PIL: a raiz do pós punk
Após 34 anos grupo britânico volta ao Brasil pra um show único no Cine Jóia
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German Martinez
2/6/20266 min read


Uma figura altamente inflamável e disruptiva, John Lydon, ou Joãozinho Podre, se fosse numa outra fase de sua vida. Cansado de tudo aquilo o que os holofotes lhe trouxeram com a reverberação do trabalho dos Sex Pistols, Lydon deixou de lado as camisetas ofensivas, as jaquetas de tarraxa, e o cabelo tresloucado, pra um visual totalmente descolado com cabelo colorido, terno ou até mesmo dreadlocks.
Não se havia passado nem um ano após o estardalhaço que os Pistols haviam feito no Reino Unido, e que acabaram sucumbindo após uma turnê norte-americana, no início de 1978. Meses depois Lydon queria experimentar e abandonar aquela persona que Malcolm McLaren havia criado pra ele e seus comparsas de banda. Ele tomou a frente e quis ser o "chefe" do seu novo projeto, sendo logo comparado com sua postura de sua banda anterior, e sabendo que seria sempre julgado por ser o frontman que quebrou todos os paradigmas, Lydon foi absolutamente esperto e criou Public Image Ltd, ou seja, uma conotação pra ele mesmo, que já era uma pessoa pública.
A origem do nome da banda, veio inspirado no livro de Muriel Spark. Após a separação dos Pistols, Lydon viajou pra Jamaica, a convite de Dennis Morris, seu amigo e fotógrafo, junto do presidente da Virgin Records, Richard Branson, lá Lydon veio com a idéia na cabeça de fazer um "novo som", e obviamente uma nova banda que não fosse de punk rock. Lydon recrutou Keith Levene, que havia passado pelo The Clash, Jah Wobble no baixo, Jim Walker na bateria, e essa foi a formação que deu o pontapé inicial da banda. O próprio Richard Branson, esboçou um esforço pra que Lydon se tornasse o vocalista do Devo, mas sem sucesso.


"Continuem com raiva e nada de nostalgia"
John Lydon, Bizz, 1987
Show de estréia
O PIL já começou de modo estranho, ainda em 1978, um produtor belga quis levar a banda pra tocar em Bruxelas, sob os resquícios do punk rock, que haviam sido espalhados justamente por bandas como os Pistols, The Clash, Buzzcocks, Stiff Little Fingers, a cidade esperava todo o ódio que Lydon cuspia em outrora. Contratados para 2 sessões no mesmo dia, os ingressos voaram literalmente e banda teria que fazer seu papel. Enquanto faziam a passagem de som, o sistema de PA queimou, e o produtor local teve que se deslocar loucamente pra tentar substituir o equipamento, enquanto o público já se enfileirava do lado externo da casa. Já atrasados pra primeira sessão, o PIL entrou uma hora depois do combinado e foi catastrófico, fizeram uma performance com 25 minutos de duração, e a banda insultava a platéia, e Lydon mal interpretava as canções e saia do palco pra praticamente "declamar" as letras. O público já estranhando tudo, aguentou mais uma performance da banda de abertura na segunda sessão, e viu o PIL fazer um show por volta de 60 minutos, com os músicos totalmente despreocupados tocando de costas para o público e Lydon, sem muito a acrescentar.
A partir desse momento o PIL quebrou o paradigma que muitas pessoas achavam que seria um show de punk rock e o que viram foi, uma desconstrução musical em pleno ano de 1978.


