Orishas: mais que um show, um ato político
Duo cubano retorna ao Brasil, com uma performance intensa de seus maiores sucessos
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Texto German Martinez - Fotos Raíssa Corrêa
3/25/20266 min read


Seria muito difícil contextualizar esse show, sem sequer traçar um paralelo ao que o país de origem da banda passou no mínimo nos últimos 60 anos, muito antes deles existirem como parte da sociedade, o país colapsava por conta do governo de Fulgêncio Batista, pelos idos de anos 40, quando governou como presidente, fez parcerias com os EUA, e fez questão de suspender Constituição local, retirando inúmeros direitos aos trabalhadores cubanos.
Tida como uma das mais belas ilhas do Caribe, Cuba, foi considerada "a terra da revolução", um país de gente bonita, de música de qualidade, e recheada de belas paisagens, naquela época o país, se tornava promissor pelos seus cassinos, praias estonteantes e uma boêmia de muito garbo. Só que nem tudo eram flores, sob o governo de Fulgêncio, que era acusado de corrupção contínua, e inúmeros problemas no mandato, o que causou o descontentamento social.
Provocando então, que um grupo revolucionário formado pelos jovens e amigos Fidel Castro, Ernesto "Che" Guevara, e o irmão de Fidel, Raúl Castro, que haviam se conhecido no México, proliferassem várias idéias de como invadir o congresso e subitamente tirar o poder de Fulgêncio. Castro, um advogado formado e filho de fazendeiro rico, se alinhou as idéias socialistas da extinta União Soviética, causando assim a Revolução Cubana, de 1959, que derrubou o governo de Fulgêncio Batista, com foco no nacionalismo, com a parceria com a URSS, transformou Cuba, como um Estado de partido único,, criando então o PCC (Partido Comunista Cubano), que priorizava a saúde, o alto nível escolar, entre outros fatores, mas o que o muitos não haviam se dado conta, que tal "novo governo", estava participando de um isolamento econômico brutal, que fez o país despencar numa situação financeira péssima há no mínimo 30 anos, além da perseguição de homossexuais, vetaria liberdades civis e de impensa, afundando num novo regime ditatorial, que Fidel passou ao seu irmão Raúl, e consequentemente passou o bastão para Miguel Diaz Canel.




Muitos anos se passaram, e o quando o Rap/Hip Hop Americano vinha tomando de assalto o mercado musical, por uma brecha muito pequena esse tipo de som chegou aos ouvidos de uma molecada de Havana, e foram esses jovens até então, que resolveram fazer essa mistura do cotidiano cubano com rimas perfurantes do Rap. Foi aí que surgiu o grupo Amenaza, o embrião do Orishas, já era por si só uma banda mal vista e repreendida após seus shows nos buracos mais cavernosos da linda Havana.
Sob tal censura e mentes inquietantes dos integrantes Yotuel Romero, Roldán Gonzales Rivero, Hiram Riveri Medina "Ruzzo", Liván Nunez Alemán "Flaco Pro", eles trabalhariam no que viria a ser o primeiro álbum da banda. Sendo que daí por diante, Flaco Pro, seria o primeiro a abandonar a banda em 2002 e Ruzzo sairia em 2021.
Após tudo isso, eles se trasladaram pra Paris (França), pra se livrarem das amarras artísticas que o país de origem lhes proporcionava. O Orishas nasce de uma vontade de se expressar artisticamente/musicalmente do lado de fora, do que havia se tornado Cuba.
Totalmente inovadores, eles pegaram a agressividade das letras e rimas, ambientados pelo som Tropical de Cuba, mesclando assim a rumba, cumbia, e hip Hop num liquidificador musical. O disco A Lo Cubano (1999), caiu nas graças de público e crítica, publicações como Rolling Stone e Bizz, não poupavam elogios ao disco de estréia do quarteto. Após o reconhecimento do debut, a banda trabalhou em discos essenciais como Emigrante (2002), El Kilo (2005), Antidiótico (2008).
Em 2009, com problemas inerentes internos a banda implodiu, mas ainda conseguiu se despedir frente a uma multidão de mais 1 milhão de pessoas na capital Havana. Após anos de silêncio, a banda desta vez com apenas 3 dos 4 integrantes se reuniriam, e desta união nasceu o álbum Gourmet (2018).




E foi nesta noite de 15 de março de 2026, que Yotuel e Roldán, voltariam aos palcos do Brasil, pra celebrar uma obra com seus irmãos latino- americanos, a platéia que tinha brasileiros, uruguaios, argentinos, cubanos, ou seja, era a perfeita união de povos.
Se muitos ainda sente saudades apenas dos samplers, Dj e Rap, o Orishas hoje vai além e se torna uma banda de World Music, trazendo percussão, metais, e um incrível duo de backing vocals.
A abertura veio com uma versão de Quizás, Quizás ainda sem Yotuel, mas quando a banda arrancou com a introdução de Represent, ele entrou no palco, provocando gritos da plateia.
Segundos as falas de Yotuel, o grupo em breve deve lançar um novo álbum, já intitulado de Guantanamera, que faz referência ao local e a canção que foi executada na sequência da mais bela forma possível.
Batida pesada, e aquela lembrança dos scratchs, do disco de estréia, traz A Lo Cubano, com Roldán dando um show á parte com o lado da rumba. Mais uma do disco de estréia, e o clima tropical só subia a temperatura com a sagacidade de Mística.




Celebraram faixas importantes da sua trajetória como: Hay Un Son, El Kilo, Barrio e Bembe.A rima nervosa se alia com a rumba de primeira linha em Atrevido, causando um alvoroço no público. 537 Cuba, faz uma referência ao prefixo telefônico do país, e conta sobre suas características da cidade natal dos integrantes.
Havana 1957 com Elisa, uma de suas backings fazendo uma apresentação charmosa e trazendo ainda mais veracidade pra canção que aborda a época pré-revolução. Pátria y vida, é um afronta ao slogan "Patria o Muerte", criado na década de 60 por Castro, sobre a soberania patriota no país, e que artistas e músicos, contestavam por mudanças radicais no país.
A música de vanguarda cubana foi celebrada com Chan Chan, de Compay Segundo, um dos maiores músicos do país, que foi redescoberto pelo Buena Vista Social Club.
Por inúmeras vezes Yotuel bradou pela liberdade de Cuba, não á toa, pelas projeções do pais no telão, além das bandeiras que espelhavam por toda casa de show.




Num clima tropical, Yotuel anunciou a intro de Cuba Isla Bella. Na sequência Que pasá?, pérola do álbum Emigrante, e No Hace Falta Na', do álbum Gourmet.
O final foi com a Naci Orishas impecável como sempre, mostrando que as raízes vem das ruas e do underground.
O Orishas representa uma era de um país amassado pelo governo ditatorial cubano, mas que sempre não lhe faltou voz pra celebrar a vida, e povo cansado de tanto sofrer por décadas, não foi apenas um show, foi um ato heróico de resistência.





