O caos produtivo de John Dwyer e a linha de frente do underground norte-americano
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German Martinez
11/7/20265 min read


A trajetória do Osees é uma das mais fascinantes, prolíficas e mutáveis da história recente do rock alternativo mundial. Formada em San Francisco, Califórnia, no final dos anos 1990, a banda começou como um projeto solo e experimental do guitarrista, vocalista e multi-instrumentista John Dwyer. Sob o pretexto de lançar faixas caseiras, esquisitices lo-fi e experimentações acústicas, Dwyer plantou a semente de um dos maiores titãs do garage rock contemporâneo.
Ao longo de quase três décadas, o grupo passou por profundas transformações estéticas e estruturais, refletidas diretamente em suas constantes mudanças de nome. O projeto já atendeu por Orinoka Crash Suite, OCS, Orange County Sound, Thee Oh Sees, Oh Sees e, finalmente, Osees. Essa mutação nominal não é mero capricho, mas um reflexo da urgência criativa de Dwyer, que recusa a estagnação e força a banda a se reinventar a cada ciclo.
A espinha dorsal do Osees sempre foi o próprio John Dwyer, uma figura lendária do underground americano, conhecido por sua ética de trabalho incansável e presença de palco magnética. Empunhando sua guitarra de forma icônica, posicionada bem alta no peito, e dividindo o palco com duas baterias simultâneas, ele transformou o grupo em uma força da natureza. A banda tornou-se sinônimo de apresentações ao vivo catárticas, suarentas e absolutamente implacáveis.
Nos primeiros anos, sob a alcunha de OCS, a sonoridade era predominantemente folk psicodélico, minimalista e introspectiva, muito distante do ataque sônico que os consagraria mais tarde. Álbuns como 1 (2003) e 2 (2004) traziam arranjos acústicos e texturas lo-fi gravadas em fita. Era um período de gestação e experimentação pura, onde Dwyer moldava sua sensibilidade artística ao lado de colaboradores próximos.
A grande virada estética começou a se desenhar com o álbum Sucks Blood (2007), o primeiro lançado sob o nome Thee Oh Sees. O trabalho equilibrava o antigo folk sombrio com as primeiras guitarras elétricas distorcidas e vocais sussurrados, cortesia da tecladista e vocalista Brigid Dawson. A química entre Dwyer e Dawson definiu a primeira grande era de ouro da banda, trazendo um contraste melódico ao caos iminente.

O ano de 2008 marcou a consolidação definitiva do garage rock psicodélico do grupo com o aclamado álbum The Master's Bedroom Is Worth Spending a Night In. Com ritmos acelerados, guitarras ruidosas e uma energia garageira irresistível, o disco colocou a banda no mapa do indie rock global. Canções como "Carrion" mostraram que o Thee Oh Sees havia encontrado uma fórmula única: melodias pop sessentistas subvertidas pelo punk.
A partir dali, a produtividade da banda atingiu níveis inacreditáveis, com o lançamento de múltiplos álbuns e EPs por ano. Discos como Help (2009) e Warm Slime (2010) expandiram a paleta sonora, flertando com o surf rock distorcido e longas jam sessions improvisadas. A banda capturava a urgência das ruas de San Francisco, tornando-se o estandarte do selo Castle Face Records, fundado pelo próprio Dwyer.
O ápice dessa fase de garage psicodélico veio com a trinca de álbuns Castlemania (2011), Carrion Crawler/The Dream (2011) e Putrifiers II (2012). Enquanto Castlemania era uma viagem distorcida e multicolorida pelo sunshine pop, Carrion Crawler/The Dream entregava um som pesado, motorizado e hipnótico. A faixa-título "The Dream" tornou-se um hino instantâneo nos shows, arrastando multidões para rodas de mosh insanas.
Em 2013, o lançamento de Floating Coffin marcou o fim de uma era e o início de uma reestruturação drástica na banda. O álbum apresentava uma sonoridade mais escura, pesada e polida, evidenciada por faixas como "Toe Cutter - Thumb Buster". Logo após o lançamento, Dwyer decidiu dar uma pausa nas atividades, mudar-se para Los Angeles e reformular completamente o alinhamento de músicos do grupo.
A mudança para Los Angeles oxigenou a criatividade de Dwyer, resultando no álbum Mutilator Defeated At Last (2015). O disco apresentou ao mundo uma nova e técnica cozinha rítmica, adotando definitivamente a configuração de dois bateristas tocando em uníssono perfeito. O som tornou-se mais denso, preciso e progressivo, adicionando elementos de krautrock e heavy psych à receita original da banda.
A evolução técnica continuou com os ambiciosos A Weird Exits e An Odd Entrances, ambos lançados no ano de 2016. A introdução dos bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone criou uma parede rítmica avassaladora, que casava perfeitamente com os novos sintetizadores e linhas de baixo pulsantes. A banda abandonava o rótulo purista de garage rock para abraçar o rock progressivo e as texturas espaciais.
Sob o nome encurtado de Oh Sees, o grupo lançou Orc (2017) e Smote Reverser (2018), trabalhos que abraçaram de vez o metal psicodélico e o jazz fusion. Com riffs complexos, ficção científica nas letras e longas suítes instrumentais, a banda provou que sua capacidade de evolução era infinita. Dwyer continuava a desafiar as expectativas do público, misturando agressividade punk com virtuosismo técnico.

O álbum Face Stabber (2019) representou o ápice dessa jornada experimental e maximalista da banda, estendendo-se por mais de 80 minutos de música. O disco trazia desde faixas curtas e agressivas até a colossal "Henchlock", uma jam de jazz-rock psicodélico de 21 minutos. Era a prova definitiva de que o Oh Sees não operava sob nenhuma regra comercial, priorizando a liberdade artística absoluta.
Com a chegada da nova década e a adoção do nome Osees, o grupo lançou Protean Threat (2020) no auge da pandemia global. O álbum trouxe um retorno a canções mais curtas, urgentes e diretas, fortemente influenciadas pelo pós-punk e pelo synth-punk. Mesmo sem poder excursionar, a banda manteve sua relevância gravando apresentações icônicas ao vivo no deserto e em teatros vazios para os fãs.
A inquietação de John Dwyer levou a banda a explorar a música eletrônica industrial e o hardcore punk em A Foul Form (2022). O álbum foi uma homenagem explícita às bandas de anarco-punk e hardcore dos anos 1980, com músicas rápidas, vocais berrados e gravação crua. Foi uma guinada surpreendente que chocou os fãs de psicodelia, mas reafirmou o espírito rebelde do projeto.
A discografia recente do Osees continuou expandindo fronteiras com Intercepted Message (2023), um disco focado em sintetizadores pop e dance-punk excêntrico. O trabalho canalizou a energia de bandas como Devo e The B-52s, mostrando o lado mais divertido, dançante e colorido de Dwyer. O uso proeminente de teclados analógicos trouxe uma nova textura refrescante para o catálogo massivo do grupo.

Em 2024, a banda lançou SORCS 80, um álbum ousado e conceitual gravado sem o uso de nenhuma guitarra, utilizando apenas samplers e sintetizadores modificados. O feito, impensável para uma banda liderada por um herói da guitarra como Dwyer, provou que o Osees permanece na vanguarda da inovação. A essência punk e a energia rítmica avassaladora continuaram intactas, provando que a atitude supera o instrumento.
Olhar para a trajetória e para as dezenas de álbuns do Osees é testemunhar um dos maiores testamentos de dedicação ao rock and roll. John Dwyer e seus companheiros criaram um universo musical próprio, imune a modismos e sustentado por uma paixão visceral pela criação. Seja qual for o próximo nome ou direção sônica que decidam tomar, o Osees já garantiu seu lugar no panteão dos imortais do rock independente.

Serviço | Levitation Brasil
Data: sábado, 23 de janeiro de 2027
Horários: 13h (abertura da casa) às 23h59
Local: Komplexo Tempo
Endereço: Avenida Henry Ford, 511, Parque da Mooca, São Paulo



