk com o peso monolítico herdado de bandas pioneiras como o Black Sabbath. Canções curtas e cortantes dividiam espaço com texturas experimentais de puro ruído sonoro. Esse registro fonográfico sedimentou o Melvins como uma entidade totalmente imprevisível, incapaz de se render a fórmulas radiofônicas ou exigências de mercado.
Com a chegada de Bullhead em 1991, os Melvins alcançaram um novo patamar de imponência e sofisticação dentro do circuito alternativo. Este trabalho é frequentemente lembrado por apresentar composições mais longas, hipnóticas e dotadas de uma atmosfera incrivelmente arrastada. Foi nele que o público encontrou clássicos eternos do catálogo da banda, como a icônica e esmagadora faixa de abertura "Boris".
O impacto cultural de Bullhead foi tão profundo que bandas inteiras ao redor do mundo nasceram inspiradas puramente pela atmosfera desacelerada deste registro. Os riffs de guitarra ganharam uma sustentação quase física, influenciando diretamente o surgimento do movimento stoner rock e do drone metal. O álbum provou que o peso real não dependia de velocidade, mas sim da tensão e do espaço deixado entre as notas.

Fechando a era dourada do início da carreira, o álbum Lysol (posteriormente autointitulado) foi lançado em 1992 como uma obra de arte conceitual. O disco desafiou as convenções da indústria ao ser concebido originalmente como uma única e contínua peça musical sem divisões. Nele, as fronteiras entre o rock pesado tradicional e o minimalismo experimental foram completamente borradas de forma genial.
As texturas rústicas presentes em Lysol mostram o Melvins em seu estado mais espiritual e ceremonial, abusando de reverberações e batidas tribais. O álbum traz versões pesadíssimas de artistas como Flipper e Alice Cooper, demonstrando o vasto repertório cultural de Osborne e Crover. Este trabalho encerrou com chave de ouro o ciclo underground da banda antes de sua inesperada ida para uma grande gravadora.
A relevância histórica e os discos fundamentais do Melvins ganharam uma nova dimensão quando a banda assinou com a gigante Atlantic Records. Foi sob esse teto corporativo que nasceu o clássico incontestável Houdini, em 1993, considerado até hoje o álbum mais famoso do grupo. O trabalho contou com a colaboração mítica de Kurt Cobain, que atuou na produção de algumas faixas e tocou percussão adicional.
Houdini conseguiu equilibrar o peso mastodôntico característico da banda com ganchos melódicos ligeiramente mais acessíveis, gerando hinos do rock alternativo como "Honey Bucket". Na sequência desse sucesso, os álbuns Stoner Witch (1994) e Stag (1996) expandiram ainda mais as experimentações sonoras do grupo. Essa trilogia na gravadora major provou que era perfeitamente possível manter a integridade artística intacta mesmo estando no epicentro da indústria fonográfica.
A verdadeira importância do Melvins no cenário musical vai muito além dos números de vendas ou posições em paradas da Billboard. Eles agiram como os verdadeiros mentores intelectuais de toda a explosão do rock alternativo dos anos 90. Sem o pioneirismo estético de King Buzzo e a técnica revolucionária de Dale Crover, o som de bandas consagradas jamais teria encontrado a sua identidade sombria.
Músicos de vertentes que vão do grunge ao heavy metal extremo frequentemente citam os Melvins como uma influência primordial em suas vidas. A postura inflexível da banda em relação à sua arte ensinou gerações inteiras sobre autossuficiência e liberdade criativa. Eles demonstraram que o sucesso de um artista reside na longevidade e no respeito mútuo com sua base de fãs fiéis.

Lançado em 10 de outubro de 2006 pela gravadora Ipecac Recordings, o álbum (A) Senile Animal é amplamente celebrado como um dos maiores clássicos modernos e verdadeiros marcos de reinvenção na trajetória do Melvins. Gravado após a saída conturbada do baixista Kevin Rutmanis, o trabalho marcou uma mudança radical na estrutura do grupo: em vez de simplesmente recrutar um novo músico, King Buzzo e Dale Crover decidiram fundir a banda com o duo de rock progressivo Big Business, composto por Jared Warren (baixo) e Coady Willis (bateria). Essa fusão audaciosa deu vida a uma configuração monstruosa de duas baterias tocando simultaneamente, gerando uma parede sonora incrivelmente brutal, precisa e repleta de groove que revitalizou a identidade estética do quarteto.
Aclamado pela crítica especializada da Pitchfork como o registro mais forte e direto da banda desde os anos 90, o álbum equilibra com maestria o peso mastodôntico do sludge metal clássico com arranjos vocais intrincados e ganchos surpreendentemente acessíveis. As composições deixaram um pouco de lado o ruído abstrato e focaram em dinâmicas rítmicas colossais e refrões marcantes. O grande destaque do repertório fica por conta da sinistra e esmagadora faixa "A History of Bad Men", sustentada por uma das linhas de baixo mais icônicas, sombrias e reverenciadas da história do rock alternativo. (A) Senile Animal não apenas reconquistou a base de fãs antigos, mas foi o combustível principal que embalou a histórica turnê que trouxe a banda pela primeira vez ao Brasil em 2008.
Após anos de espera e uma expectativa gigantesca por parte dos fãs sul-americanos, o Melvins finalmente desembarcou no Brasil em setembro de 2008. O histórico show de estreia aconteceu na cidade de São Paulo, integrando a programação do festival Orloff Five. O grupo trouxe para o palco uma configuração revolucionária que deixou a plateia brasileira completamente atônita.
Naquela turnê histórica, os Melvins se apresentavam como um quarteto poderoso, unindo forças com os integrantes da banda de rock progressivo Big Business. O palco contava com a impressionante dinâmica de duas baterias tocadas simultaneamente e de forma sincronizada por Dale Crover e Coady Willis. A apresentação em São Paulo foi uma avalanche sonora inesquecível, lavando a alma de fãs que aguardavam por décadas aquele momento.
A constante evolução do grupo ganhou um capítulo vibrante em meados de 2015 com a entrada oficial do baixista Steve McDonald. Conhecido por seu trabalho lendário na pioneira banda de power pop/punk Redd Kross e no supergrupo OFF!, McDonald trouxe uma energia renovada e novos horizontes melódicos. Sua presença injetou um groove vibrante e linhas de baixo incrivelmente técnicas ao som monolítico tradicional.
Com Steve McDonald perfeitamente integrado ao núcleo criativo da banda, o Melvins manteve um ritmo invejável de lançamentos e turnês globais. O baixista adicionou não apenas o peso de seu instrumento, mas também backing vocals refinados que criaram um contraste espetacular com os vocais rasgados de Osborne. Essa formação estabilizou-se como uma das mais dinâmicas, divertidas e celebradas de toda a longa história do grupo.
Mais recentemente, a conexão profunda do Melvins com o público brasileiro ganhou um novo e memorável capítulo na história do grupo. A banda foi escalada como uma das atrações principais da edição brasileira do renomado Levitation Festival. O evento, famoso mundialmente por celebrar a música psicodélica, experimental e o rock de vanguarda, encontrou nos Melvins a atração pesada perfeita.

