Scream: ainda seguem gritando

Clássica banda do Hardcore de Washington DC, pisa pela primeira vez no Brasil

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Texto German Martinez - Fotos Raíssa Corrêa

2/27/20265 min read

É um tanto complicado às vezes falar de fatos que você vê ou sente, e talvez através de escrita ela não chegue da forma que muitos gostaríamos que fosse, mas pra aqueles que ainda se interessam em sentar 3 ou 4 minutos pra ler resenhas, livros ou coisa que o valha, conseguem sim, se pôr no ângulo do narrador.

Pois bem, o que ocorreu ontem (26/02/2026), no Sesc Avenida Paulista, localizado no coração da grande metrópole foi um exemplo de energia, superação e cumplicidade de uma das bandas mais heróicas do cenário norte-americano, em específico do subúrbio de Bailey's Crossroads, Virginia. Ter visto de frente, pessoas que há mais de 45 anos já estavam fazendo Hardcore, sem a gente sequer engatinhar, é muito louvável.

Não é simplesmente só mais uma banda, é simplesmente o Scream! E essa história não posso somente contar o que foi a performance em si, é uma história que se inicia justamente no final dos anos 70, quando os irmãos Pete Stahl e Franz Stahl, se juntaram ao baterista Kent Stax, que substituiu Steve Atton, e o baixista Enoch "Skeeter" Thompson. O som se caracterizava pela urgência, pela energia, o grupo também bebia de fontes como o Dub, e The Clash/Bad Brains.

Se você não estava congelado durante os últimos 40 anos, sabe da importância da Dischord, gravadora capitaneada por Ian Mackaye (Fugazi, Minor Threat, Teen Idles) e Jeff Nelson. O Scream foi a banda que lançou o primeiro álbum (LP) cheio dentro da gravadora, fato que pra muitos só valeria "ouro" anos mais tarde, porque talvez na época muita gente não se ligou. Still Screaming, é uma "pancada", um álbum direto, que de forma linda captura a essência do momento que os caras viviam ali no começo dos 80.

O disco tem faixas que são obrigatórias até hoje pra qualquer fã de Hardcore, e se vc ainda não ouviu, procure saber, pois não vai se arrepender. Um disco que privilegia grande parte do seu repertório até hoje. Mesmo com o peso considerável da estréia, o grupo não afrouxou os cintos e fez discos como: This Side Up (1984), Banging The Drum (1987). Após algumas turnês pelos EUA, a banda implodiu no início dos anos 90, e cada um acabou por fazer novos projetos.

Um privilégio pra poucos (e obviamente pra nós), ver os irmãos Stahl, o baixista Skeeter, o baterista Andrew Black, e na outra guitarra Mr. Gizz Butt, sim, o mago das guitarras do English Dogs, The Destructors , The Prodigy, trazendo o lado britânico pra banda, sendo que Gizz, lembra muito o jeito de Johnny Thunders tocar. Já parou pra ver esse time? Mas, e o Dave Grohl? Grohl gravou com a banda, os discos No More Censorship e Fumble, e de fato fez a história com a banda, fazendo turnês, mas também não podemos nos esquecer que devido a sua amizade com Franz, ele acabou convidando o guitarrista pro Foo Fighters, e consequentemente demitindo ele da banda 2 anos depois.

Por volta de 2011, a banda voltou a se reunir com mais frequência, e passou a fazer algumas excursões, principalmente pela Europa. Em 2023, lançaram também pela própria Dischord, o álbum DC Special, mesmo ano em que o baterista Kent Stax faleceu, vítima de um câncer.

E pra chegar até aqui, em fevereiro de 2026, ou seja, no mínimo 46 anos de atraso (mas nunca é tarde, pra quem é fissurado em música), eles pisaram pela primeira vez no Brasil, numa noite terrivelmente chuvosa e caótica da capital paulista, o Scream pôs o sorriso no rosto e deixou tudo acontecer. É difícil você julgar a intensidade de uma banda com tanta cancha dentro do cenário e até mesmo por conta da idade dos integrantes, e isso te põe em xeque mate de como vai ser a performance, mas é aí que você se engana, a energia foi disparada logo de cara com faixas como The Zoo Closes At Dark e Bored To Life, que emendadas funcionam como um casal apaixonado. E foi assim por quase todo show, sem tempo pra respirar, um quebrada de tempo e música atrás de música.

Assim vieram faixas com Hell Nah, No More Censorship, Killers, numa pauleira contínua. Pete não deixava de agradecer aos presentes, e mostrar que realmente estavam felizes de estar ali no palco. Enquanto Pete incitava o mosh, ele disparou This Side Up, Influenced.

Fight/American Justice foi algo inenarrável mediante tanta energia, e sem dúvidas uma das maiores canções do disco de estréia da banda. E vale salientar se fosse pra eles se apresentarem tocando só o Still Screaming na íntegra, o show já seria obrigatório por si só. Mas não se esqueceram de escolher as melhores faixas do álbum seguinte This Side Up, que é recheado de belas canções como: Bet You Never Thought, Things To Do Today, e a faixa título.

Quando se olhava pra trás, na platéia, era muito interessante ver que muitos dos espectadores eram de bandas de São Paulo, e saber que tal obra/banda de alguma forma colaborou pra influência de muitas bandas que surgiram no cenário paulistano. Sem parar e inquietante, Pete não parava de girar sob o palco, de ir pra frente do público, de fazer caretas pras câmeras que o ousavam fotografar. E bordoadas no nível de Walking By Myself, Bedllam, e a caótica Cry Wolf, que Pete queria a platéia cantasse junto.

A despedida veio com o maior clássico (podemos dizer assim?), Came Without Warning, levando até o mais desatento a entrar na roda ou cantar alguma estrofe da canção. Com esse fim caótico a banda se retirou do palco, e logo, pediram um bis, Pete voltou com um violão e tocou sozinho uma canção acústica, enquanto a segunda seria com a banda toda, fazendo a DC Special Sha La La, que pôs fim a primeira noite de duas, que a banda fará no mesmo local, e segue pra Jundiaí no sábado.

Obrigado Scream, o Hardcore agradece!