Militarie Gun: o som agressivo e melódico que está redefinindo o rock alternativo
Quinteto de Los Angeles estreia no Brasil em novembro
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German Martinez
9/13/20268 min read


Para a alegria dos fãs de hardcore melódico e alternativo, a primeira turnê latino-americana da banda foi confirmada para novembro de 2026. Seguindo os passos de bandas parceiras como o Turnstile, o Militarie Gun desembarca no Brasil para dois shows intimistas e intensos, ideais para o estilo de som da banda.
O Militarie Gun se consolidou como um dos maiores destaques do cenário californiano atual por conseguir oxigenar a lendária tradição do punk e hardcore do estado. Los Angeles e a Califórnia sempre foram berços de movimentos históricos do rock — desde o hardcore oitentista do Black Flag até o pop punk dos anos 90 com Green Day e Blink-182 —, e o Militarie Gun une perfeitamente essas duas eras.
A banda é um dos nomes mais comentados e celebrados da nova linha de frente do rock alternativo e do hardcore mundial. Formada em Los Angeles em 2020, a banda liderada por Ian Shelton conseguiu romper as bolhas do underground misturando a agressividade ríspida do punk com refrões pop irresistíveis, guitarras melódicas dos anos 90 e uma vulnerabilidade lírica crua.

O grupo nasceu essencialmente como um projeto de estúdio de Ian Shelton durante o isolamento da pandemia. Shelton era a mente por trás do Regional Justice Center, uma aclamada banda de powerviolence (um subgênero extremamente rápido e caótico do hardcore punk). Com as turnês canceladas e o fim iminente das atividades do Regional Justice Center, Shelton usou o tempo livre para explorar um lado musical até então adormecido: composições influenciadas por Guided by Voices, Husker Dü e até pelos Beatles.
O que começou como uma distração solitária rapidamente ganhou corpo com a entrada de William Acuña, Waylon Trim, David Stalsworth e Kevin Kiley, transformando-se em uma banda completa.
A ascensão da banda foi rápida e construída sobre uma produtividade implacável:
O cartão de visitas veio com o EP My Life Is Over (2020), seguido pela aclamada série de EPs All Roads Lead to the Gun (Partes 1 e 2, lançadas em 2021). Em 2022, o lançamento da versão Deluxe expandiu o som do grupo e trouxe parcerias emblemáticas com nomes da cena alternativa como Dazy e MSPAINT.
O grande diferencial do Militarie Gun está nas composições de Ian Shelton. Longe dos clichês políticos ou puramente agressivos do hardcore tradicional, ele escreve de forma profundamente emocional, direta e honesta. Suas letras abordam ciclos familiares de dor, vício, traumas de infância, apatia e relações tóxicas. No disco mais recente, as composições ganharam um tom confessional sobre perda de controle, culpa e a linha tênue entre a autodestruição e o sucesso.

A banda se diferencia no cenário da Costa Oeste por alguns fatores fundamentais:
Conexão com a comunidade local: Ian Shelton e os integrantes são figuras carimbadas e ativas na cena underground de Los Angeles. Eles começaram tocando em palcos pequenos, garagens e galpões independentes que mantêm o espírito Do It Yourself (Faça Você Mesmo) vivo na região.
Pontes entre gêneros: Em uma cena californiana que muitas vezes se divide entre o hardcore purista e violento e o indie rock polido, o Militarie Gun ousou misturar os dois. Eles trouxeram o peso de bandas locais contemporâneas (como Drain e Scowl) e injetaram melodias inspiradas no rock alternativo californiano de décadas passadas.
O selo de aprovação da cena: A ascensão da banda abriu portas para que outros grupos da região também ganhassem visibilidade, transformando a Califórnia novamente no epicentro de uma nova invasão do hardcore melódico nas paradas globais.