Colaborações
Ao longo de mais de quatro décadas de estrada, o Melvins se consolidou como uma das entidades mais colaborativas e camaleônicas do rock underground. A banda nunca teve medo de diluir as barreiras de seu próprio line-up, operando sob uma filosofia de portas abertas com músicos de diferentes vertentes. Esse espírito de parceria gerou uma série de álbuns colaborativos completos, turnês conjuntas lendárias e supergrupos que moldaram a música de vanguarda.
Jello Biafra (Dead Kennedys): Uma das parcerias mais celebradas da banda resultou em dois álbuns de estúdio viscerais: Never Breathe What You Can't See (2004) e Sieg Howdy! (2005). Unindo o peso arrastado do Melvins com o vocal cáustico e as letras políticas ultra-ácidas do lendário frontman do Dead Kennedys, o projeto destilou puro punk rock e sludge de alta octanagem.
Mike Patton e a Conexão Ipecac: Além de ser o dono da Ipecac Recordings (selo que abriga os discos da banda desde o fim dos anos 90), Mike Patton recrutou Buzz Osborne para integrar o Fantômas, um supergrupo de metal vanguardista e cinematográfico que também contava com Dave Lombardo (Slayer) e Trevor Dunn (Mr. Bungle). O Melvins e o Fantômas chegaram a fazer turnês juntos fundidos sob o nome de Fantômasmelvins.
Mudhoney e o Legado de Seattle: A amizade com os conterrâneos do Mudhoney vem desde antes do grunge existir, já que Matt Lukin (o primeiro baixista do Melvins) saiu do grupo em 1988 para fundar o Mudhoney. Em 2020, as duas lendas finalmente registraram essa união em estúdio com o EP colaborativo White Lazy Boy, combinando o punk de garagem rústico a riffs monolíticos.
Tool e Adam Jones: A conexão com o Tool é de longa data e cheia de admiração mútua. O guitarrista Adam Jones é um colaborador frequente do Melvins, tendo tocado guitarras adicionais e participado ativamente das sessões de estúdio nos álbuns concebidos ao lado de Jello Biafra, além de aparições especiais em shows e outros lançamentos experimentais.
Napalm Death (Savage Imperial Death March): Em uma das alianças mais brutais de sua história recente, o Melvins uniu forças aos pioneiros do grindcore britânico, Napalm Death, lançando o disco colaborativo Savage Imperial Death March (2026), consolidando décadas de trocas de influências pesadas entre as bandas.
O álbum Thunderball (2025) funciona como uma verdadeira máquina do tempo sônica, transportando o ouvinte diretamente para a garagem fria e úmida onde o Melvins deu seus primeiros passos no início da década de 1980 em Washington. Sob a assinatura de Melvins 1983, a ausência de uma produção de estúdio polida e o retorno do baterista de fundação Mike Dillard trazem uma crueza despojada que prioriza o instinto e a urgência do proto-grunge em detrimento da complexidade técnica. Ao ver Buzz Osborne assumir as rédeas rítmicas com um baixo distorcido e direto, o trabalho entrega uma sonoridade descompromissada e ranzinza, provando que a essência rebelde da banda permanece imutável e imune ao desgaste do tempo.
A vinda ao Levitation no Brasil reafirma o status de lenda viva da banda, atraindo veteranos e uma nova geração de entusiastas do som distorcido. Mesmo após mais de quatro décadas na estrada, a fúria criativa do Melvins continua tão relevante, barulhenta e vital quanto nos seus primeiros dias em Montesano.

Serviço | Levitation Brasil
Data: sábado, 23 de janeiro de 2027
Horários: 13h (abertura da casa) às 23h59
Local: Komplexo Tempo
Endereço: Avenida Henry Ford, 511, Parque da Mooca, São Paulo



