Public Image Ltd: um espelho de si mesmo

Mais de 3 décadas depois, PIL lava a alma dos apreciadores do pós-punk inglês

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Fotos por Raíssa Corrêa - Texto German Martinez

4/10/20264 min read

Seria difícil falar sobre o que ocorreu na última quarta-feira (08/04/2026), na capital paulista, sem traçar um paralelo com o tempo e o PIL. Quando a banda veio pela primeira vez em 1987, a banda ainda vivia os resquícios de um "pseudo" sucesso com o álbum homônimo, e seu sucessor Happy?, e posteriormente tocariam 5 anos mais tarde, em 1992, no finado Palace, na época pra promover o álbum That What Is Not.

O tempo não pegou leve com ninguém, este que vos fala, não tinha completado 10 anos de idade, nesta última performance no país ainda nos anos 90, e hoje só poderia ver essa apresentação com seus quase 43, então passeamos por uma linha tênue que nos distanciou tanto da obra de Lydon novamente por aqui e por si só, este show teria um contexto histórico, por mais que muitos duvidem.

Enquanto Lydon, buscou novamente revisitar seu espólio fabricado pós a explosão do Punk, do outro lado os remanescentes do Pistols: Steve Jones, Glen Matlock, Paul Cook decidiram reativar o grupo com Frank Carter nos vocais. O PIL contaria com Lu Edmonds, nas guitarras e sintetizadores, Scott Firth no baixo, e Mark Roberts, o mais novo membro do grupo.

Como o próprio já diz "This Is Not A Last Tour", Lydon foi provocativo ao nomear turnê, alegando que não seria a última, pois a banda está numa fase ótima atualmente, segundo ele. Mas se precisarmos de mais 34 anos, tanto eles como nós, não estejamos maís aqui pra contar tal fato.

Com um repertório que foi escolhido a dedo pra a América do Sul, tais canções apontariam para várias fases da banda, obviamente, mas deixando umas belas canções que foram deixadas de fora, já que a performance teria por volta 1:30 de duração. Às 21:30, o quarteto subiu ao palco e destilou numa versão esquisita de Home, que virou uma espécie de jam, até ir emendado com canções como Know Now e Corporate, canções recentes, que acabaram não empolgando o público presente.

Mark, quase escondido sobre suas peças de bateria, fazia um som truncado, enquanto Scott, mesmo debilitado do pé direito, e sentado, fazia bases que davam inveja. Do lado contrário, tínhamos Lu Edmonds, ah, o Lu Edmonds, cheio de postura, caretas e obviamente boas nuances de guitarra, ajudavam Lydon, a ler suas letras em sua estante de partituras.

Mal sabíamos que a versão que eles tocariam depois, do Time Zone, World Destruction, o projeto de Lance Taylor aka Afrika Bambataa com participação de Lydon, viria a falecer no dia posterior aos 67 anos de idade, vítima de um câncer.

Com seu eterno cabelo espetado meio alaranjado, de terno, e no alto dos seus seus 70 anos, Lydon trazia o timbre de voz que o personficou há décadas atrás como em This Is Not A Love Song, causando aí talvez o primeiro ponto alto do show.

Uns mais quietos, outros mais afoitos, porque a faixa etária desta vez era 50+ (então não houve tantos exageros por parte da platéia). Mas se no começo tudo estava morno, foi com uma trinca imprescindível da obra do PIL, que os ânimos realmente se afloraram, com a sequência irredutível de Poptones, a magistral Death Disco, e a estranha Flowers Of Romance.

Entre poucas falas de Lydon, e alguns goles de vinho (acho que era), Lydon tentava se comunicar com a platéia, deu um esporro num espectador, fez piadas e seguiu seu show. A poderosa e longa Warrior, dava o tom da apresentação que era algo pra admirar o som experimental da banda. Do disco mais recente, Shoom, dá uma cutucada na antiga banda de Lydon.

Pra término do set "regular", Public Image, veio com tudo e os fez tomarem um respiro no backstage pra voltarem 3 minutos mais tarde.

Já sem terninho, mas de camisa larga e suspensório, era hora de irem pra mais um versão, desta vez pra transformar o Cine Jóia numa boite Londrina dos anos 90, com a versão de Open Up, do Letfield, da qual Lydon compôs e emprestou sua voz à canção. Se todo órfão da Legião Urbana, estava esperando por Rise, esse momento chegou e fez todo mundo cantarolar a letra, do ínicio ao fim.

Com todo mundo ali na casa dos 60, 70 anos de idade, conseguir levar adiante um show de 90 minutos é difícil, e o fim víria com varias faixas emendadas: Annalisa, Attack e Chant. Se esta não é a última turnê, nunca saberemos dizer, mas o sabor de uma despedida talvez já fique na mente dos presentes, de terem compartilhado desta performance do PIL após 3 décadas.