"O Barão é Vermelho"
Mais de 3 décadas depois, a formação original voltou a se reunir em último show da Turnê "Encontro" na capital paulista
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Fotos por Pridia & 30e - Texto German Martinez
10/28/20269 min read


Uma das mais grandiosas notícias pro rock nacional foi certamente a reunião de Roberto Frejat, Dé Palmeira, Guto Goffi e Maurício Barros, era a seminal formação do Barão Vermelho obviamente sem a presença de Cazuza, falecido, vítima da AIDS em 1990.
Foi graças ao show do Queen, que 2 amigos de colégio, Maurício Barros e Guto Goffi, uniram forças pra montar uma banda, inspirados nas tirinhas de Snoopy do qual seu rival era inspirado em Manfred Von Richthofen, o temido aviador "Barão Vermelho", da Primeira Guerra Mundial.
Esses quatro garotos em plena época de ditadura resolveram se juntar e contar a vida do cotidiano carioca, quando Cazuza se juntou a eles pra retratar um pouco das noites no Leblon (e baixo Leblon) e da Barra da Tijuca, das madrugadas nos arredores do Circo Voador, o Barão teve a capacidade cirúrgica de retratar intensamente essa época no Rio de Janeiro.
Num nível á la Jagger & Richards, ou Lennon & McCartney, a parceria de Cazuza & Frejat criaram um espólio monumental como alicerce do rock brasileiro. Essa afinidade não só musical mas de irmandade foi representada em grande parte das canções que eles dividiram caneta pra assinar.
Quando Ezequiel Neves, ouviu a demo da banda ele fez de tudo pra que a Som Livre, dirigida por João Araújo, pai de Cazuza, desse uma oportunidade a banda, e com a ajuda de Guto Graça Mello, eles levaram esses 5 garotos foram pro estúdio e registraram seus 3 álbuns de estúdio, em cerca de 3 anos, que causou um estardalhaço no cenário carioca, tendo a banda participado do filme Bete Balanço.
Foi quando Ney Matogrosso passou a cantar Pro Dia Nascer Feliz que as rádios passaram a dar valor ao material do Barão. E depois o aval foi dado por Caetano Veloso, que ouviu Todo Amor Que Houver Nessa Vida, e enxergou o potencial que a banda tinha, esses 2 atos transformaram a carreira do Barão pra sempre.
Tocando por tudo que é canto, o Barão ganhou uma notoriedade acima da média, pois era uma banda com excelentes músicos em ascendência e um poder lírico inenarrável, juntos eles traziam um potencial ao vivo, que não era tão comum pra época. Foram anos intensos, quando a banda foi se apresentar na primeira edição do Rock In Rio.
Fazendo parte de um cast praticamente de bandas do Rio de Janeiro, o Barão levantou a bandeira da democracia e apontava um novo futuro, já que as Diretas Já (movimento criado em 1983 pelo voto direto), havia chacoalhado a juventude na época. Naquele momento ainda por voto indireto, Tancredo Neves estaria na presidência, mas que o próprio não conseguiu assumir às vésperas da cerimônia, por motivos de saúde, e faleceria semana depois, sendo substituído por José Sarney. Logo após esse capítulo histórico do grupo, Cazuza já esboçava um descontentamento e deixaria a banda, como uma notícia bombástica pra toda uma geração, ele se dedicou à sua carreira solo enquanto o restante da banda tentava se reconstruir




Mesmo separados e por algum tempo brigados, Frejat e Cazuza seguiram sua parceria musical, muitas canções nasceriam após sua saída do Barão, mas eles seguiram em frente, e o álbum Declare Guerra foi um desabafo a toda situação pós traumática da saída de Cazuza. Daí vieram obras como Rock N' Geral, ou o registro Barão Ao Vivo, gravado no Dama Xoc, em São Paulo, e Carnaval.