Life Under the Gun (2023): O álbum de estreia oficial, lançado pela renomada Loma Vista Recordings, consolidou o Militarie Gun mundialmente. Hinos imediatos como "Do It Faster" e "Very High" mostraram a genialidade em criar músicas de dois minutos com refrões perfeitos e muita distorção.
A estética visual do Militarie Gun é marcante, muitas vezes misturando o absurdismo punk com humor ácido:
"Do It Faster": O videoclipe é um clássico instantâneo, traduzindo visualmente o imediatismo e os refrões chiclete que dão o tom da banda.
"Very High": Uma representação divertida e caótica que dialoga perfeitamente com a energia do rock alternativo dos anos 90.
God Save The Gun (O álbum mais recente): No novo trabalho, a banda amplia seu alcance melódico sem abrir mão do peso. Se o primeiro disco observava o caos de fora, este álbum reflete o próprio amadurecimento e crises de Shelton em meio ao sucesso, flertando ainda mais intensamente com o rock alternativo. O disco contou com a produção de Riley MacIntyre (que já trabalhou com Adele e The Kills), dando um polimento massivo às guitarras barulhentas da banda.
O som único do Militarie Gun existe justamente porque Ian Shelton se recusa a ficar preso a um único gênero. O vocalista e compositor possui uma bagagem musical imensa e altamente contrastante, que vai da violência extrema do subgênero powerviolence à delicadeza melódica do pop sessentista.
O ecletismo do artista divide suas principais influências em três grandes pilares: Embora o Militarie Gun seja muito melódico, a urgência física e a agressividade vocal de Ian vêm diretamente do punk underground: Fugazi e Born Against: Duas das maiores referências estruturais para o músico. Do Fugazi, ele extraiu a ética de trabalho Do It Yourself (Faça Você Mesmo), o groove de baixo marcante e a estrutura de guitarras que conversam entre si.Black Flag: Ian já citou o álbum Loose Nut (1985) como um disco que mudou sua perspectiva mais tarde na vida, mostrando que o hardcore pesado poderia flertar com caminhos mais arrastados e experimentais. The Jesus Lizard: Uma grande influência no aspecto rítmico, na rispidez e na entrega vocal abrasiva.
Quando começou a compor para o Militarie Gun na pandemia, Shelton queria se desafiar a criar canções com estruturas de pop tradicional, buscando inspiração no rock alternativo noventista: Guided by Voices (Robert Pollard): Ian é um fã confesso da genialidade lo-fi de Robert Pollard. A capacidade do Guided by Voices de criar canções minúsculas (de 1 a 2 minutos), mas que grudam na cabeça instantaneamente, moldou o formato dos maiores hits do Militarie Gun. Hüsker Dü: A lendária banda americana é a cartilha perfeita de como misturar a velocidade do hardcore punk com melodias vocais doces e melancólicas — exatamente o que o Militarie Gun faz.
Em diversas entrevistas, Ian surpreendeu ao revelar que consome muita música comercial e que estuda a engenharia por trás das músicas que dominam as rádios: The Beatles (e Paul McCartney): Shelton é fascinado pelas harmonias vocais e pela simplicidade genial do quarteto de Liverpool. Faixas como "See You Around" (do disco de estreia) foram diretamente inspiradas no clima do álbum Sgt. Pepper's de 1967. O músico afirma que o rap e o hip-hop influenciam a sua forma de encaixar as palavras nas batidas. A entrega rítmica de suas letras, muitas vezes rápida, percussiva e direta, bebe muito da dinâmica dos rimadores modernos.
A banda estendeu sua série de apresentações históricas ao participar do aclamado projeto Elevator Music. Conhecido por colocar bandas pesadas e cheias de atitude para tocar em cenários minimalistas e inusitados, o Militarie Gun entregou uma performance ao vivo visceral. O setlist enxuto contou com músicas brutas e cheias de ganchos melódicos, incluindo as faixas "Kick", "God Owes Me Money", "B A D I D E A", "Thought You Were Waving" e "Throw Me Away"
Nos palcos, a banda é conhecida por não deixar ninguém parado. Suas apresentações em festivais gigantescos (como o Coachella e o Reading & Leeds) e a cultuada performance no NPR Tiny Desk Concert provaram que o grupo consegue manter a urgência e o impacto físico do hardcore tanto em palcos imensos quanto em salas de escritório aconchegantes.