First Issue, o álbum de estréia, já chama atenção pela sua capa, com o próprio Lydon em pose de ternura e ao mesmo sinistra, dependendo do ponto de vista. A foto de capa foi feita por Morris, e é uma paródia da revista TIME. O disco trilhou novos rumos musicais, mesclando influências de Dub, Punk e Eletrônico, e apontado como a pedra fundamental do que se poderia chamar de "Pós-Punk"
Após o segundo álbum, Jim Walker decidiu abandonar o barco, e foi realmente "Um Deus nos acuda", na busca de posição de bateristas. Na sua primeira turnê norte-americana, os shows foram bem conturbados entre banda e platéia, e a conexão não foi das melhores. A banda também teve alguns episódios "estranhos e engraçados", em programas de TV e de rádio.
Numa excursão pros Estados Unidos, em 1981, eles marcaram um show no The Ritz, em Nova York, e esse foi motivo de ódio do público, a banda optou por uma tela de projeção no palco, sem deixar que os vissem, a performance causou uma bagunça generalizada, provocando o arremesso de garrafas que danificaram equipamentos, enquanto os mais afoitos tentavam retirar a tela sob a banda.
Como tudo que Lydon fazia era pra quebras regras e em Metal Box, não foi diferente, eles trabalharam num disco triplo, e com uma caixa de metal especial que cobria o material. Nesta época Wobble decidiu cair fora da banda, e no disco seguinte, "Flowers Of Romance", reproduz exatamente a falta de Jah, porque o baixo foi praticamente abandonado na gravação, e as guitarras e sintetizadores se faziam cada vez mais presentes junto do vocal de Lydon.

Em 1984 lançaram This Is You Want...This What You Get, que apontava pra um outro rumo onde Lydon cada vez mais o apelo ao pop e o eletrônico. Foi em 1986, que Lydon chamou Bill Laswell e a banda lançou "Album", que continha faixas como Rise e Home, que emplacaram pra sempre na mente dos fãs do grupo, e virariam grandes clássicos deste disco. Lydon foi atrás de Ginger Baker do Cream pra participar, assim como convidou Ryuichi Sakamoto e o virtuoso Steve Vai.
O fluxo criativo estava rendendo e bem, porque um ano depois, eles soltaram Happy?, o seu sexto álbum de estúdio, e que lhes rendeu uma turnê norte-americana ao lado do INXS.


Acervo pessoal
Dennis Morris
"Siouxsie and The Banshees, Simple Minds e o The Cure, nenhum deles teria seguido carreira sem a influência do PIL"
John Lydon, Bizz, 1987
Capa da Bizz
Em 1987, a banda foi capa da revista Bizz, e ali Lydon contou com exclusividade ao repórter Thomas Pappon qual era seu intuito com o seu novo projeto e o que esperaria da turnê sul-americana, que passou pelo Anhembi em São Paulo e no Canecão, no Rio de Janeiro, este com inúmeros músicos na platéia, inclusive Renato Russo, um dos maiores fãs da carreira de Lydon, não a toa, Russo regravou Rise, no seu aclamado Acústico MTV, em 1992.
Brasil 1992
Cinco anos depois de pisarem pela primeira vez no país, Lydon e sua trupe voltariam pra desta vez divulgarem seu novo trabalho á época: That What Is Not, que contou com um show único no extinto Palace, pra cerca de 3 mil pessoas. A vinda pro Brasil, serviu como despedida pra carreira da banda, após isso a banda "hibernou" por um grande período.
O retorno em 2009
Após um longo hiato, de 17 anos, Lydon resolveu ativar novamente o PIL, fazendo shows pelo Reino Unido e também graças a convites de festivais como Coachella, a banda fez várias datas ao redor do território norte-americano, essa volta desembocou com o grupo tocando ao vivo no programa de Jimmy Kimmel.

Atualidade
O décimo disco da banda é End Of World, lançado em 2023, a critica especializada elogiou o disco, sendo com um respiro de Lydon num novo milênio, o álbum reflete muito o momento que Lydon passou com o falecimento de sua esposa Nora Forster, com qual compartilhou mais de 45 anos de vida, e a partida de seu companheiro de equipe John "Rambo" Stevens. O álbum marca o terceiro disco lançado pelo próprio selo da banda, de forma independente.
A atual formação conta com Lydon , e com Lu Edmonds, seu fiel escudeiro desde os primórdios do PIL nos anos 80, e conhecido por ter sido do The Damned, conta com o baixista Scott Firth que conquistou a vaga após a volta em 2009, e o baterista Mark Roberts, músico que passou a integrar o grupo na época do End Of World, de 2023.
Lydon, criou um novo logotipo pra esta nova turnê, e alega que a arte já faz parte de um "recomeço" pra sua banda. Apesar do título desta nova turnê, This Is Not The Last Tour, ele diz que não deve ser uma despedida, mas sim uma celebração de quase meio século do Public Image Ltd.


O show ocorre no dia 08/04/2026, quarta feira, no Cine Jóia, a produção é da Maraty/Powerline.
Ingressos disponíveis:

