O eco absoluto do trovão japonês

A jornada experimental do Boris entre o peso extremo, os discos históricos e a conexão catártica com o Brasil

NOTÍCIAS

German Martinez

10/19/20266 min read

Formada em Tóquio no ano de 1992, a banda japonesa Boris consolidou-se como uma das forças mais enigmáticas, barulhentas e influentes do underground mundial. Composta desde 1996 pela sua formação clássica e inabalável — Takeshi nos vocais, baixo e guitarra de braço duplo; Wata na guitarra solo e teclados; e Atsuo na bateria e vocais —, o trio transcendeu os limites geográficos e de gênero, erguendo um verdadeiro monumento sonoro dedicado à experimentação contínua.

O próprio nome da banda carrega uma pista fundamental sobre suas origens e reverências artísticas, tendo sido retirado de uma faixa homônima contida no álbum Bullhead, lançado em 1991 pelos norte-americanos do Melvins. Longe de ser apenas um tributo passageiro, essa escolha previu o destino do Boris como uma entidade capaz de moldar o sludge metal e o drone de maneira inteiramente nova, expandindo a herança do peso de formas nunca antes imaginadas.

Ao longo de mais de três décadas de atividade ininterrupta, a banda se recusou a ser rotulada por qualquer termo simplista da indústria musical. Transitando com naturalidade impressionante entre o drone metal sufocante, o noise rock abrasivo, o shoegaze etéreo, o ambient minimalista, o crust punk veloz e a psicodelia clássica, o Boris transformou sua discografia em um vasto laboratório onde o volume extremo funciona tanto como agressão quanto como terapia espiritual.

Para compreender a vastidão desse legado, é indispensável mergulhar em seus melhores discos, obras que redefiniram as possibilidades da música pesada contemporânea. O primeiro grande marco dessa trajetória veio com o monumental Flood (2000), um álbum conceitual composto por uma única e gigantesca faixa dividida em quatro partes, que se move como uma maré mansa de post-rock até desaguar em um oceano devastador de repetição hipnótica e distorção drone.

Logo em seguida, o trio chocou o público com o visceral Heavy Rocks (2002) — o primeiro de uma série de álbuns de mesmo nome —, onde deixaram de lado as longas texturas contemplativas para abraçar um stoner rock movido a combustível de alta octanagem, riffs repletos de fuzz e uma urgência rítmica avassaladora que capturava a essência do rock de garagem em sua forma mais destrutiva.

Ainda no mesmo período de efervescência criativa, o Boris lançou o aclamado Akuma no Uta (2003), um registro curto, direto e agressivo que se tornou instantaneamente icônico, inclusive pela sua famosa arte de capa que homenageia o clássico folclórico Bryter Layter, do cantor britânico Nick Drake, estabelecendo um contraste fascinante entre a sensibilidade folk e o assalto sônico contido no vinil.

Contudo, foi com o divisor de águas Pink (2005) que a banda alcançou um novo patamar de aclamação global e exposição crítica. Conseguindo fundir texturas melódicas de shoegaze com a velocidade do punk rock e o peso arrastado do doom metal, o álbum estabeleceu a assinatura definitiva do trio, equilibrando beleza melancólica e ruído ensurdecedor de maneira magistral e perfeitamente coesa.

Dentro dessa vasta tapeçaria discográfica, emergem faixas fundamentais que servem como portas de entrada perfeitas para o universo da banda. A magnífica "Farewell", que abre o álbum Pink, destaca-se como o hino definitivo do grupo, uma parede de guitarras massivas que flutuam sobre uma melodia vocal sussurrada, evocando uma sensação de isolamento cósmico e transcendência emocional.

Em total contrapartida à calmaria distorcida de "Farewell", a faixa "Ibitsu" mostra o lado mais caótico e veloz do trio japonês. Com pouco mais de três minutos de pura fúria, a canção avança como um trem desgovernado de noise punk, impulsionada por solos de guitarra estridentes de Wata e uma performance rítmica frenética de Atsuo que desafia os limites físicos.

Para os puristas do peso arrastado, "Vomitself", presente no álbum Amplifier Worship (1998), permanece como a representação máxima das raízes drone da banda. A música é um exercício de paciência e tolerância ao volume, onde frequências graves e subgraves são sustentadas ao extremo, criando uma atmosfera opressiva que parece vibrar diretamente no peito do ouvinte.

Além de sua produção solo prolífica, o Boris tornou-se mundialmente célebre por suas colaborações ao redor do mundo com outros ícones da música de vanguarda. Essas parcerias não eram meros artifícios de marketing, mas sim fusões genuínas de mentes criativas que buscavam desbravar territórios sonoros inexplorados e expandir as fronteiras de seus respectivos trabalhos.

A colaboração mais duradoura e barulhenta deu-se com o mestre do harsh noise japonês, Masami Akita, mais conhecido como Merzbow. Juntos, Boris e Merzbow lançaram diversos registros ao longo dos anos, misturando a instrumentação orgânica de rock do trio com as tempestades eletrônicas e abrasivas de ruído puro geradas pelo veterano da cena noise.

Outro ponto alto dessas interações globais ocorreu na histórica parceria com os norte-americanos do Sunn O))), que resultou no aclamado álbum Altar (2006). O disco converteu-se em um verdadeiro altar do minimalismo pesado, unindo as guitarras cavernosas e sem bateria do Sunn O))) à sensibilidade dinâmica e melódica do Boris, gerando uma das experiências mais imersivas do metal experimental.

A curiosidade artística do trio também os levou a colaborar com o vocalista Ian Astbury, da lendária banda de rock gótico The Cult, no EP BXI (2010), bem como em projetos memoráveis ao lado do reverenciado guitarrista psicodélico Michio Kurihara. Cada uma dessas incursões provou que a identidade do Boris é maleável, mas nunca perde sua essência magnética e autêntica.

Essa rica história de décadas finalmente cruzou o oceano rumo à América do Sul no final de 2025, concretizando um sonho antigo de milhares de admiradores sul-americanos. O Brasil, conhecido por abrigar uma das plateias mais calorosas e dedicadas do planeta, foi escolhido como parada obrigatória para uma apresentação única e cercada de imensa expectativa.

O encontro histórico foi em novembro de 2025, no palco do Fabrique Club, localizado no tradicional bairro da Barra Funda, em São Paulo. Organizado em parceria pelas produtoras Powerline, Abraxas e Maraty, o evento esgotou todos os seus ingressos rapidamente, atraindo uma mistura fascinante de jovens da nova geração e veteranos do underground.

A noite começou com uma espera exaustiva que testou a paciência do público na fila, mas qualquer sinal de desgaste desapareceu assim que o trio subiu ao palco. O show comemorativo de 20 anos do álbum Pink iniciou-se sob uma atmosfera mística de fumaça densa e amplificadores Orange levados ao limite de suas capacidades técnicas, transformando a pista em um templo de adoração ao som.

O show no Fabrique Club foi avassalador e transcendental, um verdadeiro culto ensurdecedor onde o som podia ser sentido fisicamente. A performance cirúrgica de Wata na guitarra, o carisma magnético de Takeshi empunhando seu instrumento híbrido e a dramaticidade performática de Atsuo regendo a dinâmica do caos deixaram a plateia em estado de transe.

Clássicos como "Blackout", "Woman on the Screen" e a própria faixa-título "Pink" ecoaram pelas paredes do clube com uma potência avassaladora, culminando em um bis apoteótico com a execução da monumental "Flood". Foi uma estreia catártica em solo brasileiro, que lavou a alma dos fãs e cravou aquela noite como um dos concertos mais impactantes da história recente da capital paulista.

A relação mútua de amor entre a banda e o público brasileiro gerou frutos rápidos, garantindo o retorno do trio muito antes do que os fãs poderiam imaginar. O Boris foi anunciado como uma das principais atrações internacionais da primeiríssima edição do aclamado festival Levitation Brasil, expandindo ainda mais sua conexão com o país.

Marcado para acontecer no dia 23 de janeiro de 2027 no Komplexo Tempo, também em São Paulo, o Festival Levitation trará o Boris ao lado de gigantes como Melvins e Osees. Essa escalação não apenas celebra a psicodelia e o noise rock global, mas promove o histórico encontro no mesmo palco entre o Boris e a banda que inspirou seu próprio nome.

Ao olhar para o passado de glórias discográficas, colaborações brilhantes e a promessa de um futuro repleto de novas paredes de ruído, fica claro que o Boris permanece relevante por sua coragem inabalável. Eles continuam a provar que o volume extremo, quando conduzido com paciência e genialidade artística, é capaz de derrubar barreiras culturais e unir mentes ao redor do mundo.

Serviço | Levitation Brasil

Data: sábado, 23 de janeiro de 2027

Horários: 13h (abertura da casa) às 23h59

Local: Komplexo Tempo

Endereço: Avenida Henry Ford, 511, Parque da Mooca, São Paulo

https://fastix.com.br/events/levitation-brasil

Fique por dentro de todas as nossas novidades!

Inscreva-se