A parceria entre o Militarie Gun e o projeto de power pop Dazy (comandado por James Goodson) é uma das alianças mais icônicas e bem-sucedidas do rock alternativo recente. Essa união foi fundamental para consolidar a transição do Militarie Gun do hardcore purista para um som repleto de ganchos pop e experimentações.
A primeira e mais famosa parceria nasceu em 2022 com o single "Pressure Cooker". Gravada de forma remota entre as duas costas dos Estados Unidos, a música chocou e encantou a cena underground ao misturar guitarras distorcidas com o groove dançante e psicodélico do movimento Madchester britânico dos anos 90 (lembrando bandas como The Stone Roses). A faixa entrou na lista de melhores músicas do ano de veículos como a Pitchfork e a Stereogum, além de ganhar um remix oficial com a participação da banda Mannequin Pussy. Ela se tornou presença obrigatória nos shows do Militarie Gun.
Três anos após o primeiro sucesso, Ian Shelton e James Goodson uniram forças novamente para lançar o single "Tall People Don't Live Long". O título começou como uma piada interna pelo fato de Goodson ser bem mais alto que Shelton. No entanto, a letra se transformou em uma crítica irônica e direta a pessoas que sobem na vida ou alcançam o sucesso e começam a olhar os outros de cima. A música seguiu o DNA experimental de "Pressure Cooker", mas com uma abordagem um pouco mais cadenciada, atmosférica e focada em sintetizadores e linhas de baixo marcantes. O videoclipe, dirigido pelo próprio Ian Shelton, traz os dois músicos de terno dançando em meio a projeções de sombras.
Além de gravarem juntos, as bandas possuem uma longa história de estrada. O Dazy atuou como ato de abertura principal em várias turnês do Militarie Gun pelos Estados Unidos, provando que a química de estúdio funciona perfeitamente ao vivo com os líderes dividindo o microfone no palco.
Três músicas essenciais de como Ian Shelton consegue equilibrar suas três maiores influências (o hardcore agressivo, os ganchos do rock alternativo dos anos 90 e a estrutura do pop clássico) em faixas de pouco mais de dois minutos:"Do It Faster". A influência: Indie Rock / Ganchos dos anos 90. É o maior hino e a porta de entrada perfeita para a banda. A faixa abre com uma linha de baixo contagiante antes de explodir em um refrão chiclete ("I catch you slipping...") pontuado por "palmas" de bateria. Ela encapsula perfeitamente a genialidade lo-fi de bandas como Guided by Voices, condensando uma energia absurda em menos de dois minutos. "Ain't No One Does It Better". A influência: Hardcore / Post-Hardcore Ríspido. Esta faixa mostra o DNA pesado e urgente que Ian trouxe de seus tempos de Fugazi e do underground californiano. As guitarras são mais cortantes, o ritmo é pulsante e o vocal de Shelton entrega aquela agressividade rouca e física, mas sem nunca perder o senso de melodia que faz a música grudar na cabeça. "See You Around" Pop Clássico e Melodia. É a música mais inspirada pelos Beatles e pelo rock melancólico tradicional. Com um andamento mais lento, violões proeminentes e linhas vocais limpas e harmoniosas, ela chocou os fãs mais puristas do hardcore ao provar que Ian Shelton é, antes de tudo, um excelente compositor pop. É uma das faixas mais maduras e emocionantes da banda.
Foto por Nolan Knight


SERVIÇO
Militarie Gun em Curitiba
Data: 28 de novembro de 2026
Local: Belvedere
Endereço: Rua Inácio Lustosa, 496, São Francisco, Curitiba/PR}
Ingressos: https://meaple.com.br/belvedere/militarie-gun
Militarie Gun em São Paulo
Data: 29 de novembro de 2026
Local: Hangar 110
Endereço: Rua Rodolfo Miranda, 110, Bom Retiro, São Paulo/SP
Ingressos: https://fastix.com.br/events/militarie-gun-eua-em-sao-paulo