Em 1990, Dê Palmeira saiu da banda, sendo substituído por Dadi Carvalho, e foi justamente nesse período que a formação original se desfez, e só voltaria a se reunir pra shows neste ano de 2026, Dadi que era ex- A Cor Do Som, gravou Na Calada Da Noite, e saiu pra integrar a banda de Caetano Veloso.
E nesse momento é necessário um recorte na história que estamos contando até aqui, a partir deste momento o Barão seguiria em frente com Frejat, Guto e Maurício, com adição de Rodrigo Santos (no início dos anos 90) e Fernando Magalhães e Peninha na percussão, estes que já haviam sido oficializados no grupo ainda na década de 80.
Enquanto a mídia duvidava do futuro do grupo, eles se aliavam musicalmente pra lançar álbuns como Supermercados da Vida, Carne Crua, os anos 90 já estavam aí, e o grupo criava sem medo de se arrepender.
Quando tudo era só mato, o Barão Vermelho desbravou o terreno com a primeira aparição oficial do Acústico MTV no Brasil, com um repertório aguçado e uma banda alinhada o grupo faria um dos maiores registros da marca desde então. Em 1995, o Barão foi convidado pra abrir os shows da turnê Voodoo Lounge dos The Rolling Stones, em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo uma prova viva do poder que a banda tinha ao vivo, como em uma das datas no Rio, onde o grupo dividiu palco com Rita Lee e os norte-americanos do Spin Doctors, numa noite inesquecível.
Em 1996, eles lançaram um álbum homônimo apenas com versões, e diga-se de passagem "que versões", que iam de Rita Lee á Bezerra da Silva, um belíssimo registro da trajetória do grupo. Logo depois o grupo flertou com a música eletrônica com o álbum Puro Êxtase, alcançando um imenso sucesso com a faixa-título e Por Você.
Oito anos depois do Acústico MTV, era hora de fazer o Balada MTV, onde capturava a sinergia impecável da banda em músicas essenciais num novo formato do canal.
O Barão nunca parou, graças a insistência de Guto Goffi que sempre acreditou na banda, daí vieram álbuns, como o homônimo de 2004.
Em 2017 Frejat decidiu sair da banda, pra se focar em sua carreira de solista, que já havia gerado frutos como o impecável Amor pra Recomeçar, de 2001. Rodrigo Suricato foi o responsável por assumir os vocais, registrando o álbum Viva, e Barão 40. E pegando estrada junto da banda pelo Brasil afora.




Mas e a reunião? A reunião foi algo indescritível, que faltariam palavras pra falar de um momento histórico na trajetória de tal relevância do Barão.
O primeiro show que havia sido no Rio de Janeiro e havia passado também por outras cidades, a última apresentação acabou desembocando no Espaço Unimed, na capital paulista.
Numa noite fria e intensamente chuvosa, o público não se reprimiu ao sair de casa, o local foi sendo tomado aos poucos. Pra essa celebração o Barão havia escolhido nada mais que 29 músicas do seu imenso repertório. E ali foi exatamente passear por toda obra estonteante do grupo.
O hino juvenil de Maior Abandonado, voltando pra 1984, ano que muitos ali sequer haviam nascido num país que vivia sob a ditadura. Pedra, Flor e Espinho, parceria de Frejat com Dulce Quental e Fernando Magalhães apontava o peso e o lirismo crucial da banda. A guitarra fritando de Frejat se encontra a percussão precisa de Cesinha, irmão de Peninha, falecido em 2016, que fez parte da banda durante 30 anos.
Política Voz, conversa diretamente com Tão Longe de Tudo, duas pérolas dos anos 90 do Barão, levando o público ao delírio. A introdução matadora de baixo de Dé Palmeira em Bete Balanço, define a sonoridade oitentista da banda, a faixa que levou a banda á outro patamar da popularidade com o filme de Lael Rodrigues. A pesadíssima Meus Bons Amigos, traz à tona a bateria pulsante de Guto Goffi aliados aos riffs marcantes de Fernando e Frejat. Aí era hora de Maurício Barros dar um show à parte com os teclados em Ponto Fraco, mostrando que o Blues do Barão é impecável.
O primeiro tributo da noite seria com com Tente Outra Vez, de Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta, lançada há mais 50 anos atrás no álbum Novo Aeon. Das célebres canções dos anos 80, veio Eu Queria Ter Uma Bomba, remetendo á 1984. Entre falas de agradecimentos dos integrantes e da emoção de estar ali naquele momento, o Barão vai muito além de uma banda, é um exemplo de uma amizade gigantesca entre eles.
A celebração à Cazuza viria com a veracidade de O Tempo Não Para, uma obra prima atemporal de Cazuza e Arnaldo Brandão eternizada no álbum ao vivo de Cazuza. Aquele blues "safado" de Quem Me Olha Só, do Rock N' Geral.
Revirando o baú dos primórdios a sagacidade de Down Em Mim, a gigante Todo Amor Que Houver Nessa Vida, cada palavra, cada estrofe cantada com amor no coração pelo público. Pra fechar essa trinca de Cazuza, a inocente beleza de Codinome Beija Flor, emocionando a todos os presentes.
Da fase eletrônica, mas uma das mais românticas da trajetória da banda, Por Você, poderia ter sido cantada só pela platéia que estaria tudo certo também.




Além do repertório próprio, o Barão sempre se destacou pela maneira primorosa de criar versões de outras canções, fazendo assim o papel de intérprete, e foi assim numa sequência que começou com Amor Meu Grande Amor de Angela Ro Ro, passando pela Jovem Guarda com Vem Quente Que Eu Estou Fervendo, hit de Erasmo Carlos. Maurício Barros assumiu os vocais pra maravilhosa Malandragem, Dá Um Tempo, de Bezerra da Silva, no fim da canção o telão ficou completamente vermelho, e Maurício ecoou: 'O Barão é Vermelho", deixando bem claro que qual lado político a banda estava, após um primeiro turno conturbado no país.
Aquele "rockão", que o só Barão sabe fazer como em Torre de Babel, ou na urgência de Declare Guerra, uma crítica aos "falsos amigos" que cruzaram o caminho deles após a saída de Cazuza. O maior hit da banda nos anos 2000, Cuidado, riff e refrão pegajoso. Uma das canções mais interessantes que apareceu no "Encontro" foi a inclusão de Não Me Acabo, parceria de Arnaldo Antunes com Paulo Miklos, gravada no álbum Carnaval.
Renato Russo recebeu sua devida homenagem em Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto, do disco As Quatro Estações de 1989, com pitada do riff Here Comes The Sun, dos Beatles. A Disco-Music/balada poderia ter começado ali com o hit instantâneo de Puro Êxtase, mas se encerrou com o clima lá no alto. A banda saiu do palco, e voltaria pra parte final do show.
Somente os 4 integrantes, foram pra um canto do palco pra tocar de forma acústica Bilhetinho Azul, declaração de amor perversa de Cazuza/Frejat. A letra de uma honestidade dilacerante de Dulce Quental em homenagem a Cazuza, O Poeta Está Vivo, que Frejat musicou após o retorno dele após um momento crítico de saúde. Porque A Gente É Assim, vibrante do início ao fim, reverbera aos quatro cantos o estilo clássico do Barão do começo.
Era hora de se despedir, e seria óbvio que seria da mesma forma como foi o Rock In Rio 41 anos antes, esperando por um Brasil melhor, por futuro mais cheio de amor, de compaixão, de perspectivas de progresso, foi assim que Dé Palmeira, Guto Goffi, Maurício Barros e Roberto Frejat saíram do palco estampando um sorriso no rosto de estarem tocando juntos novamente, sentindo sensações que só haviam passado há mais de 35 anos atrás com todos reunidos de novo, o Barão deixa o semblante no rosto do fã que a banda marcou a história de cada um que estava ali e que sua relevância no cenário nacional nunca será apagada.
Fotos gentilmente cedidas por Pridia & 30E

